Muitas pessoas que desejam começar a investir, mas ainda não possuem capital próprio costumam fazer a mesma pergunta: vale a pena pegar um empréstimo bancário para investir e tentar lucrar com juros compostos?
Para responder essa dúvida de forma prática e mostrar se a estratégia realmente funciona, o canal Gêmeos Investem realizou um experimento utilizando dinheiro emprestado. Os especialistas contrataram um empréstimo de R$ 10 mil no Nubank e aplicaram todo o valor em um investimento de renda fixa durante 30 dias.
O resultado chamou atenção e serviu como um importante alerta sobre os riscos do endividamento e o peso da carga tributária brasileira. Ao final do teste, a estratégia terminou com um prejuízo líquido superior a R$ 400, demonstrando que, na prática, a conta não fechou.
A mecânica do experimento: crédito fácil disponível em poucos minutos
Um dos primeiros pontos destacados pelos especialistas foi justamente a facilidade para contratar crédito atualmente.
Ao acessar o aplicativo do Nubank, os investidores verificaram que a instituição disponibilizava limites pré-aprovados elevados para alguns clientes, chegando a R$ 100 mil e, em determinados perfis, até R$ 200 mil.
Segundo o canal, todo o processo de contratação acontece em poucos minutos, praticamente com alguns toques na tela, o que evidencia como é simples assumir uma dívida sem analisar cuidadosamente o Custo Efetivo Total (CET) da operação.
Para o experimento, foi escolhido um empréstimo pessoal, cuja taxa oferecida era de 1,95% ao mês.
Embora seja considerada relativamente baixa para os padrões do crédito sem garantia no Brasil, o impacto dessa taxa se torna significativo ao longo do tempo. Caso o contrato fosse mantido pelas 48 parcelas previstas, um empréstimo de R$ 10 mil resultaria em um pagamento total próximo de R$ 16 mil.
Onde os R$ 10 mil foram investidos?
Depois da contratação do crédito, todo o valor foi aplicado em uma das Caixinhas do Nubank, modalidade de investimento em renda fixa que oferece rentabilidade equivalente a 100% do CDI.
Na época em que o teste foi realizado, a taxa Selic estava em 15% ao ano, fazendo com que o CDI rendesse aproximadamente 14,9% ao ano, o equivalente a cerca de 1,16% ao mês bruto.
A lógica que costuma atrair muitos investidores iniciantes parece bastante simples:
“Se o empréstimo custa uma taxa e o investimento rende outra, a diferença será o meu lucro.”
No entanto, os especialistas explicam que essa conta ignora um fator fundamental.
Os bancos nunca emprestam dinheiro por uma taxa inferior ao custo utilizado para captar esses recursos, normalmente atrelado ao CDI. Essa diferença entre o custo de captação e os juros cobrados nos empréstimos recebe o nome de spread bancário, considerado uma das principais fontes de lucro das instituições financeiras.
O “vilão” oculto: IOF e impostos tornam a estratégia inviável
Segundo o canal Gêmeos Investem, o principal motivo para o fracasso da estratégia não foi apenas a diferença entre os juros cobrados e os rendimentos obtidos.
O maior problema apareceu na tributação incidente sobre toda a operação.
IOF cobrado no empréstimo
Logo no momento da contratação, incide o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
No experimento, sobre os R$ 10 mil emprestados foram cobrados R$ 324,75 de IOF.
Na prática, isso significa que, embora o investidor tenha recebido R$ 10 mil para aplicar, sua dívida já começou em R$ 10.324,75.
Imposto sobre o rendimento
A tributação também aparece na outra ponta.
Após 30 dias de aplicação, o investimento gerou um rendimento bruto de R$ 110,84.
Entretanto, esse lucro sofreu desconto do Imposto de Renda, cuja alíquota para aplicações de curtíssimo prazo é de 22,5% sobre o rendimento.
O governo arrecada nas duas pontas
Os especialistas chamam atenção para outro detalhe importante.
Enquanto o investidor assume todo o risco da operação, o governo arrecada tanto no momento da contratação do empréstimo quanto na hora em que o investimento gera rendimento.
Primeiro, por meio do IOF.
Depois, através do Imposto de Renda incidente sobre o lucro da aplicação.
O resultado final: a matemática mostrou prejuízo
Depois de 30 dias, o investimento de R$ 10 mil passou a valer R$ 10.085,91 líquidos.
No entanto, ao solicitar a quitação antecipada do empréstimo para encerrar o experimento, o valor necessário para liquidar toda a dívida era de R$ 10.519,53, mesmo considerando os descontos pela antecipação das parcelas.
O balanço final apresentado pelo canal foi o seguinte:
- Valor do empréstimo: R$ 10.000,00;
- IOF cobrado na contratação: R$ 324,75;
- Rendimento líquido da aplicação: R$ 85,91;
- Resultado final: prejuízo de R$ 433,62.
Segundo os especialistas, foi necessário utilizar dinheiro do próprio bolso para quitar a diferença, comprovando que utilizar empréstimo para investir em renda fixa representa uma estratégia financeiramente desfavorável nas condições analisadas.
Lições de educação financeira: por que não vale a pena?
A principal conclusão do experimento é direta.
Empréstimo não representa investimento. Representa dívida.
Segundo o canal, no atual cenário econômico brasileiro, caracterizado por elevados juros, spread bancário e forte tributação, utilizar dinheiro emprestado para investir em ativos conservadores tende a gerar prejuízo.
“Você tem que estar do lado que recebe juros. Se você está do lado devedor, vai ser difícil, porque o banco e o governo estarão contra você”, afirmaram os especialistas.
Eles destacam que o crédito somente poderia fazer sentido em situações específicas, como investimentos em um negócio próprio com elevada margem de lucro e potencial de retorno superior ao custo da dívida, e não para aplicações tradicionais de renda fixa.
Dicas para evitar armadilhas financeiras
Com base no experimento, os especialistas reuniram algumas orientações para investidores.
Atenção ao Custo Efetivo Total (CET)
Mais importante do que observar apenas a taxa de juros é analisar o Custo Efetivo Total, que inclui IOF, tarifas e demais encargos da operação.
No teste, somente o IOF representou um custo imediato superior a 3%.
Evite aplicações de curtíssimo prazo
Investimentos mantidos por menos de 30 dias sofrem incidência de IOF sobre os rendimentos, além da maior alíquota de Imposto de Renda.
Entenda quem recebe primeiro
Enquanto o investidor assume todos os riscos da operação, o governo recebe o IOF imediatamente, e o banco garante sua remuneração por meio dos juros cobrados.
O que resultou o experimento
Ao final do experimento, o canal Gêmeos Investem deixa uma recomendação clara aos investidores.
Em vez de buscar atalhos utilizando dinheiro emprestado, o caminho mais seguro continua sendo investir em educação financeira, aumentar a capacidade de gerar renda, construir patrimônio com recursos próprios e diversificar os investimentos de forma planejada, inclusive avaliando oportunidades em mercados internacionais quando fizer sentido para a estratégia de longo prazo.
Segundo os especialistas, compreender como funcionam os juros, os impostos e o custo do crédito é uma etapa essencial para evitar armadilhas financeiras e tomar decisões mais conscientes na construção do patrimônio.
