Satélites a cerca de 500 km da Terra, celulares comuns e o fim das áreas sem sinal: como a tecnologia Direct to Cell pode mudar a internet móvel no Brasil ainda este ano

A possibilidade de usar um celular comum para enviar mensagens e acessar serviços básicos mesmo em locais completamente sem cobertura das operadoras está mais próxima de se tornar realidade no Brasil. A tecnologia Direct to Cell — também chamada de Direct-to-Device (D2D) — utiliza satélites de baixa órbita para estabelecer comunicação direta com smartphones compatíveis, sem a necessidade de antenas parabólicas ou telefones via satélite.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vem adaptando as regras para viabilizar esse modelo no país, enquanto operadoras e empresas do setor realizam testes e negociações para oferecer o serviço.

Em entrevista à CNN Brasil, o especialista Adriano Ponte, do Canaltech, explicou que a novidade não substituirá imediatamente as redes 4G e 5G, mas funcionará como uma camada adicional de conectividade para situações em que não houver cobertura terrestre. Segundo ele, a tecnologia representa um dos maiores avanços recentes na telefonia móvel.

Como funciona a tecnologia Direct to Cell

Hoje, praticamente toda a telefonia móvel depende de torres instaladas em solo.

Sempre que uma pessoa faz uma ligação, envia uma mensagem ou utiliza a internet móvel, o smartphone se conecta automaticamente à antena mais próxima. Conforme o usuário se desloca, o aparelho troca de torre sem interromper a comunicação.

O problema surge em regiões rurais, rodovias, áreas de mata, embarcações, comunidades isoladas ou até estacionamentos subterrâneos, onde essas torres simplesmente não alcançam o aparelho.

É justamente nesse cenário que entra o Direct to Cell.

Segundo Adriano Ponte, quando o celular perde completamente o contato com a rede convencional, ele poderá utilizar satélites como alternativa para manter algum nível de comunicação.

“Com seu equipamento comum, você consegue ter como rede de apoio o Direct to Cell”, explicou o especialista durante entrevista à CNN Brasil.

Satélites muito mais próximos da Terra

A principal diferença em relação aos antigos telefones via satélite está na distância entre os equipamentos espaciais e o planeta.

Os satélites tradicionais de telecomunicações costumam operar em órbita geoestacionária, aproximadamente 36 mil quilômetros acima da Terra.

Já o Direct to Cell utiliza satélites de baixa órbita (LEO – Low Earth Orbit), posicionados em torno de 500 quilômetros de altitude, reduzindo significativamente a latência e tornando possível a comunicação direta com smartphones convencionais.

Essa arquitetura já é utilizada por constelações como a Starlink e por outras empresas que investem em conectividade espacial.

O celular não precisa de antena especial

Uma das maiores vantagens do novo sistema é justamente eliminar a necessidade de equipamentos dedicados.

Ao contrário dos antigos telefones via satélite, que exigiam grandes antenas e planos extremamente caros, o Direct to Cell foi desenvolvido para funcionar em smartphones compatíveis, utilizando tecnologias já presentes nos aparelhos modernos.

Pesquisas técnicas apontam que o sistema foi concebido para operar inicialmente como uma extensão das redes móveis existentes, sem exigir alterações significativas no hardware dos usuários.

O objetivo inicial não é oferecer internet rápida

Apesar da expectativa criada em torno da novidade, especialistas ressaltam que a primeira fase do serviço será bastante diferente da experiência atual do 5G.

Segundo Adriano Ponte, os satélites precisam simular o funcionamento de uma torre de celular enquanto percorrem rapidamente sua órbita.

Essa limitação faz com que a capacidade de transmissão inicial seja relativamente pequena.

Por isso, a prioridade deverá ser:

  • envio e recebimento de mensagens;
  • compartilhamento de localização;
  • comunicações de emergência;
  • conectividade básica em áreas totalmente sem cobertura.

O acesso amplo à internet deverá evoluir gradualmente conforme a tecnologia amadurecer.

A tecnologia não substitui as operadoras

Outro ponto importante é que o Direct to Cell não foi criado para eliminar as redes móveis tradicionais.

Nas cidades, onde existe ampla cobertura de antenas terrestres, o celular continuará utilizando normalmente as redes 4G e 5G.

O satélite funcionará como uma rede complementar, entrando em ação apenas quando não houver sinal convencional.

Especialistas descrevem esse modelo como uma espécie de “cobertura de emergência”, garantindo conectividade onde atualmente existe completo isolamento.

Brasil prepara regulamentação

O avanço da tecnologia depende principalmente das autorizações regulatórias.

A Anatel vem atualizando as regras para permitir a operação de sistemas Direct-to-Device e ampliar o uso de frequências destinadas à comunicação direta entre satélites e celulares.

Segundo a agência, isso não representa autorização automática para serviços comerciais, mas cria as bases necessárias para que empresas interessadas possam solicitar testes e futuras operações.

Operadoras já iniciam movimentações

O mercado brasileiro também começou a se preparar.

Nas últimas semanas, surgiram informações sobre negociações entre a Telefônica Brasil (Vivo) e a SpaceX para utilização da tecnologia Direct-to-Device.

Além disso, a Anatel autorizou testes envolvendo essa modalidade de comunicação em território nacional, permitindo avaliar desempenho, cobertura e integração com as redes existentes.

Quem mais deve se beneficiar

Os maiores beneficiados tendem a ser pessoas que vivem ou trabalham em regiões onde o sinal celular costuma desaparecer.

Entre os exemplos estão:

  • produtores rurais;
  • motoristas em rodovias;
  • comunidades isoladas;
  • equipes de resgate;
  • turistas em trilhas;
  • embarcações;
  • profissionais que atuam em áreas remotas.

Nesses locais, uma simples mensagem de emergência poderá fazer diferença em situações críticas.

Ainda existem desafios técnicos

Embora represente um avanço importante, o Direct to Cell ainda enfrenta limitações.

Os satélites precisam acompanhar milhões de dispositivos espalhados pelo planeta, compartilhando capacidade de transmissão entre diferentes regiões.

Além disso, fatores como vegetação densa, edifícios, relevo e condições atmosféricas podem influenciar a qualidade da conexão.

Estudos recentes apontam que a evolução para serviços completos de dados dependerá tanto da expansão das constelações de satélites quanto da evolução das normas internacionais de redes não terrestres (NTN).

Entrevista explica como funcionará o sistema

Em entrevista à CNN Brasil, o especialista Adriano Ponte, do Canaltech, detalhou como funcionará a comunicação direta entre smartphones e satélites de baixa órbita, explicou por que a tecnologia não exige aparelhos especiais e mostrou de que forma ela deverá complementar as redes tradicionais de telefonia móvel. Segundo ele, a expectativa é que o Direct to Cell comece a chegar gradualmente ao Brasil à medida que as questões regulatórias forem concluídas.

Se a implementação seguir o cronograma esperado pelas empresas e pela Anatel, a tecnologia poderá representar uma das maiores transformações da telefonia móvel desde a chegada do 4G, reduzindo significativamente as chamadas “zonas mortas” e ampliando a conectividade em regiões onde, até hoje, o celular simplesmente deixava de funcionar.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.