Salários de até R$ 10 mil não atraem jovens: Construção civil vive crise de mão de obra em meio ao crescimento do setor

Enquanto o número de empregos formais cresce e a construção já emprega mais de 3 milhões de trabalhadores, empresas relatam dificuldade para encontrar profissionais; salários variam conforme região, especialização e experiência, e o envelhecimento dos canteiros aumenta a preocupação com a reposição

Construção civil oferece vagas, mas falta de trabalhadores ameaça obras no Brasil; idade média subiu e setor tenta atrair jovens para profissões que podem pagar mais com experiência

A construção civil brasileira vive uma situação que parece contraditória: o setor continua abrindo postos de trabalho, mas encontrar pessoas para ocupar determinadas funções ficou cada vez mais difícil. Pedreiros, carpinteiros, encanadores, gesseiros, armadores e ajudantes estão entre os profissionais procurados pelas empresas, justamente em um momento em que a idade média dos trabalhadores da construção aumentou e a entrada de jovens não acompanha a necessidade das obras.

O problema não é apenas uma impressão de empresários. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) afirma que o setor enfrenta uma crise de mão de obra e aponta que a média de idade dos trabalhadores passou de 38 anos em 2016 para 41 anos em 2024. A entidade também destaca que os canteiros estão menos atraentes para os jovens e que a reposição dos profissionais que deixam o mercado não ocorre na velocidade necessária.

Ao mesmo tempo, a construção continua sendo uma importante fonte de empregos formais. No primeiro trimestre de 2026, o saldo de novos postos com carteira assinada no setor cresceu quase 19% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento divulgado pela CBIC com base nos dados do Novo Caged. A construção respondeu por cerca de um em cada cinco empregos formais criados no país no período.

O problema começa no canteiro de obras

Para quem acompanha a construção civil há décadas, a mudança no perfil das equipes é perceptível.

Nonato, mestre de obras com 40 anos de experiência, relatou ao Jornal da Record que a dificuldade começa justamente na base da cadeia profissional, onde estão os trabalhadores responsáveis pelas tarefas mais pesadas.

“A construção civil é um serviço pesado, principalmente para o ajudante. Falta gente jovem hoje na construção civil. Os jovens não querem mais trabalhar na construção civil”, afirmou.

A fala resume uma das principais dificuldades enfrentadas pelas empresas: não basta ter uma obra contratada e recursos disponíveis. É necessário conseguir formar uma equipe capaz de executar cada etapa dentro do cronograma.

Uma obra de edifício, por exemplo, precisa de profissionais diferentes conforme avança. O trabalho pode envolver serventes e ajudantes na preparação inicial, seguido por pedreiros, carpinteiros, armadores, eletricistas, encanadores, gesseiros, pintores e outros especialistas.

Quando uma dessas funções fica descoberta, o impacto pode se espalhar para outras etapas.

As vagas existem, mas os candidatos não aparecem na mesma velocidade

O diretor de uma construtora ouvido pelo Jornal da Record descreveu exatamente essa dificuldade.

“Todas as nossas obras precisam de alguém. Necessitam de ajudantes, pedreiros, carpinteiros, gesseiros, de acordo com a fase da obra”, afirmou.

Na reportagem (assista acima), uma obra residencial de 16 andares aparece com 20 vagas abertas para diferentes funções.

O exemplo ajuda a visualizar o problema. Uma empresa pode ter financiamento, terreno, projeto e cronograma, mas ainda assim encontrar dificuldades para avançar se não conseguir montar uma equipe completa.

E o problema não está restrito a uma única construtora.

Em 2026, a própria CBIC colocou a escassez de trabalhadores entre os principais desafios discutidos pelo setor. Durante o Encontro Internacional da Indústria da Construção, a entidade afirmou que a mão de obra disponível havia diminuído cerca de 30% em determinados contextos e que a reposição de profissionais podia custar até três vezes mais.

O salário pode aumentar com a experiência, mas R$ 10 mil não é regra

Um dos pontos que mais chama atenção na discussão é a possibilidade de crescimento profissional.

A construção civil possui carreiras em que o trabalhador pode começar em uma função de entrada e, com experiência e qualificação, assumir atividades de maior responsabilidade.

Mas é preciso separar oportunidade de renda máxima de salário típico.

Dados atualizados em julho de 2026 pelo Portal Salário, utilizando informações do Caged, indicam que um pedreiro empregado sob regime CLT recebe, em média, R$ 2.541,50 por mês no Brasil. A própria base mostra que remuneração varia conforme experiência, função, localidade e política salarial da empresa.

Convenções coletivas também mostram diferenças significativas.

Em um acordo registrado no sistema Mediador do Ministério do Trabalho, por exemplo, pisos de maio de 2025 estabeleceram R$ 2.235,59 para trabalhadores não qualificados e R$ 2.720,70 para profissionais qualificados, incluindo pedreiros, armadores, carpinteiros, pintores e gesseiros.

Em outra negociação coletiva registrada no sistema oficial, o piso de pedreiro sênior chegou a R$ 3.430, enquanto mestres de obras sênior tinham piso de R$ 8.574.

Isso mostra por que números muito altos precisam ser tratados com cuidado.

Um pedreiro altamente especializado, autônomo, profissional com carteira de clientes ou alguém que tenha avançado para funções de liderança pode alcançar rendimentos bem superiores à média. Entretanto, R$ 10 mil não representa o salário normal de um pedreiro brasileiro.

A carreira pode começar na base

A possibilidade de crescimento é justamente um dos argumentos utilizados para tentar aproximar os jovens dos canteiros.

Um trabalhador pode entrar como ajudante ou servente, aprender novas atividades e, posteriormente, se especializar. Dependendo da trajetória, pode avançar para funções como pedreiro, carpinteiro, armador, eletricista, encanador, encarregado ou mestre de obras.

O caminho não é automático e tampouco ocorre necessariamente em poucos meses.

Experiência prática, cursos profissionalizantes, segurança do trabalho, domínio de ferramentas e capacidade de executar serviços com qualidade podem aumentar as possibilidades de progressão.

O problema é que muitos jovens não enxergam essa trajetória.

A primeira imagem associada à profissão costuma ser a do trabalho pesado, sob sol, carregando materiais e cumprindo jornadas em ambientes que nem sempre oferecem o conforto encontrado em escritórios ou outras ocupações.

Essa percepção pesa na escolha profissional.

“Trabalho pesado” virou uma barreira para uma nova geração

A fala de Nonato revela justamente esse choque entre gerações.

“A construção civil é um serviço pesado, principalmente para o ajudante”, afirmou o mestre de obras.

Durante décadas, a construção civil absorveu trabalhadores que aprendiam uma profissão diretamente no canteiro. Era comum começar como ajudante e adquirir conhecimento observando profissionais mais experientes.

Esse modelo ainda existe, mas enfrenta uma dificuldade adicional: há menos jovens entrando para substituir quem está envelhecendo ou se aposentando.

A CBIC identificou esse movimento ao comparar a idade média dos trabalhadores. O aumento de 38 para 41 anos entre 2016 e 2024 pode parecer pequeno, mas representa uma mudança importante quando ocorre em um setor que depende fortemente da transmissão de conhecimento prático.

O conhecimento pode desaparecer junto com os trabalhadores

A falta de mão de obra não significa apenas menos pessoas disponíveis para carregar materiais ou executar tarefas.

Existe também uma questão de conhecimento.

Um mestre de obras experiente conhece detalhes que não aparecem necessariamente em um manual: como identificar um problema antes que ele fique evidente, como organizar uma equipe, como interpretar determinadas situações no canteiro e como evitar erros que podem gerar desperdício ou retrabalho.

Quando um profissional experiente se aposenta sem transmitir esse conhecimento a uma nova geração, parte dessa experiência pode desaparecer.

É por isso que a CBIC tem defendido iniciativas voltadas à formação e aproximação de jovens com o setor. Em 2026, a entidade abriu uma nova edição do CBIC Jovem, programa destinado à formação de novas lideranças da construção civil.

O programa é direcionado a profissionais mais jovens e inclui treinamentos, debates e projetos acompanhados por profissionais experientes.

Embora não seja voltado especificamente para pedreiros e ajudantes, a iniciativa mostra uma preocupação mais ampla do setor com a formação de uma nova geração.

Tecnologia pode ajudar, mas não resolve tudo

A construção civil também está tentando responder à escassez com tecnologia.

Robôs, inteligência artificial, sistemas de gestão, construção modular e equipamentos automatizados já começam a chegar aos canteiros. A ideia é aumentar a produtividade e reduzir a dependência de algumas tarefas manuais.

Mas existe um limite.

Uma parte considerável da construção ainda exige pessoas para executar serviços variados, adaptar processos às condições reais da obra e tomar decisões diante de situações que não foram previstas no projeto.

Durante o ENIC 2026, a CBIC destacou justamente esse paradoxo: robôs e inteligência artificial estão avançando nos grandes canteiros, mas o setor continua precisando de talento humano.

A tecnologia pode substituir determinadas tarefas.

Ela não substitui, de uma hora para outra, toda a experiência acumulada de uma equipe.

Falta de trabalhador também significa aumento de custo

A escassez possui uma consequência direta para as empresas: contratar fica mais difícil e mais caro.

Quando diversas construtoras disputam os mesmos profissionais, aumenta a pressão sobre salários, benefícios e condições de trabalho.

A CBIC informou que o custo da mão de obra foi um dos componentes que mais pressionaram o custo da construção em 2026. Nos 12 meses encerrados em março, a alta do custo da mão de obra chegou a 8,82%, acima da inflação oficial de 4,14% usada na comparação apresentada pela entidade.

O impacto pode chegar ao preço final da obra.

Se a empresa paga mais para contratar e manter trabalhadores, precisa absorver esse aumento ou repassá-lo parcialmente aos preços dos imóveis e serviços.

Por isso, a falta de profissionais deixou de ser apenas um problema de recursos humanos.

Ela passou a ser também uma questão de produtividade, prazo e custo de construção.

O setor ainda está contratando

Apesar da dificuldade, não se pode dizer que a construção civil esteja paralisada.

Os dados do Novo Caged mostram justamente o contrário.

Em maio de 2026, o mercado de trabalho formal brasileiro registrou saldo positivo de 72.960 empregos, e o acumulado do ano até aquele momento chegava a 767.326 novas vagas com carteira assinada em todos os setores.

Na construção, o primeiro trimestre apresentou crescimento expressivo na geração de empregos formais em relação ao mesmo período do ano anterior. A construção de edifícios avançou 23% na criação de postos e as obras de infraestrutura tiveram alta de 42,41%, segundo os dados destacados pela CBIC.

Ou seja, a situação não é de falta de obras.

É justamente o contrário: há demanda por trabalhadores em um setor que continua movimentando emprego e investimentos.

Por que os jovens não estão entrando?

Não existe uma única resposta.

O esforço físico é um fator, mas não explica sozinho a mudança. A construção também compete com outras ocupações que oferecem jornadas diferentes, possibilidade de trabalho remoto, menor exposição física e caminhos profissionais que muitos jovens consideram mais compatíveis com seus objetivos.

Existe ainda uma questão de imagem.

Durante muito tempo, profissões técnicas foram apresentadas como uma segunda opção para quem não seguiria uma trajetória acadêmica. Esse discurso ajudou a afastar parte dos jovens de atividades que exigem habilidade prática e podem oferecer boas oportunidades depois da formação.

A mudança dessa percepção é uma das tarefas colocadas diante do setor.

A CBIC afirma que oferecer salário e benefícios, isoladamente, não é suficiente para reter talentos. Liderança, ambiente de trabalho e capacidade de desenvolvimento também influenciam a permanência dos profissionais.

O desafio agora é transformar vaga em carreira

É aí que está uma das principais respostas para a crise.

Uma placa de “contrata-se” pode chamar a atenção de alguém que precisa de renda imediatamente. Mas uma carreira é mais atraente quando o trabalhador consegue enxergar o que poderá fazer daqui a cinco ou dez anos.

Para a construção civil, isso significa apresentar caminhos claros de qualificação e progressão.

O jovem que começa como ajudante precisa saber quais cursos pode fazer, quais habilidades deve desenvolver, quanto pode aumentar sua responsabilidade e quais funções poderá ocupar no futuro.

Também precisa encontrar condições de trabalho que façam sentido para uma nova geração.

Em vez de vender apenas a ideia de “ganhar dinheiro”, as empresas precisam mostrar que existe uma profissão por trás do canteiro.

Em vídeo, o Jornal da Record mostrou o outro lado da crise

A reportagem do Jornal da Record acompanha justamente esse contraste entre a quantidade de obras e a dificuldade para formar equipes.

O depoimento de Nonato, mestre de obras com quatro décadas de experiência, dá uma dimensão prática do problema, enquanto representantes de construtoras relatam as vagas que permanecem abertas.

O relato também ajuda a entender por que a discussão não se resume ao salário.

“Os jovens não querem mais trabalhar na construção civil”, disse Nonato, associando a resistência principalmente ao esforço físico exigido nas funções de entrada.

A fala pode ser discutida, mas encontra respaldo em uma preocupação mais ampla da CBIC sobre envelhecimento, retenção e formação de trabalhadores.

Uma oportunidade que o setor ainda precisa aprender a vender

A construção civil brasileira não está diante de uma simples falta de vagas.

O problema é mais curioso: existem empregos, há necessidade de profissionais e a atividade continua gerando postos formais, mas a renovação da mão de obra não acontece na velocidade necessária.

Os números mostram que a idade média dos trabalhadores aumentou, enquanto entidades do setor apontam dificuldades para atrair e reter novos profissionais. Ao mesmo tempo, o mercado continua oferecendo espaço para quem se especializa e assume responsabilidades maiores.

A discussão sobre salários precisa ser feita com os pés no chão. R$ 10 mil pode ser alcançado em determinadas trajetórias e funções, mas não representa a remuneração típica de um pedreiro CLT no país. Os dados disponíveis mostram uma realidade muito mais ampla, na qual experiência, especialização, região, vínculo e tipo de serviço fazem enorme diferença.

O desafio das construtoras, portanto, não é simplesmente colocar uma cifra maior na vaga.

É convencer uma nova geração de que o canteiro pode ser o começo de uma trajetória profissional — e não necessariamente o destino final de quem não encontrou outra opção.

Fontes: Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ministério do Trabalho e Emprego/Novo Caged, sistema Mediador do Ministério do Trabalho e dados de remuneração baseados no Caged. As falas de Nonato e do diretor da construtora em reportagem da Record News.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.