O Ceasa de Campinas, um dos maiores entrepostos atacadistas de alimentos da América Latina, continua movimentando milhares de toneladas de frutas, legumes e verduras diariamente. Mas, para quem vive da comercialização dentro do mercado, a realidade já não é a mesma de décadas atrás. Comerciantes afirmam que a concorrência direta das grandes redes varejistas, o aumento dos custos operacionais e a dificuldade para contratar funcionários reduziram drasticamente a rentabilidade do negócio.
A conclusão aparece em uma análise publicada pelo canal Tudo é Negócio – Empreendedorismo Raiz, que percorreu os corredores do entreposto paulista para conversar com comerciantes, carregadores e produtores. O retrato apresentado é de um setor que continua movimentando milhões de reais, mas onde ganhar dinheiro exige muito mais planejamento, eficiência e capacidade de negociação do que no passado.
Um dos maiores centros de abastecimento do país continua estratégico
O Ceasa de Campinas ocupa uma posição central na distribuição de hortifrutigranjeiros para diversas regiões do Brasil.
De acordo com informações da própria Ceasa Campinas, o entreposto recebe diariamente cerca de 20 mil pessoas entre compradores, produtores, comerciantes, transportadores e prestadores de serviço, além de movimentar mais de 5 mil toneladas de alimentos por dia. O complexo abastece supermercados, restaurantes, feirantes, sacolões e pequenos comerciantes de diversas cidades.
Essa estrutura faz parte de uma rede de centrais de abastecimento criada ao longo da década de 1970 para organizar a comercialização agrícola e reduzir gargalos logísticos entre o campo e os centros consumidores.
Entrar no Ceasa exige investimento elevado
Ao contrário do que muitos imaginam, abrir um negócio dentro do Ceasa não significa apenas comprar mercadorias para revenda.
Segundo comerciantes entrevistados pelo canal, o primeiro desafio é conseguir uma “pedra” — espaço utilizado pelos permissionários para comercialização.
“Para começar a trabalhar aqui… tem que comprar a pedra… no mínimo uns R$ 600 mil”, relata um dos vendedores entrevistados.
Além desse investimento inicial, há despesas mensais com aluguel, manutenção, funcionários, transporte, equipamentos, embalagens e logística.
Dependendo da localização, comerciantes afirmam que o aluguel de uma pedra pode variar de aproximadamente R$ 800 até cerca de R$ 20 mil por mês, enquanto operações maiores exigem estruturas ainda mais caras.
Margens de lucro encolheram nas últimas décadas
Talvez a maior mudança percebida pelos veteranos esteja na rentabilidade.
Israel, comerciante conhecido como responsável pela “Casa da Uva”, resume a transformação vivida pelo setor.
“Antigamente dava margem de 60%, 70%. Hoje não dá 20%.”
Em alguns segmentos, empresários afirmam que o lucro líquido, depois do pagamento de fornecedores, funcionários, impostos, transporte e perdas de mercadorias, pode ficar entre 3% e 5%.
Segundo os próprios comerciantes, essa redução está ligada principalmente ao fortalecimento das grandes redes supermercadistas.
Hoje, muitos atacadistas e supermercados negociam diretamente com produtores rurais ou cooperativas agrícolas, reduzindo a dependência das centrais de abastecimento como intermediárias.
A logística virou fator decisivo
Se antes boa parte das operações era realizada manualmente, atualmente o cenário é bastante diferente.
Paletes, empilhadeiras, equipamentos de classificação e sistemas de movimentação de cargas passaram a fazer parte da rotina dos comerciantes.
Um dos entrevistados lembra que a transformação ocorreu de forma gradual.
“Hoje é tudo paletizado. Antigamente era tudo manual.”
Essa modernização tornou-se praticamente obrigatória para reduzir perdas, aumentar produtividade e permitir que operações com margens cada vez menores continuem sendo financeiramente viáveis.
A falta de mão de obra preocupa comerciantes
Apesar da evolução tecnológica, encontrar trabalhadores continua sendo um dos maiores desafios.
A rotina dentro do Ceasa costuma começar ainda durante a madrugada.
Muitos comerciantes iniciam suas atividades entre meia-noite e duas horas da manhã para receber caminhões, descarregar mercadorias e preparar os boxes antes da abertura do mercado.
Segundo diversos entrevistados, cada vez menos pessoas aceitam trabalhar nesses horários ou realizar atividades que exigem esforço físico intenso.
“Mão de obra hoje… está cada vez mais escassa”, afirma um comerciante.
Esse problema também afeta os carregadores, profissionais indispensáveis para transportar centenas de caixas diariamente pelos pavilhões.
Alguns relatam ganhos que podem variar conforme o movimento do mercado, chegando a aproximadamente R$ 300 ou R$ 350 em dias de maior demanda, embora em períodos mais fracos a remuneração diminua.
Ainda vale a pena comprar no Ceasa?
Para o consumidor, a resposta costuma ser positiva.
Mesmo diante das mudanças na cadeia de abastecimento, o Ceasa continua oferecendo preços competitivos em diversos produtos, principalmente para quem compra em maior volume.
Durante a reportagem, consumidores relataram diferenças significativas em itens como ovos, frutas e hortaliças quando comparados aos supermercados.
Essa vantagem ocorre porque muitos produtos chegam diretamente dos produtores ou passam por menos etapas de comercialização antes de chegar ao comprador final.
Entretanto, especialistas lembram que os preços variam conforme fatores como clima, sazonalidade, oferta agrícola e custos de transporte.
O Ceasa continua sendo importante para a economia brasileira
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as Centrais de Abastecimento desempenham papel estratégico na comercialização agrícola nacional, funcionando como elo entre produtores rurais, distribuidores e consumidores.
Além de facilitar o escoamento da produção, esses mercados contribuem para reduzir desperdícios, ampliar a concorrência e formar referências de preços para frutas, legumes e verduras.
Diversos levantamentos da Conab também mostram que eventos climáticos, oscilações cambiais, custos de combustíveis e despesas logísticas influenciam diretamente os valores praticados nesses entrepostos.
Concorrência mudou completamente o modelo de negócio
Nas últimas décadas, o crescimento das grandes redes supermercadistas alterou profundamente a dinâmica do setor.
Empresas passaram a negociar diretamente com grandes produtores, cooperativas e centrais de distribuição próprias, reduzindo a participação dos intermediários tradicionais.
Ao mesmo tempo, ferramentas digitais, contratos antecipados e cadeias logísticas mais integradas permitiram maior eficiência no abastecimento.
Para pequenos comerciantes do Ceasa, isso significou disputar clientes em um ambiente muito mais competitivo do que aquele encontrado nos anos 1980 e 1990.
Gestão de perdas faz diferença no resultado
Outro fator citado repetidamente pelos comerciantes é o controle do desperdício.
Produtos hortifrutigranjeiros possuem alta perecibilidade, tornando fundamental vender rapidamente os estoques.
Segundo os entrevistados, quando determinado lote não apresenta boa saída, a renegociação imediata dos preços ou o repasse para compradores com maior giro ajuda a reduzir prejuízos.
Essa gestão diária passou a ser tão importante quanto negociar bons preços diretamente com produtores.
Assista abaixo o vídeo que mostra a rotina dos comerciantes
Em vídeo publicado no canal Tudo é Negócio – Empreendedorismo Raiz, os comerciantes apresentam detalhes do funcionamento do Ceasa de Campinas, mostram como funciona a compra de uma “pedra”, explicam a redução das margens de lucro e relatam os desafios enfrentados diariamente para manter operações que movimentam milhões de reais todos os meses.
O que você precisa saber
O Ceasa de Campinas permanece como um dos principais centros de abastecimento de alimentos do Brasil, mas a realidade dos permissionários mudou significativamente. O aumento da concorrência, a profissionalização da logística, a necessidade de investimentos elevados e a escassez de mão de obra transformaram um negócio que já trabalhou com margens elevadas em uma atividade que depende de gestão eficiente, negociação constante e controle rigoroso de custos. Ainda assim, o entreposto continua desempenhando papel essencial na distribuição de alimentos e na formação de preços do setor hortifrutigranjeiro brasileiro.
