Quase 224 quilômetros de trilhos, investimento de até R$ 21 bilhões e trens de 160 km/h: como o megaprojeto ferroviário da CPTM quer religar Santos ao Vale do Ribeira e abrir caminho para uma futura conexão com Curitiba

O estado de São Paulo deu mais um passo em um dos maiores projetos ferroviários planejados para as próximas décadas. Inserida no programa SP nos Trilhos, a proposta estruturada pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) prevê a implantação de um corredor ferroviário de 223,6 quilômetros entre Santos e Cajati, no Vale do Ribeira, com potencial de, futuramente, avançar até Curitiba. O empreendimento, estimado entre R$ 19 bilhões e R$ 21 bilhões, pretende combinar transporte de passageiros e cargas, fortalecer a logística regional e ampliar a integração econômica entre o litoral paulista e uma das regiões historicamente menos desenvolvidas do estado.

Embora a ligação com a capital paranaense desperte grande interesse, o projeto que está oficialmente em desenvolvimento contempla o trecho entre Santos e Cajati. A extensão até Curitiba permanece como uma perspectiva de longo prazo, dependente de novos estudos técnicos, licenciamento ambiental e definição de um modelo de financiamento.

A saber, trata-se de uma iniciativa que vai muito além da construção de uma ferrovia. A ideia não é só colocar trem para rodar. O objetivo é reorganizar toda a dinâmica logística dessa região. O corredor ferroviário poderá transformar o papel econômico do Vale do Ribeira ao aproximá-lo do Porto de Santos, considerado o maior complexo portuário da América Latina.

Projeto faz parte da maior estratégia ferroviária paulista dos últimos anos

A proposta integra o programa SP nos Trilhos, iniciativa do Governo de São Paulo criada para ampliar a participação do transporte ferroviário tanto na mobilidade urbana quanto na logística de cargas.

O plano reúne diversos projetos voltados à expansão e modernização da infraestrutura ferroviária paulista, buscando reduzir a dependência do transporte rodoviário, responsável atualmente pela maior parte da movimentação de cargas no Brasil.

Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o país possui cerca de 30 mil quilômetros de malha ferroviária, mas boa parte dessa estrutura foi construída há décadas e apresenta diferentes níveis de utilização. Durante boa parte do século XX, os investimentos em rodovias superaram amplamente os destinados às ferrovias, provocando a desativação de inúmeros trechos históricos.

Nesse contexto, a reativação do corredor entre Santos e o Vale do Ribeira representa uma tentativa de recuperar parte dessa infraestrutura e adaptá-la às necessidades atuais.

Corredor ferroviário deve atender diretamente 13 municípios

O projeto funcional prevê uma ferrovia com aproximadamente 223,6 quilômetros de extensão.

O traçado conecta o Porto de Santos ao município de Cajati, passando por cidades da Baixada Santista e do Vale do Ribeira, beneficiando diretamente cerca de 1,5 milhão de habitantes.

Entre os municípios contemplados aparecem Santos, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Registro e Cajati, além de outras cidades localizadas ao longo do corredor ferroviário.

Segundo os estudos preliminares, parte significativa da implantação aproveitará faixas ferroviárias históricas que atualmente estão desativadas ou subutilizadas.

Essa característica classifica boa parte do empreendimento como um projeto brownfield, conceito utilizado para obras realizadas sobre estruturas já existentes. Na prática, isso reduz a necessidade de desapropriações e pode diminuir impactos ambientais quando comparado à construção integral de um novo traçado.

Ligação com Curitiba continua sendo um objetivo de longo prazo

Apesar de frequentemente aparecer associada ao projeto, a conexão ferroviária entre Santos e Curitiba ainda não faz parte da etapa atualmente estruturada.

Segundo o canal Construction Time, essa diferenciação é importante para evitar interpretações equivocadas.

“O que existe hoje, efetivamente, é o projeto funcional até Cajati. A ligação com Curitiba depende de uma etapa completamente diferente”, afirma durante a análise.

A futura extensão exigiria a implantação de um novo corredor ferroviário em áreas sem infraestrutura existente, caracterizando um projeto do tipo greyfield, que demanda estudos ambientais mais complexos, novos licenciamentos e investimentos ainda superiores aos previstos para o trecho paulista.

Até o momento, não há cronograma oficial para essa segunda fase.

Investimento pode chegar a R$ 21 bilhões

O porte financeiro do empreendimento chama atenção mesmo quando comparado a outras grandes obras de infraestrutura.

As estimativas preliminares apontam investimentos entre R$ 19 bilhões e R$ 21 bilhões, valor que coloca o projeto entre os maiores atualmente estudados no setor ferroviário brasileiro.

Segundo a análise apresentada no vídeo, esse montante seria suficiente para adquirir centenas de milhares de automóveis populares ou financiar apenas uma pequena fração da construção de linhas subterrâneas de metrô, que possuem custo por quilômetro significativamente mais elevado devido à complexidade urbana.

Embora os números sejam expressivos, especialistas em infraestrutura destacam que projetos ferroviários possuem ciclos de implantação longos e investimentos distribuídos ao longo de vários anos.

Ferrovia foi planejada para passageiros e cargas

Um dos diferenciais da proposta é sua operação compartilhada.

Ao contrário de corredores destinados exclusivamente ao transporte de passageiros ou apenas ao transporte de cargas, a futura ferrovia deverá atender ambas as modalidades.

Segundo os estudos iniciais, a infraestrutura utilizará bitola larga de 1.600 milímetros, padrão adotado em diversas ferrovias brasileiras, permitindo velocidades estimadas de até 160 km/h em determinados trechos destinados ao transporte de passageiros.

Para garantir segurança operacional, será necessária a implantação de modernos sistemas de sinalização, centros de controle de tráfego, pátios de cruzamento e obras especiais, como pontes e viadutos.

Segundo o especialista, esse modelo busca aumentar a eficiência econômica do corredor.

“Quando você consegue transportar passageiros e cargas na mesma infraestrutura, aumenta bastante o potencial de utilização da ferrovia”, observa.

Porto de Santos pode ampliar influência logística

Outro fator considerado estratégico é a ligação direta com o Porto de Santos.

Responsável por movimentar grande parte das exportações e importações brasileiras, o complexo portuário desempenha papel fundamental no comércio exterior do país.

Uma conexão ferroviária moderna poderá ampliar a competitividade logística da região, reduzindo custos de transporte, aumentando a previsibilidade das operações e diminuindo parte da pressão atualmente concentrada nas rodovias.

Segundo especialistas em logística, a diversificação dos modais tende a tornar o sistema de transporte mais eficiente, especialmente em corredores com elevado volume de cargas.

Vale do Ribeira pode ganhar nova dinâmica econômica

O projeto também possui forte componente regional.

Historicamente, o Vale do Ribeira apresenta indicadores socioeconômicos inferiores aos observados em outras regiões paulistas, convivendo durante décadas com menor disponibilidade de infraestrutura de transporte.

Esse isolamento acabou elevando custos logísticos para empresas locais, limitando investimentos e reduzindo oportunidades de desenvolvimento econômico.

Segundo a análise apresentada no vídeo, a reativação ferroviária poderá aproximar produtores rurais, indústrias e empresas instaladas na região dos principais mercados consumidores e do Porto de Santos.

Além do transporte de cargas, a expectativa é melhorar a mobilidade entre municípios, ampliar opções de deslocamento e incentivar novos investimentos privados ao longo do corredor.

Critérios técnicos priorizam viabilidade ambiental

A definição do traçado não considera apenas custos de construção.

Segundo as informações apresentadas, os estudos utilizam metodologias multicritério, incluindo o método Analytic Hierarchy Process (AHP), ferramenta empregada internacionalmente para comparar diferentes alternativas de implantação considerando fatores econômicos, ambientais, sociais e urbanos.

As diretrizes técnicas também seguem parâmetros estabelecidos pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para projetos ferroviários.

Essa abordagem busca minimizar impactos ambientais e aumentar a viabilidade do empreendimento antes da fase de licenciamento.

Estudos seguem até 2028 antes do início das obras

Apesar do avanço no planejamento, a ferrovia ainda não possui previsão para o início da operação.

O projeto permanece na fase de desenvolvimento funcional, etapa destinada à consolidação do traçado, avaliações técnicas, estudos ambientais e definição do modelo de concessão.

A expectativa é que esse processo seja concluído até 2028.

Somente após essa fase deverão ser definidos aspectos como participação da iniciativa privada, estrutura de financiamento, cronograma executivo e início efetivo das obras.

Em vídeo publicado no canal Construction Time, o especialista ressalta que o sucesso da iniciativa dependerá não apenas da construção da ferrovia, mas também da integração com rodovias, portos e outros sistemas de transporte. Segundo ele, “o desafio agora é transformar um excelente projeto técnico em uma infraestrutura que realmente saia do papel”.

Caso seja implementado conforme o planejamento atual, o corredor Santos-Cajati poderá representar uma das maiores reativações ferroviárias do estado de São Paulo nas últimas décadas, fortalecendo a logística nacional, ampliando a integração regional e recolocando os trilhos como protagonistas de uma estratégia de desenvolvimento econômico de longo prazo.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.