Quase 150 mil hectares manejados, maior forno de carbonização do mundo e florestas renováveis de eucalipto: como o Vale do Jequitinhonha se tornou referência global na produção do aço verde brasileiro

O Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, abriga um dos projetos mais inovadores da indústria siderúrgica brasileira. Em vez de utilizar carvão mineral, tradicionalmente empregado na fabricação do aço e responsável por elevadas emissões de gases de efeito estufa, a Aperam Bioenergia desenvolveu uma cadeia produtiva baseada em florestas renováveis de eucalipto. O carvão vegetal produzido a partir dessas árvores abastece a fabricação de aço inox com menor pegada de carbono, colocando o Brasil entre as referências mundiais na produção do chamado aço verde.

A iniciativa reúne pesquisa genética, mecanização agrícola, controle biológico de pragas, reaproveitamento de resíduos industriais e programas sociais voltados às comunidades do Vale do Jequitinhonha. O modelo também acompanha uma tendência global da indústria, pressionada por consumidores, investidores e governos a reduzir emissões e tornar seus processos mais sustentáveis.

Segundo a análise apresentada pelo biólogo e apresentador Richard Rasmussen, durante visita às operações da Aperam Bioenergia, a transformação começa muito antes da chegada da madeira aos fornos.

“Quando a gente pensa em aço, normalmente imagina uma indústria pesada. Mas tudo começa aqui, dentro da floresta”, comenta no vídeo ao percorrer as áreas de pesquisa e cultivo da empresa.

O que é o aço verde e por que ele ganha importância no mundo

A produção convencional de aço utiliza principalmente carvão mineral como fonte de energia e agente redutor nos altos-fornos. O problema é que esse combustível fóssil responde por uma parcela significativa das emissões de dióxido de carbono (CO₂) da indústria siderúrgica.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a produção mundial de aço é responsável por cerca de 7% das emissões globais relacionadas à energia. Reduzir esse impacto tornou-se prioridade para o setor, especialmente diante das metas climáticas assumidas por diversos países.

Nesse contexto, o chamado aço verde reúne tecnologias capazes de diminuir significativamente as emissões durante a fabricação. Entre elas está a substituição do carvão mineral pelo carvão vegetal obtido de florestas plantadas de forma sustentável.

É justamente esse modelo que vem sendo desenvolvido pela Aperam Bioenergia no Vale do Jequitinhonha.

A inovação começa no laboratório

Ao contrário do que muitos imaginam, a produção não começa nos fornos industriais.

Ela tem início em laboratórios especializados em genética vegetal.

Segundo Richard Rasmussen, pesquisadores estudam aproximadamente 17 espécies de eucalipto para desenvolver híbridos mais resistentes, produtivos e adaptados às condições climáticas do norte mineiro.

Durante a visita, o especialista da empresa, Caio, explicou que o processo envolve selecionar plantas com características superiores para realizar cruzamentos controlados.

“A gente guarda o pólen desses materiais, tudo identificado e congelado. No mundo das plantas, o código genético está aqui”, afirmou durante a demonstração do trabalho realizado pelos pesquisadores.

O objetivo é produzir árvores capazes de gerar madeira de alta densidade, condição essencial para obter carvão vegetal com elevado desempenho industrial.

Clones são escolhidos conforme solo e clima

A pesquisa genética não busca apenas produtividade.

Cada região recebe clones específicos, escolhidos de acordo com fatores como altitude, precipitação, temperatura e características do solo.

Segundo os técnicos da empresa, essa estratégia permite alcançar maior rendimento florestal e melhor qualidade da madeira utilizada na carbonização.

O conceito é semelhante ao chamado “terroir”, bastante conhecido na produção de vinhos, mas aplicado ao manejo florestal.

Viveiro produz mais de 85 milhões de mudas por ano

Depois do desenvolvimento genético, o ciclo segue para o viveiro de mudas.

A estrutura produz cerca de 85 milhões de mudas de eucalipto anualmente, abastecendo as áreas de plantio renovável da empresa.

Richard Rasmussen destacou outro aspecto observado durante a visita: a forte presença feminina nas operações do viveiro.

Segundo dados apresentados pela empresa, 52% dos profissionais que atuam nessa etapa são mulheres, responsáveis por atividades que exigem elevado grau de precisão durante a preparação das mudas.

As plantas passam por diferentes ambientes controlados até desenvolverem resistência suficiente para serem levadas ao campo.

Tecnologia acelera o plantio das florestas

A mecanização também ocupa papel importante no projeto.

A Aperam Bioenergia foi a primeira empresa brasileira a utilizar a Plantma, máquina desenvolvida na Suíça para automatizar o plantio de árvores.

Segundo informações apresentadas no vídeo, o equipamento consegue plantar entre 2 mil e 2,5 mil mudas por hora, alcançando aproximadamente 15 hectares por dia.

Além da velocidade, a tecnologia garante maior uniformidade no espaçamento das árvores e reduz falhas durante a implantação das florestas.

Richard observa que a mecanização permite aumentar a eficiência sem comprometer os padrões ambientais adotados pela empresa.

Em vez de agrotóxicos, insetos combatem outras pragas

Outro diferencial está no controle biológico.

Em vez de depender exclusivamente de defensivos químicos, a empresa mantém uma biofábrica dedicada à criação de inimigos naturais das principais pragas que atacam os eucaliptos.

Entre elas estão o percevejo-bronzeado, lagartas e o psilídeo-de-concha.

Segundo Rasmussen, o Brasil tornou-se referência internacional nessa área.

“O Brasil hoje é líder nos biológicos e está exportando esse conhecimento para o mundo inteiro”, afirma durante a reportagem.

Sempre que o monitoramento identifica focos de infestação, organismos específicos são liberados para controlar naturalmente as populações de insetos.

Essa estratégia reduz o uso de produtos químicos e contribui para o equilíbrio ambiental das áreas cultivadas.

O maior forno de carbonização do mundo

Após o crescimento das árvores, a madeira segue para a etapa de carbonização.

É nessa fase que está instalado um dos maiores símbolos tecnológicos da operação: o Flap 2000, apontado pela empresa como o maior forno de carbonização do mundo.

Cada ciclo produz aproximadamente 270 toneladas de carvão vegetal, utilizado posteriormente na fabricação do aço inox.

Entretanto, o diferencial não está apenas na capacidade produtiva.

Segundo Vanessa, gerente da unidade apresentada por Richard Rasmussen, o sistema foi desenvolvido para impedir que a fumaça seja liberada diretamente na atmosfera.

Os gases produzidos durante a carbonização percorrem tubulações subterrâneas, passam por processos de condensação e dão origem a novos produtos.

Nada é desperdiçado durante a produção

O aproveitamento integral dos resíduos tornou-se um dos pilares da operação.

Os gases provenientes da carbonização geram bio-óleo, utilizado como combustível renovável, extrato pirolenhoso empregado na agricultura e biochar, material rico em carbono utilizado como condicionador de solo.

Durante a visita, Richard resumiu esse conceito com uma frase que ilustra a lógica da planta industrial.

“Tudo o que entra, nada é perdido, tudo se transforma.”

Segundo especialistas em bioenergia, o reaproveitamento dos subprodutos aumenta a eficiência econômica e reduz ainda mais os impactos ambientais da cadeia produtiva.

Preservação ambiental ocupa grande parte da área

Além das florestas plantadas, a empresa mantém extensas áreas destinadas exclusivamente à conservação.

Segundo informações divulgadas pela Aperam Bioenergia, são aproximadamente 150 mil hectares sob gestão, dos quais 60 mil hectares correspondem à vegetação nativa preservada.

Essa área supera o percentual mínimo exigido pelo Código Florestal Brasileiro para propriedades localizadas na região.

A manutenção dessas reservas contribui para a proteção da biodiversidade, dos recursos hídricos e dos ecossistemas do Vale do Jequitinhonha.

Projeto social beneficia centenas de famílias

A sustentabilidade da operação também inclui iniciativas voltadas ao desenvolvimento regional.

Entre elas está o projeto Raízes do Vale, que disponibiliza áreas para agricultura familiar a moradores das comunidades vizinhas.

Segundo a empresa, cerca de 243 famílias cultivam alimentos como mandioca, milho e feijão, além da produção de mel.

Durante a reportagem, Valdeires, presidente de uma das associações participantes, destacou os impactos da iniciativa.

“A maioria não tem terra própria, e isso está ajudando demais”, afirmou.

De acordo com a Aperam, o programa recebeu reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) por contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades locais.

Brasil amplia espaço na siderurgia de baixo carbono

A busca por processos industriais menos poluentes ganhou força nos últimos anos com o avanço das políticas globais de descarbonização.

Mercados como a União Europeia já discutem mecanismos para incentivar produtos fabricados com menor emissão de carbono, aumentando a importância de tecnologias como o aço verde.

Em vídeo publicado em seu canal oficial no YouTube, Richard Rasmussen ressalta que a experiência desenvolvida no Vale do Jequitinhonha demonstra que inovação, pesquisa científica, preservação ambiental e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos.

Ao substituir combustíveis fósseis por florestas renováveis, incorporar tecnologia em todas as etapas da produção e investir em projetos sociais, o modelo desenvolvido pela Aperam Bioenergia transforma uma atividade tradicionalmente associada à alta emissão de carbono em uma referência internacional de sustentabilidade, colocando o Brasil em posição de destaque na transição para uma siderurgia mais limpa.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.