Trocar a cidade por uma fazenda, dirigir um trator entre milhares de galinhas, coletar aproximadamente 10 mil ovos por dia e receber 31,60 dólares australianos por hora. Essa é a rotina vivida pelos brasileiros Teodoro e Tian, que trabalham em uma propriedade rural na Austrália e compartilham o dia a dia no canal Vida Vagante, no YouTube. Em um dos vídeos mais recentes, o casal mostrou como funciona a produção de ovos em um sistema de criação ao ar livre, detalhou a remuneração, explicou os desafios da atividade e revelou por que o setor agrícola australiano continua atraindo trabalhadores estrangeiros.
Segundo os brasileiros, embora o salário desperte atenção quando convertido para o real, a rotina exige esforço físico constante, contato direto com animais, trabalho ao ar livre e adaptação às condições climáticas da região. Ainda assim, eles afirmam que a flexibilidade da jornada e a estabilidade do emprego compensam os desafios encontrados na fazenda.
O dia começa cedo, mas com horários flexíveis
Diferentemente de muitas atividades urbanas, a jornada do casal não começa de madrugada.
Morando dentro da própria fazenda, eles iniciam o expediente por volta das 8h30, deslocando-se até os galpões antes de assumir um quadriciclo ou um trator equipado com trailer para percorrer toda a propriedade.
Segundo Teodoro, a organização do trabalho permite certa liberdade.
“A gente chega aqui mais ou menos 8h30 e começa o nosso serviço.”
Ele explica que os empregadores permitem que escolham o horário mais adequado, desde que todas as tarefas sejam concluídas diariamente.
Essa flexibilidade é um dos aspectos mais valorizados por eles desde que começaram a trabalhar na propriedade.
A fazenda abriga cerca de 11 mil galinhas
O local onde trabalham utiliza um sistema conhecido internacionalmente como free range pasture raised, modalidade em que as aves permanecem soltas em áreas de pastagem durante o dia, mas contam com estruturas móveis para descanso, alimentação e postura dos ovos.
Segundo o casal, aproximadamente 11 mil galinhas vivem divididas em três grandes grupos espalhados pela fazenda.
Esse modelo de criação tem ganhado espaço em diversos países devido ao interesse crescente por sistemas que oferecem maior liberdade de movimentação às aves, embora cada país adote regras próprias para certificação e comercialização.
Nem todas as galinhas utilizam os ninhos
Apesar da existência de caravanas equipadas com ninhos apropriados, centenas de ovos ainda precisam ser recolhidos manualmente todos os dias.
Tian explica que algumas aves insistem em botar ovos fora dos locais preparados para isso.
“Você imagina, são 11 mil galinhas, então com certeza vai ter aquelas que não aprendem.”
Segundo ela, pneus, vegetação, espaços sob as caravanas e até troncos de árvores acabam se transformando em locais improvisados para a postura.
De acordo com o casal, essa coleta manual representa cerca de 300 ovos por dia, exigindo atenção durante todo o percurso.

Cães pastores fazem parte da equipe de segurança
Outro detalhe curioso mostrado no vídeo é a presença dos cães da raça Pastor Maremano, utilizados para proteger o plantel contra predadores.
Raposas, aves de rapina e outros animais selvagens representam riscos constantes em áreas rurais australianas.
Segundo Teodoro, os cães permanecem junto das galinhas praticamente o tempo todo.
“Eles são responsáveis por cuidar das galinhas aqui. Protegem contra gaviões, raposas, qualquer bicho que venha atacar.”
Além da atuação dos cães, a fazenda utiliza cercas elétricas para dificultar a entrada de animais e evitar que as aves deixem as áreas delimitadas.
Tecnologia também faz parte da rotina
Embora exista bastante trabalho manual, boa parte da operação conta com equipamentos automatizados.
As caravanas utilizadas pelas galinhas possuem sistemas eletrônicos responsáveis pela abertura e fechamento automático das portas, além de mecanismos que facilitam a coleta dos ovos.
Em algumas estruturas, a esteira que transporta os ovos funciona manualmente. Em outras, um sistema automatizado reduz o esforço físico durante a coleta.
O abastecimento de água também segue um processo controlado.
Segundo o casal, a água utilizada pelas aves é captada em um poço, passa por tratamento e depois abastece automaticamente os bebedouros distribuídos pela fazenda.
Produção semanal impressiona
Após a coleta, os ovos são organizados em bandejas, empilhados e levados para uma câmara fria, onde permanecem armazenados até serem recolhidos pela empresa responsável pelo processamento e distribuição.
Com base nas contagens realizadas durante o trabalho, Teodoro estima que a fazenda produza aproximadamente 60 mil ovos por semana.
O volume demonstra a elevada escala da produção e ajuda a explicar a necessidade de uma logística organizada para armazenamento e transporte.
Calor extremo também afeta a produção
Nem todos os dias seguem o mesmo ritmo.
Segundo os brasileiros, períodos de calor intenso provocam estresse nas aves, reduzindo a postura e aumentando os casos de mortalidade.
Durante o expediente, eles também precisam recolher ovos quebrados e, eventualmente, realizar o descarte de galinhas que morreram por causas naturais ou problemas relacionados ao clima.
Outro detalhe curioso envolve os chamados ovos “oversize”.
Em alguns casos, eles apresentam duas gemas ou até mesmo outra casca menor formada dentro do próprio ovo, fenômeno conhecido pela indústria avícola e relacionado ao processo de formação no aparelho reprodutivo da galinha.
Quanto eles recebem para trabalhar?
O ponto que mais desperta curiosidade entre os seguidores do canal é a remuneração.
Segundo Teodoro e Tian, cada um recebe 31,60 dólares australianos por hora, trabalhando cerca de seis horas por dia, em uma escala de seis dias de trabalho por um de descanso.
Considerando aproximadamente 37 horas semanais, o rendimento bruto ultrapassa 1.100 dólares australianos por semana para cada trabalhador.
Na conversão para a moeda brasileira, o valor chama atenção, mas o casal faz uma ressalva importante.
Parte da remuneração é destinada ao pagamento de impostos, além dos descontos relacionados à moradia disponibilizada na fazenda.
Agricultura continua sendo uma das portas de entrada para imigrantes
A experiência compartilhada pelo casal reflete uma realidade observada em diversas regiões da Austrália.
A agricultura figura entre os setores que tradicionalmente contratam trabalhadores estrangeiros para atividades ligadas à colheita, pecuária, horticultura e produção de alimentos.
Além disso, programas migratórios australianos costumam prever modalidades específicas de visto para determinadas ocupações rurais, especialmente em regiões com dificuldade para preencher vagas locais. As condições variam conforme a legislação migratória vigente e os programas oficiais disponíveis em cada período.
O que considerar antes de buscar trabalho rural na Austrália?
Especialistas em mobilidade internacional destacam que o salário divulgado em anúncios ou vídeos normalmente corresponde ao valor bruto da remuneração. Antes de comparar ganhos com a realidade brasileira, é importante considerar despesas como moradia, alimentação, transporte, impostos e seguro de saúde, além das exigências para obtenção do visto de trabalho.
Também é recomendável verificar se a vaga está vinculada a empregadores autorizados e conhecer previamente as regras trabalhistas australianas. O país possui um sistema de salário mínimo nacional e direitos trabalhistas fiscalizados pela Fair Work Ombudsman, órgão responsável por orientar trabalhadores e empregadores sobre remuneração, jornada e condições de trabalho.
Vídeo mostra os bastidores da produção de ovos na fazenda
Em vídeo publicado no canal Vida Vagante, Teodoro e Tian acompanham toda a rotina de trabalho, desde a coleta manual dos ovos espalhados pela propriedade até o armazenamento na câmara fria. Durante a gravação, eles explicam como funciona o sistema de criação das galinhas, apresentam os equipamentos utilizados na fazenda e respondem às principais dúvidas dos seguidores sobre salários, carga horária e custo de vida na Austrália.
Ao longo do relato, os brasileiros deixam claro que a remuneração pode ser atrativa para quem pretende trabalhar no exterior, mas reforçam que o resultado depende da disposição para enfrentar uma rotina física intensa, conviver diariamente com animais e adaptar-se às características do campo australiano.
