Por que as casas dos Estados Unidos quase nunca têm laje e como esse modelo se tornou padrão em milhões de imóveis

Quem visita ou decide morar nos Estados Unidos costuma se surpreender ao descobrir que a maioria das casas não possui laje de concreto como é comum no Brasil. Em vez disso, o sistema predominante combina uma base de concreto com estruturas de madeira, uma técnica conhecida como wood frame que reduz custos, acelera a construção e atende às exigências dos códigos de engenharia norte-americanos. Embora o método desperte dúvidas entre brasileiros, especialistas afirmam que ele foi desenvolvido para responder às características climáticas e geológicas do país, incluindo furacões e terremotos.

Em uma análise publicada em seu canal, o corretor de imóveis Ricardo Molina explicou que muitas pessoas associam construções de madeira à fragilidade, mas essa percepção não corresponde à realidade das edificações modernas nos Estados Unidos. Segundo ele, o sistema estrutural passa por cálculos rigorosos de engenharia e segue normas bastante exigentes de segurança.

“A gente olha e acha que é um monte de madeira, mas existe um projeto estrutural inteiro por trás disso. Nada é colocado ali por acaso”, comenta Molina durante a apresentação.

O radier substitui as fundações tradicionais utilizadas no Brasil

A principal diferença entre as construções brasileiras e americanas começa antes mesmo da elevação das paredes.

Enquanto boa parte das residências brasileiras utiliza sapatas, vigas baldrame e fundações profundas, nos Estados Unidos é bastante comum a execução do chamado radier, uma grande placa de concreto armado moldada diretamente sobre um terreno previamente compactado.

Essa solução distribui uniformemente o peso da construção e, em muitas regiões, atende plenamente às características do solo local. Segundo Molina, essa base normalmente possui entre 20 e 30 centímetros de espessura e serve de apoio para toda a residência.

No primeiro pavimento, ainda podem ser utilizados blocos estruturais em determinadas regiões, mas a estrutura recebe reforços internos de concreto e aço para garantir estabilidade. Acima dessa etapa, começa a montagem da estrutura de madeira.

Como funciona o wood frame utilizado nas casas americanas

O chamado wood frame é hoje um dos métodos construtivos mais utilizados na América do Norte.

Nesse sistema, paredes, pisos e cobertura são sustentados por peças de madeira tratada, dimensionadas por engenheiros estruturais. Depois da montagem, essas estruturas recebem placas de fechamento, isolamento térmico e acabamento interno, normalmente feito com drywall.

Segundo Ricardo Molina, as madeiras são fixadas à base de concreto por meio de tirantes de aço galvanizado.

“É isso que vai abraçar a madeira. Esse engastamento é muito resistente”, explica.

Ao contrário do que muitos imaginam, a madeira empregada nessas construções passa por tratamento industrial contra fungos, umidade, cupins e deterioração, além de seguir especificações rigorosas definidas pelos códigos de construção americanos.

Por que as casas americanas não possuem laje de concreto

Uma das maiores curiosidades entre brasileiros está justamente na ausência da tradicional laje entre os pavimentos ou sobre o teto.

Segundo Molina, em vez de concreto, são utilizadas treliças estruturais de madeira cuidadosamente dimensionadas para suportar as cargas previstas em projeto.

Nas casas térreas, essas treliças sustentam apenas o forro de drywall e o isolamento térmico instalado no sótão.

Nos sobrados, o piso do segundo pavimento recebe chapas estruturais de madeira sobre as vigas, formando uma superfície resistente para circulação e instalação dos acabamentos.

Esse método reduz significativamente o peso da edificação, diminui o tempo de construção e reduz o custo final da obra.

Acidente envolvendo Gugu Liberato reforçou alerta sobre o drywall

Durante a explicação, Ricardo Molina relembrou o acidente que causou a morte do apresentador Gugu Liberato, em novembro de 2019, em Orlando, nos Estados Unidos.

Segundo o corretor, muitos brasileiros desconhecem que o forro de drywall das residências americanas não foi projetado para suportar o peso de uma pessoa caminhando sobre ele.

“O brasileiro acha que aquilo é uma laje de concreto como acontece no Brasil. Não é. O drywall serve apenas para fechar o teto”, afirma.

O especialista alerta que qualquer acesso ao sótão deve ocorrer exclusivamente sobre as vigas estruturais, já que pisar diretamente nas placas de gesso pode provocar quedas graves.

Estrutura foi desenvolvida para enfrentar furacões e terremotos

Outro tema frequentemente levantado por quem conhece o sistema construtivo americano é sua resistência aos desastres naturais.

Segundo Molina, as residências modernas construídas em regiões sujeitas a furacões seguem normas capazes de suportar ventos extremamente intensos, especialmente na Flórida.

Ele explica que muitas imagens de destruição exibidas após grandes tempestades envolvem construções antigas ou imóveis atingidos principalmente por enchentes, ressacas e alagamentos, e não apenas pela força do vento.

“Dificilmente um furacão arranca a parte de cima de uma casa nova”, afirma.

Já em estados como Califórnia, onde terremotos são mais frequentes, a flexibilidade da madeira representa uma vantagem importante.

“A estrutura trabalha junto com o movimento do solo. Ela oscila e se ajusta. Isso reduz bastante o risco de colapso completo”, explica.

O que dizem os códigos de construção dos Estados Unidos

Ao contrário da ideia de que a construção em madeira seria menos segura, especialistas destacam que as edificações residenciais americanas precisam obedecer a códigos técnicos rigorosos.

Grande parte dos estados adota versões do International Residential Code (IRC), conjunto de normas elaborado pelo International Code Council (ICC), que estabelece critérios para fundações, estruturas, instalações elétricas, proteção contra incêndios e resistência aos ventos.

Em regiões sujeitas a furacões, como a Flórida, as exigências costumam ser ainda mais rigorosas. O estado possui adaptações específicas no Florida Building Code, que determina padrões para fixação de telhados, portas, janelas resistentes a impactos e sistemas estruturais capazes de suportar ventos extremos.

Madeira também ajuda no conforto térmico e reduz custos

Além da segurança estrutural, o modelo oferece vantagens econômicas e energéticas.

Segundo Molina, construir uma residência totalmente em concreto nos Estados Unidos seria possível, mas elevaria significativamente o custo da obra.

Isso ocorre porque uma laje de concreto exige fundações mais robustas, com sapatas profundas e maior consumo de materiais.

Outro benefício destacado é o desempenho térmico. Entre o telhado e o forro existe um espaço conhecido como attic(sótão), preenchido por isolamento térmico.

Essa solução reduz a transferência de calor para o interior da casa e melhora a eficiência do sistema de ar-condicionado central, amplamente utilizado nas residências americanas.

Construções ficam prontas em poucos meses

Outro diferencial do sistema é a velocidade da obra.

Como boa parte dos componentes estruturais chega pronta da fábrica, numerada e previamente dimensionada, a montagem ocorre em ritmo acelerado.

Segundo Ricardo Molina, uma residência construída em wood frame pode ser concluída em aproximadamente sete meses, dependendo do projeto e das condições locais.

Em vídeo publicado em seu canal oficial, o corretor apresenta todas as etapas da construção, mostra detalhes da estrutura antes do fechamento das paredes e explica por que muitas comparações feitas com o modelo brasileiro acabam ignorando fatores como clima, legislação, disponibilidade de materiais e características do solo norte-americano.

Para quem pretende morar, investir ou adquirir um imóvel nos Estados Unidos, compreender essas diferenças ajuda a desfazer mitos sobre o sistema construtivo americano e evidencia que a ausência da laje de concreto não representa falta de segurança, mas sim uma solução de engenharia desenvolvida para atender às necessidades específicas de cada região do país.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.