Perigo no ar: Piloto de avião é desorientado por laser e aborta pouso com 159 pessoas a bordo

Um feixe de laser apontado contra a cabine de comando de um avião da Malaysia Airlines obrigou o piloto a interromper a aproximação para pouso no Aeroporto Internacional Netaji Subhas Chandra Bose, em Calcutá, na Índia, na noite de sábado, 8 de agosto. O voo MH184, vindo de Kuala Lumpur, transportava 159 passageiros, além da tripulação, e só conseguiu pousar depois que a aeronave circulou e realizou uma nova aproximação.

O episódio aconteceu justamente durante uma das fases mais delicadas da operação: a aproximação final. Segundo informações divulgadas por autoridades aeroportuárias e pela imprensa indiana, o laser atingiu o cockpit quando a aeronave estava a aproximadamente oito milhas náuticas da pista, deixando o piloto momentaneamente desorientado.

Diante da perda momentânea de referência visual, a tripulação decidiu não prosseguir com o pouso naquela aproximação. O avião permaneceu no ar e voltou para uma nova tentativa, tocando a pista por volta das 23h25, cerca de cinco minutos depois do horário inicialmente previsto. Não houve feridos entre passageiros ou tripulantes.

O que aconteceu com o voo da Malaysia Airlines

O voo MH184 faz a ligação entre Kuala Lumpur e Calcutá. A Malaysia Airlines retomou a rota direta entre as duas cidades em dezembro de 2024, inicialmente com cinco frequências semanais.

No sábado, a chegada estava prevista para aproximadamente 23h20 no horário local. Durante a aproximação, porém, um feixe de luz foi direcionado para a aeronave e atingiu a região da cabine de comando.

A intensidade da luz foi suficiente para afetar temporariamente a visão do piloto. Em vez de insistir no pouso, a tripulação interrompeu a aproximação e realizou uma volta antes de retornar para a pista.

A decisão é particularmente importante porque, durante uma aproximação, os pilotos precisam acompanhar simultaneamente instrumentos, altitude, velocidade, trajetória e referências externas. Uma interferência visual repentina pode aumentar a carga de trabalho justamente quando há menos margem para erro.

Polícia já rastreou a possível origem do laser

O caso não terminou quando o avião pousou.

De acordo com o Times of India, a polícia conseguiu rastrear a origem do feixe até Ashoknagar, na região de North 24 Parganas, e passou a trabalhar para identificar quem teria utilizado o laser. A ocorrência foi tratada pelas autoridades como uma ameaça à segurança da aviação.

A investigação é importante porque, ao contrário do que pode parecer para quem está no solo, apontar um laser para uma aeronave não é uma simples brincadeira ou uma forma inofensiva de chamar atenção.

A luz pode atingir o cockpit a uma distância considerável e produzir efeitos que variam de distração e ofuscamento até alterações temporárias da visão.

Por que um laser pode ser tão perigoso para um piloto?

A Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) alerta há anos para os riscos provocados por lasers nas proximidades de aeroportos.

Segundo a organização, a exposição pode provocar ofuscamento, cegueira temporária por clarão, imagens residuais e, dependendo da intensidade, até lesões oculares. Esses efeitos podem comprometer a capacidade da tripulação de controlar a aeronave, especialmente durante decolagens e pousos.

O problema não está apenas em uma eventual lesão permanente. Mesmo quando não há dano físico aos olhos, alguns segundos de visão comprometida podem ser suficientes para criar uma situação operacional perigosa.

Imagine a diferença entre observar uma pista iluminada normalmente e, de repente, receber uma fonte extremamente intensa de luz diretamente no campo de visão. A adaptação visual não acontece instantaneamente, e o piloto ainda precisa continuar acompanhando os instrumentos e mantendo a trajetória da aeronave.

Por isso, a ICAO considera os lasers uma ameaça específica à segurança da aviação e possui orientações para que países e operadores adotem medidas para impedir que feixes de laser afetem operações de voo.

O problema não acontece apenas na Índia

O tamanho do problema fica mais evidente quando se observam os registros de outros países.

Nos Estados Unidos, pilotos relataram 10.994 incidentes com lasers em 2025, segundo dados divulgados pela Federal Aviation Administration (FAA). O número representou uma queda de 14% em relação ao ano anterior, mas permaneceu em um nível considerado elevado pela agência.

Os registros mostram que o fenômeno não desapareceu mesmo depois de anos de campanhas de conscientização e punições.

A FAA contabiliza os casos desde 2010 e informa que 337 pilotos sofreram lesões relacionadas a ataques com laserdesde o início desse acompanhamento. A agência também afirma que lasers podem incapacitar pilotos responsáveis por aeronaves que transportam centenas de pessoas.

Em outras palavras, o episódio envolvendo a Malaysia Airlines não representa um risco isolado ou exclusivamente indiano. O direcionamento de lasers para aeronaves é tratado internacionalmente como uma questão de segurança operacional.

O que o piloto deve fazer quando um laser atinge a cabine?

A reação da tripulação não consiste simplesmente em tentar “ignorar” a luz.

Orientações internacionais recomendam que o piloto evite olhar diretamente para a origem do feixe e, caso sua visão seja afetada, transfira o controle para o outro piloto quando isso for possível e seguro. Também há recomendações para aumentar a iluminação da cabine e comunicar imediatamente o incidente ao controle de tráfego aéreo.

O objetivo é reduzir os efeitos da exposição e, ao mesmo tempo, permitir que as autoridades em solo tentem identificar a localização de onde o laser foi emitido.

A ICAO também recomenda que o incidente seja comunicado rapidamente porque informações como posição da aeronave, altitude, direção aproximada da fonte e horário podem ajudar as autoridades a localizar o responsável.

Foi justamente essa lógica que esteve por trás da comunicação do episódio ocorrido em Calcutá.

Arremeter não significa que o avião estava prestes a cair

Outro ponto importante é diferenciar uma arremetida de um acidente ou de uma falha da aeronave.

A arremetida é uma manobra prevista na operação aérea para situações em que o pouso não deve prosseguir. Isso pode ocorrer por condições meteorológicas, aproximação instável, presença de outra aeronave na pista, perda de referências visuais ou qualquer outra circunstância que torne mais seguro ganhar altitude e realizar uma nova aproximação.

No caso do MH184, o piloto não precisou continuar a aproximação depois que sua visão foi afetada. A aeronave circulou e voltou para o procedimento de pouso, concluído com segurança poucos minutos depois.

Portanto, o fato de o avião ter interrompido a aproximação não significa que uma queda era iminente. Pelo contrário: a decisão de não insistir no pouso diante de uma interferência visual é justamente uma das formas de gerenciamento de risco utilizadas na aviação.

Calcutá já enfrentou preocupação semelhante

O incidente também chama atenção porque não é a primeira vez que lasers próximos ao aeroporto de Calcutá geram preocupação.

Segundo relatos publicados após o episódio, durante as festividades de Durga Puja em 2025 houve preocupação com equipamentos de laser utilizados nas proximidades do aeroporto, inclusive em uma área associada ao Sreebhumi Sporting Club. A atividade acabou sendo interrompida após preocupações relacionadas à segurança dos voos.

A questão é especialmente sensível em áreas urbanas próximas a aeroportos. Quando há grande concentração de pessoas nas proximidades das rotas de chegada e saída, torna-se mais difícil controlar individualmente todas as fontes de luz que podem atingir uma aeronave.

O que diz a legislação sobre colocar uma aeronave em perigo?

A gravidade do problema também aparece na legislação de diferentes países.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a FAA informa que apontar deliberadamente um laser para uma aeronave é crime federal. Além das sanções criminais, podem existir penalidades civis, com multas que podem chegar a milhares de dólares por ocorrência.

No Brasil, o Código Penal também possui uma regra ampla relacionada à segurança do transporte aéreo. O artigo 261estabelece como crime expor a perigo aeronave própria ou alheia ou praticar ato destinado a impedir ou dificultar a navegação aérea, com pena de reclusão de dois a cinco anos. Se da conduta resultar desastre, a pena pode subir para quatro a 12 anos, além de multa.

A aplicação de um artigo específico dependeria, naturalmente, das circunstâncias e da apuração de cada caso. O ponto central é que uma ação deliberada capaz de colocar uma aeronave em risco pode ultrapassar completamente a esfera de uma simples infração administrativa.

Em vídeo e relatos sobre o caso, o ponto que mais chama atenção é o momento do ataque

O episódio do MH184 ganhou repercussão justamente porque ocorreu durante a aproximação para pouso, quando uma alteração repentina na visão da tripulação pode ter consequências muito maiores do que teria durante uma fase menos crítica do voo.

As informações divulgadas sobre o caso mostram que o feixe atingiu o cockpit, o piloto ficou desorientado e a aproximação foi interrompida. Depois, a aeronave realizou uma nova aproximação e pousou em segurança.

Esse trecho da ocorrência é especialmente relevante para acompanhar vídeos e imagens divulgados sobre o incidente, porque ajuda a separar o que efetivamente aconteceu do exagero comum em relatos de redes sociais: não houve queda, colisão ou feridos, mas houve uma interferência real na operação de um voo comercial com 159 passageiros.

Um feixe de luz de poucos segundos pode provocar um problema de grandes proporções

Os números registrados pela FAA ajudam a dimensionar por que as autoridades tratam o assunto com tanta seriedade. Em 2024, foram registrados 12.840 ataques com laser nos Estados Unidos; em 2025, o número caiu para 10.994, mas continuou representando milhares de ocorrências.

A ICAO, por sua vez, alerta que os efeitos podem incluir desde distração e ofuscamento até cegueira temporária e lesões oculares, especialmente quando a exposição acontece em momentos críticos da operação.

No caso da Malaysia Airlines, a sequência terminou bem: o voo foi atrasado apenas alguns minutos, os 159 passageiros chegaram ao destino e não houve registro de feridos. Mas o episódio mostra por que uma ação aparentemente pequena, praticada a partir do solo, pode obrigar uma tripulação a mudar imediatamente seus planos.

A investigação policial em Calcutá agora tenta descobrir quem estava por trás do feixe de laser. Para as autoridades aeroportuárias, identificar a origem da luz não é apenas uma questão de responsabilização: também pode ajudar a impedir que outro avião seja atingido durante uma aproximação ou decolagem.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.