Uma cidade chinesa com mais de 2 mil anos de história, casas tradicionais construídas nas encostas e uma cachoeira que atravessa o coração da área histórica parece, à primeira vista, uma paisagem criada por inteligência artificial. Furong Town, no interior da província de Hunan, existe de verdade e se tornou um dos destinos mais procurados por turistas que procuram uma combinação pouco comum de patrimônio histórico, natureza e iluminação noturna.
O lugar também passou por uma transformação impressionante. Segundo o governo de Hunan, 6,53 milhões de visitas foram registradas em Furong em 2025, enquanto as compras de ingressos por turistas estrangeiros cresceram 61% em relação ao ano anterior. Mais de 338 mil visitantes internacionais, vindos de mais de 70 países e regiões, compraram ingressos no período.
A imagem que viraliza nas redes, entretanto, não conta toda a história. Antes de se tornar um cenário disputado por fotógrafos e viajantes, Furong era conhecida como Wangcun, uma antiga comunidade ligada à cultura Tujia e à história política da região de Xiangxi.
A cidade que parece ter saído de um filme
Furong está localizada no condado de Yongshun, na Prefeitura Autônoma Tujia e Miao de Xiangxi, em Hunan. A região fica no interior das montanhas Wuling, uma área conhecida pelas montanhas, rios, cavernas e comunidades tradicionais.
O governo provincial de Hunan descreve Furong como uma cidade antiga com mais de 2 mil anos e conhecida pela imagem de uma “cidade antiga suspensa sobre a cachoeira”. O local também teve importância histórica por ter sido associado a um antigo domínio de chefes Tusi, sistema utilizado durante séculos para administrar comunidades de diferentes grupos étnicos no sudoeste da China.
A arquitetura ajuda a criar a impressão de que o lugar pertence a outra época. Casas de madeira se espalham pelas encostas, muitas delas construídas em estruturas elevadas, enquanto passarelas e caminhos de pedra acompanham o relevo.
No meio desse conjunto está o elemento que transformou Furong em uma das paisagens mais reconhecíveis de Hunan: a cachoeira.
A cachoeira passa literalmente pelo centro da cidade
Ao contrário de uma cachoeira localizada em uma área completamente isolada, a queda d’água de Furong está integrada à própria paisagem urbana histórica.
Segundo o Departamento de Cultura e Turismo de Hunan, a cachoeira possui mais de 20 metros de largura e cerca de 30 metros de altura. A água cai próxima às construções Tujia e permite que visitantes passem por áreas localizadas atrás ou próximas à queda.
É justamente essa combinação que produz as fotografias que parecem artificiais: casas tradicionais, penhascos, vegetação, água e pessoas convivendo praticamente no mesmo enquadramento.
De dia, o cenário tem aparência predominantemente histórica. Quando escurece, porém, a cidade ganha outra identidade.
Quando a noite chega, Furong muda completamente
A iluminação noturna virou parte importante da experiência turística.
O governo de Hunan informa que Furong possui mais de 180 instalações culturais e de entretenimento, sendo mais de 130 delas abertas durante a noite. A atividade noturna passou a fazer parte da estratégia de desenvolvimento turístico da cidade.
Em imagens divulgadas pelas autoridades locais, a iluminação artificial transforma as construções de madeira e a própria cachoeira em um grande espetáculo visual.
É esse contraste entre patrimônio histórico e tecnologia de iluminação que ajuda a explicar por que vídeos de Furong viralizaram nas redes sociais.
Em 2025, o governo provincial chegou a destacar que vídeos da cidade publicados em plataformas internacionais ajudaram a ampliar sua exposição no exterior. Um dos conteúdos noturnos relacionados ao destino ultrapassou 1 milhão de visualizações, segundo a administração provincial.
Nas redes sociais, usuários passaram a comparar o lugar com cenários de animações e filmes de fantasia. Para quem chega pela primeira vez, a comparação com uma imagem criada por IA acaba sendo quase inevitável.
O nome Furong também nasceu do cinema
Existe ainda uma curiosidade histórica por trás do próprio nome da cidade.
Furong era originalmente chamada de Wangcun. A mudança veio depois que o local serviu de cenário para o filme chinês “Hibiscus Town”, lançado em 1986 e baseado no romance de Gu Hua.
A produção fez enorme sucesso e colocou a antiga Wangcun no mapa cultural chinês.
Em 1997, o povoado adotou oficialmente o nome Furong Town, o mesmo nome utilizado na obra cinematográfica. A relação com o filme permanece presente no turismo local, com referências à produção espalhadas pela área histórica.
Ou seja, existe uma ironia interessante na história.
Uma cidade com mais de 2 mil anos ganhou fama moderna justamente por causa de uma produção cinematográfica do século 20.
A cultura Tujia continua presente
Furong não é apenas uma cidade cenográfica.
A região é tradicionalmente associada ao povo Tujia, uma das comunidades étnicas que vivem no sudoeste da China. A cultura aparece na arquitetura, no artesanato, na gastronomia, nas roupas e nas apresentações folclóricas.
O Departamento de Cultura e Turismo de Hunan destaca experiências relacionadas à cultura Tujia, como danças tradicionais, tecelagem de brocados, culinária local e celebrações culturais.
A administração turística também passou a utilizar essa herança como parte da experiência oferecida aos visitantes.
Turistas podem encontrar roupas tradicionais para fotografias, produtos artesanais e apresentações que transformam elementos da cultura local em atrações acessíveis a quem chega de fora.
O desafio, nesse caso, é manter a tradição viva sem transformar todo o patrimônio em apenas um cenário comercial.
Brasileiros ficaram impressionados com a cidade
A experiência de Furong foi registrada pelo casal brasileiro do canal “Vou sem volta”, que percorreu o destino e mostrou desde a chegada até a gastronomia e a transformação da cidade depois do anoitecer.
“A China é a combinação perfeita de tradição e tecnologia”, descrevem os viajantes ao comparar a experiência em diferentes partes do país.
Em Furong, a percepção aparece de maneira ainda mais evidente. As construções preservam características tradicionais, enquanto a iluminação, os sistemas de transporte e a infraestrutura turística pertencem a uma China contemporânea.
Em vídeo publicado pelo canal, o casal detalhou a experiência de caminhar pelas ruas, visitar a área sob a cachoeira, conhecer restaurantes e observar a cidade iluminada. É justamente nesse trecho que aparece uma das comparações mais fortes dos viajantes: a sensação de estar diante de um lugar que parece ter sido produzido digitalmente.
O trem-bala muda a experiência de chegar a cidades históricas
Outro aspecto que chamou a atenção dos brasileiros foi o transporte.
A China possui uma das maiores redes ferroviárias de alta velocidade do mundo, e a expansão das linhas ajudou a aproximar cidades menores de grandes centros urbanos.
No caso de Furong, o próprio governo de Hunan orienta turistas a utilizar a linha de alta velocidade Zhangjiajie–Jishou–Huaihua, desembarcando na estação de Furong Town e fazendo a conexão final por transporte turístico.
Isso é importante para entender como um destino relativamente remoto consegue receber milhões de visitantes.
A viagem não termina necessariamente em uma estrada sinuosa por horas. A ferrovia de alta velocidade leva o passageiro até uma estação próxima da atração, que depois é conectada ao centro turístico por transporte rodoviário.
Para o casal do “Vou sem volta”, essa infraestrutura fez diferença.
“Seria meu sonho se o Brasil tivesse essas linhas ferroviárias iguais aqui”, comenta o apresentador durante o relato.
A comparação ajuda a explicar uma das características da experiência turística chinesa: o país investiu fortemente em conectar grandes cidades a destinos do interior.
Não é só beleza: o turismo virou uma atividade econômica gigante
O crescimento de Furong também criou uma pequena transformação econômica.
Segundo o governo provincial, o número anual de visitas à cidade saltou de cerca de 300 mil para 6,53 milhões em sete anos. No mesmo período, o número de negócios individuais aumentou de 737 para 1.451, gerando mais de 1.200 empregos.
A administração local também afirma que o desenvolvimento turístico ajudou a elevar a renda de milhares de famílias e estimulou atividades relacionadas ao artesanato, alimentação, hospedagem e serviços.
Isso mostra que a cachoeira não é apenas uma atração para fotos.
Ela se transformou em um motor econômico.
A estratégia também envolve produtos culturais. Segundo o governo de Hunan, foram desenvolvidos mais de 800 tipos de produtos culturais e criativos associados à região, enquanto oficinas de artesanato e produção de joias ajudaram a ampliar oportunidades de trabalho.
O turismo noturno virou parte da estratégia
A iluminação da cachoeira pode parecer apenas uma atração visual, mas existe uma razão econômica por trás dela.
Quanto mais tempo o visitante permanece na cidade, maior tende a ser o consumo de hospedagem, alimentação, transporte, compras e entretenimento.
Furong passou justamente a explorar esse comportamento.
O governo de Hunan afirma que o desenvolvimento da chamada economia noturna transformou a experiência depois do pôr do sol em uma das principais características do destino.
Isso também explica por que passar apenas algumas horas na cidade pode não ser suficiente para quem deseja conhecer o destino em sua versão mais famosa.
Durante o dia, o visitante encontra a arquitetura e a cachoeira. À noite, encontra o espetáculo de iluminação que ajudou a tornar Furong conhecida nas redes sociais.
A gastronomia também faz parte da experiência
A culinária de Xiangxi aparece com frequência nas experiências turísticas de Furong.
O Departamento de Cultura e Turismo de Hunan cita entre os pratos e produtos associados à região o tofu de arroz de Furong, o vinho de arroz e carnes defumadas de Xiangxi.
No relato do “Vou sem volta”, o casal experimentou diferentes pratos e chamou atenção para sabores mais intensos e preparações que podem ser diferentes do paladar brasileiro.
Entre as comidas apresentadas aparecem berinjela, carne de porco e alimentos vendidos nas ruas.
O casal também observou que os preços podem subir em áreas turísticas. É uma situação comum em destinos que recebem grande fluxo de visitantes: o mesmo produto pode custar mais próximo dos principais pontos turísticos do que em bairros frequentados pelos moradores.
Quanto custa visitar Furong?
O preço mencionado no vídeo deve ser tratado com cuidado porque tarifas turísticas podem mudar conforme período, modalidade de ingresso e políticas do complexo.
Uma referência publicada pelo governo chinês em 2020 indicava ingresso de 80 yuans por pessoa, mas esse valor não deve ser usado automaticamente como preço atual.
Para quem pretende viajar hoje, o mais seguro é consultar o canal oficial ou a plataforma de venda utilizada no momento da viagem antes de comprar.
A própria estrutura turística também mudou nos últimos anos, com ampliação de serviços voltados a estrangeiros, incluindo atendimento multilíngue e mecanismos de pagamento internacional.
Furong deixou de ser apenas um segredo local
O crescimento internacional do destino mostra uma mudança maior no turismo chinês.
Durante muito tempo, estrangeiros que viajavam para a China concentravam seus roteiros em Pequim, Xangai, Xi’an, Guangzhou e outros grandes centros.
A expansão da infraestrutura e a popularização de vídeos de viagem estão levando visitantes para lugares muito menos conhecidos fora do país.
Furong é um exemplo perfeito dessa transformação.
Em 2025, 6,53 milhões de visitas foram registradas no destino, e mais de 338 mil turistas estrangeiros de mais de 70 países e regiões compraram ingressos, segundo dados divulgados pelo governo de Hunan.
A procura internacional também cresceu 61% em relação ao ano anterior, mostrando que o fenômeno não está restrito aos turistas chineses.
Uma cidade milenar com aparência futurista
Talvez seja justamente essa contradição que torna Furong tão atraente.
A cidade mantém uma história de mais de 2 mil anos, tradições Tujia, construções de madeira e uma paisagem moldada pelas montanhas e pela água. Ao mesmo tempo, utiliza iluminação sofisticada, infraestrutura turística moderna, transporte ferroviário de alta velocidade e estratégias digitais para alcançar visitantes do outro lado do planeta.
A comparação com inteligência artificial nasceu justamente dessa mistura.
As imagens parecem irreais porque reúnem elementos que normalmente aparecem separados: uma cachoeira no centro de uma cidade histórica, casas suspensas nas encostas e uma iluminação noturna cuidadosamente planejada.
Mas não é uma criação de computador.
É uma cidade real que descobriu como transformar sua própria história em uma das atrações turísticas mais impressionantes da China.
E o detalhe mais curioso talvez seja que Furong não precisou abandonar seu passado para entrar no futuro. Foi justamente o passado de mais de 2 mil anos, combinado com tecnologia e uma estratégia moderna de turismo, que transformou a antiga Wangcun em um dos destinos chineses que mais chamam a atenção de viajantes estrangeiros.
Fontes principais: Governo da Província de Hunan, Departamento de Cultura e Turismo de Hunan, governo chinês/Xinhua e informações do material fornecido sobre o canal “Vou sem volta”.
