O Império da BYD na Bahia: Por dentro da megafábrica de R$ 6 bilhões que quer revolucionar o mercado brasileiro

Com investimento bilionário e a meta de produzir um carro por minuto em Camaçari, gigante chinesa abre as portas de seu complexo industrial e detalha estratégia para dominar o setor de elétricos no Brasil.

A antiga fábrica da Ford, em Camaçari (BA), vive uma nova fase com a chegada da BYD. A montadora chinesa já investiu cerca de R$ 6 bilhões no complexo industrial e trabalha para transformar o local em uma das maiores bases de produção de veículos elétricos da América Latina. A operação prevê a geração de milhares de empregos e uma expansão que pode dobrar a capacidade de fabricação nos próximos anos.

Os detalhes da estrutura foram apresentados em um vídeo publicado pelo canal Joao Curry, que teve acesso aos bastidores da fábrica e entrevistou executivos e funcionários responsáveis pela operação brasileira da empresa. Durante a visita, a equipe mostrou como funciona a chamada “Cidade BYD”, um complexo de aproximadamente 4 milhões de metros quadrados que reúne diferentes etapas da fabricação de automóveis.

Complexo funciona como uma cidade industrial

O espaço ocupado pela BYD vai muito além de uma linha de montagem. Atualmente, mais de 5.500 pessoas trabalham na unidade, número que deve chegar a 10 mil colaboradores até o fim do ano, segundo a empresa.

A dimensão da fábrica exige até mesmo transporte interno por ônibus para deslocar funcionários e visitantes entre os diversos setores.

Supervisor de produção da unidade, Adson Santana explica que toda a planta foi projetada para operar em alta eficiência.

“Eu tenho capacidade nessa planta de produzir um carro a cada minuto”, afirmou.

Adson Santana, da BYD. Foto: Montagem/Reprodução Youtube

Hoje, a unidade concentra a montagem de alguns dos modelos mais vendidos da marca no Brasil, como Dolphin Mini, Song Pro e King.

Além da montagem final, o complexo conta com setores específicos para estampagem de chapas metálicas, soldagem, pintura e inspeção dos veículos antes da entrega.

Segundo Alexandre Baldi, vice-presidente sênior do grupo e CEO da BYD Brasil, a meta é encerrar esta primeira etapa produzindo 25 mil veículos por mês, o equivalente a 300 mil unidades por ano.

Empresa quer mudar a imagem dos produtos chineses

Um dos temas abordados durante a visita foi a mudança de percepção do consumidor brasileiro em relação às marcas chinesas.

Diretor de Comunicação e Branding da BYD Brasil, Pablo afirmou que o maior desafio inicial era combater o preconceito histórico contra produtos fabricados na China.

“Acabou aquela história de ‘xingling’, de que produto chinês é frágil, de que não dura”, disse.

Segundo ele, a estratégia envolveu campanhas nacionais de comunicação para apresentar a tecnologia da empresa e aproximar a marca do consumidor brasileiro.

Na avaliação do executivo, a BYD conseguiu transformar essa percepção.

“A BYD é a primeira marca chinesa de desejo do Brasil.”

Pablo também destacou que a companhia já possuía forte tradição tecnológica antes mesmo de entrar no mercado automotivo.

De acordo com o executivo, a empresa fornece baterias para grandes fabricantes mundiais de eletrônicos e participa da cadeia produtiva de smartphones utilizados em diversos países.

Robôs autônomos ajudam na produção

Outro destaque apresentado durante a visita foi o sistema logístico da fábrica.

Veículos autônomos conhecidos como AGVs percorrem os corredores transportando peças para abastecer continuamente a linha de montagem.

Segundo Thiago Regonato, supervisor de logística, cada automóvel pode reunir mais de 1.800 componentes, tornando essencial um sistema altamente sincronizado para evitar interrupções na produção.

Além da automação, a BYD também investe na formação de novos profissionais.

BYD em Camaçari, na Bahia. Foto: Reprodução

Como parte significativa dos funcionários está ingressando pela primeira vez na indústria automotiva, a empresa criou uma estrutura interna de treinamento.

Adson Santana explicou que os colaboradores passam inicialmente por uma espécie de “minifábrica”, onde aprendem todas as etapas da montagem antes de seguirem para a produção real.

Alexandre Baldi destaca expansão com recursos próprios

Durante a entrevista concedida ao canal, Alexandre Baldi afirmou que toda a implantação da unidade baiana está sendo realizada com recursos da própria empresa.

Segundo ele, o investimento não dependeu de financiamentos de bancos públicos brasileiros.

O executivo também comentou uma dúvida frequente sobre a companhia.

“A BYD não tem participação do governo chinês. É uma empresa de capital aberto que teve investimento do Warren Buffett, um dos magos do mercado financeiro global.”

Baldi ainda falou sobre o perfil de liderança necessário para comandar uma operação dessa dimensão.

“Você tem que ser frio. Você não pode se abalar com absolutamente nada. Se você não for frio, você vai agir precipitadamente e tomar decisões que não te levarão aos resultados.”

Economia é um dos argumentos para conquistar consumidores

Além do crescimento industrial, a BYD aposta no custo de utilização dos veículos elétricos para ampliar sua participação no mercado brasileiro.

Segundo Alexandre Baldi, carregar um carro elétrico em casa pode custar até oito vezes menos do que abastecer um automóvel movido a combustão, dependendo da região do país.

O executivo também afirmou que o Dolphin apresenta consumo equivalente a quase 60 quilômetros por litro, quando convertido para comparação energética, além de exigir uma manutenção significativamente menor.

Na avaliação da empresa, o custo de manutenção de um veículo elétrico pode ser aproximadamente 80% inferior ao de modelos movidos a diesel.

Segunda fase poderá dobrar produção

Os planos da fabricante vão além da primeira etapa da fábrica de Camaçari.

Segundo Baldi, a matriz chinesa já autorizou estudos para iniciar uma segunda fase de expansão da unidade.

Caso o cronograma seja executado conforme previsto, a capacidade anual poderá atingir 600 mil veículos, consolidando a Bahia como um dos principais polos da indústria automotiva da América Latina.

Paralelamente, a empresa também amplia sua atuação no segmento premium com a chegada da marca Denza, voltada para consumidores de alto padrão e desenvolvida originalmente em parceria com a Mercedes-Benz.

Propósito acima dos resultados financeiros

Durante a entrevista, Alexandre Baldi afirmou que sua motivação vai além dos indicadores financeiros da companhia.

“Eu nunca trabalhei por emprego. Quem trabalha por emprego ou por dinheiro nunca terá sucesso. Eu trabalho por propósito.”

Segundo o CEO da BYD Brasil, a expansão da mobilidade elétrica representa uma transformação que pode contribuir para reduzir emissões e ampliar a qualidade de vida nas cidades.

Ao final da conversa, Baldi deixou uma mensagem voltada a empreendedores e profissionais.

“Sonhe, acredite, trabalhe, dedique-se, relacione-se e nunca desista.”

Assista ao vídeo na íntegra que mostra bastidores da fábrica

Em vídeo publicado em seu canal oficial no YouTube, Joao Curry percorreu diferentes setores da fábrica da BYD em Camaçari, acompanhou entrevistas com executivos, supervisores e funcionários e mostrou detalhes da estrutura industrial construída no antigo complexo da Ford. O conteúdo reúne imagens exclusivas dos processos de produção, da logística interna e dos planos de expansão da montadora chinesa no Brasil.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.