O fim do monopólio: Como a CazéTV e a LiveMode mudaram o futebol no Brasil para sempre

A forma de assistir futebol no Brasil nunca mudou tão rapidamente. Enquanto a CazéTV e a LiveMode conquistam espaço com transmissões digitais e modelos inovadores de distribuição de conteúdo, especialistas alertam que, nos bastidores, decisões financeiras tomadas por parte dos clubes podem impactar o futebol brasileiro pelas próximas cinco décadas.

A avaliação é de Bruno Chatack Marins, especialista em Direito Empresarial e Finanças, durante entrevista ao canal Market Makers. Segundo ele, a revolução promovida pelas novas plataformas representa um avanço para o torcedor, mas também expõe problemas estruturais na gestão dos clubes e na negociação dos direitos de transmissão.

Como nasceu o modelo que impulsionou a CazéTV

Na análise de Bruno Chatack Marins, o sucesso da LiveMode não surgiu por acaso. O grupo responsável pela empresa reúne profissionais que ajudaram a criar o antigo Esporte Interativo, canal que ganhou notoriedade ao investir em competições pouco valorizadas pelas grandes emissoras da época.

Segundo o especialista, a estratégia foi identificar nichos ignorados pelo mercado tradicional. “Eles reeditam a Copa do Nordeste e fazem um produto que arrebatou corações”, comentou Marins ao lembrar que o crescimento da audiência abriu caminho para a conquista de torneios internacionais, como a Liga dos Campeões da UEFA.

Bruno Chatack. Foto: Reprodução

Após a venda do Esporte Interativo para a Turner, os fundadores seguiram novos projetos até chegarem à parceria com Casimiro Miguel. Para Marins, unir o alcance do influenciador à experiência da equipe foi um movimento decisivo. “Foi uma ideia de 1 bilhão de dólares”, resumiu.

Estrutura enxuta virou vantagem no mercado

Na avaliação de Bruno Chatack Marins, a principal diferença entre a CazéTV e os grupos tradicionais de televisão está na velocidade para adaptar modelos de negócio.

Durante a entrevista, ele comparou as grandes emissoras a enormes navios, enquanto definiu a operação da CazéTV como uma lancha capaz de mudar de direção rapidamente conforme o mercado exige.

Essa flexibilidade permitiu acordos de sublicenciamento que antes eram pouco comuns. Segundo o especialista, a própria CazéTV compartilha determinados direitos de transmissão com outras empresas e, ao mesmo tempo, adquire conteúdos esportivos de diferentes competições, ampliando seu alcance sem depender exclusivamente de contratos de longo prazo.

Para Marins, esse formato mostra que o mercado deixou de funcionar sob uma lógica de exclusividade absoluta e passou a privilegiar a distribuição em múltiplas plataformas.

FIFA acelera o fim dos contratos exclusivos

Bruno Chatack Marins acredita que a fragmentação dos direitos de transmissão não acontece apenas no Brasil. Segundo ele, a própria FIFA vem sinalizando que pretende ampliar a divisão dos pacotes comerciais nas próximas competições internacionais.

Casimiro Miguel. Foto: Reprodução

Na visão do especialista, esse movimento deve ganhar força até 2030 e mudar definitivamente a maneira como torcedores acompanham campeonatos nacionais e internacionais.

A expectativa é que, nos próximos anos, diferentes plataformas passem a dividir as transmissões das principais competições, exigindo que o público acompanhe o futebol em diversos serviços de streaming, canais digitais e emissoras de televisão.

Divisão entre clubes fortaleceu novamente a CBF

Embora o ambiente das transmissões tenha evoluído, Bruno Chatack Marins avalia que a organização política do futebol brasileiro caminhou na direção oposta.

Hoje, os clubes negociam os direitos de transmissão divididos entre dois grandes grupos: a Libra e a Liga Forte União (LFU). Para o especialista, essa separação enfraqueceu o projeto de criação de uma liga única inspirada na Premier League inglesa.

“Os clubes brasileiros, pela sua própria ineficiência, já puseram tudo a perder desde o início”, afirmou durante a entrevista.

Segundo Marins, a falta de consenso acabou devolvendo protagonismo à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que voltou a liderar discussões envolvendo arbitragem, calendário e Fair Play Financeiro.

“Hoje a CBF se fortaleceu novamente. É ela quem está gerindo as principais discussões. Voltamos ao velho oeste”, observou.

Especialista critica contratos que comprometem receitas até 2075

A parte mais dura da análise de Bruno Chatack Marins foi direcionada aos contratos firmados pela Liga Forte União.

Segundo ele, diversos clubes aceitaram antecipar recursos ao vender entre 10% e 20% de suas receitas futuras de direitos de transmissão por um período de aproximadamente 50 anos.

“A LFU fez talvez a pior negociação do século do futebol brasileiro”, afirmou.

Na avaliação do especialista, o dinheiro recebido serviu para resolver problemas imediatos, mas comprometeu uma das principais fontes de receita das equipes durante décadas.

“99% desses valores já estão sepultados. O cara pegou a receita mais importante de um time e jogou 50 anos para frente”, declarou.

Para Marins, enquanto alguns clubes preservaram maior parte de suas receitas futuras, outros optaram por aliviar dificuldades financeiras no curto prazo, assumindo um compromisso que poderá influenciar gerações de dirigentes.

Assista ao vídeo na íntegra que detalha os bastidores da transformação

Em entrevista publicada no canal Market Makers, Bruno Chatack Marins detalhou como surgiu a LiveMode, explicou a estratégia comercial da CazéTV e analisou os impactos econômicos da fragmentação dos direitos de transmissão no futebol brasileiro.

Ao longo da conversa, o especialista também comentou os desafios para a criação de uma liga nacional forte, os efeitos dos contratos de longo prazo e as mudanças que devem ganhar força até o fim da década.

Cazé Tv na Copa do Mundo 2026

A Copa do Mundo da FIFA 2026 marcou uma mudança histórica na forma como os brasileiros acompanharam o principal torneio de futebol do planeta. Pela primeira vez, a CazéTV, operada pela LiveMode em parceria com o influenciador Casimiro Miguel, transmitiu gratuitamente, via streaming, todos os 104 jogos da competição, consolidando-se como a única emissora a oferecer cobertura completa do Mundial sem custo para o público.

As partidas foram exibidas ao vivo pelo YouTube, com transmissão em resolução 4K, além de estarem disponíveis em plataformas parceiras, como Disney+ e Amazon Prime Video. A grande final também chegou às telonas graças a um acordo com a Cinecolor Films, que levou o evento para salas das redes Cinemark, UCI e Kinoplex em seis estados e no Distrito Federal.

Os números registrados durante o torneio reforçaram o alcance da estratégia. Mais de 100 milhões de dispositivos únicos acompanharam as transmissões, enquanto a CazéTV concentrou as 28 maiores lives simultâneas da história do YouTube. O maior pico ocorreu durante a vitória da Seleção Brasileira sobre o Japão, quando cerca de 21 milhões de dispositivos estavam conectados ao mesmo tempo. Ao fim da competição, o canal ultrapassou a marca de 41 milhões de inscritos, tornando-se um dos dez maiores do Brasil.

A divisão dos direitos de transmissão também evidenciou a força do ambiente digital. Enquanto a CazéTV exibiu todos os jogos do Mundial, a TV Globo transmitiu entre 55 e 57 partidas, e o SBT ficou com 32 confrontos. Na prática, diversos jogos, incluindo partidas de grandes seleções como Portugal, puderam ser assistidos exclusivamente por meio das plataformas digitais da CazéTV, consolidando um novo modelo de consumo esportivo no país.

CazéTV faturou cerca de R$ 2 bilhões durante a Copa do Mundo de 2026

Além de bater recordes de audiência, a CazéTV transformou a Copa do Mundo de 2026 em um dos maiores cases comerciais da história do streaming esportivo brasileiro. Estimativas de mercado apontam que o projeto movimentou aproximadamente R$ 2 bilhões em faturamento, resultado de uma estratégia desenvolvida pela LiveMode em parceria com o YouTube para comercializar os direitos e os espaços publicitários do torneio.

Grande parte dessa receita veio da venda de 11 cotas master de patrocínio, cada uma negociada por cerca de R$ 185 milhões. Embora o valor fosse inferior ao cobrado pela TV Globo em seu pacote de transmissão, a CazéTV atraiu grandes anunciantes ao oferecer campanhas baseadas em segmentação de audiência, dados em tempo real e forte alcance entre o público jovem, características que ganharam importância no mercado publicitário.

Entre as empresas que apostaram no projeto estavam marcas de diferentes setores da economia. Itaú representou o segmento financeiro, enquanto Ambev e Coca-Cola lideraram os investimentos da indústria de bebidas. Também integraram o grupo de patrocinadores empresas como iFood, Mercado Livre, Vivo, Decolar, General Motors (GM) e casas de apostas como Bet365, Betnacional e KTO.

A estratégia comercial não ficou restrita às transmissões digitais. Durante o Mundial, a LiveMode lançou a Casa CazéTV, um espaço temático instalado em São Paulo e no Rio de Janeiro que reuniu transmissões ao vivo, shows, ativações de marcas e estúdios abertos ao público. O projeto recebeu milhares de visitantes por dia e ampliou as fontes de receita com venda de ingressos e novos contratos de patrocínio, incluindo marcas como Adidas e Hellmann’s, reforçando a capacidade da CazéTV de monetizar sua audiência para além das telas.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.