Beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) têm relatado suspensões de pagamentos durante as revisões administrativas realizadas em 2026. Entre os fatores que passaram a chamar atenção está o cruzamento de informações financeiras, incluindo movimentações via PIX, que podem ser analisadas pelo governo em processos de verificação de renda e manutenção de benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença).
Segundo a advogada previdenciarista Cláudia Torbes, da Ribeiro Torbes Advocacia, em seu canal no Youtube, muitos segurados só descobrem que o benefício foi suspenso quando tentam sacar o pagamento ou consultam o extrato bancário. Na avaliação da especialista, o monitoramento das movimentações financeiras se tornou uma das principais ferramentas utilizadas nas revisões do chamado pente-fino do INSS.
“O INSS não analisa a sua intenção; o que ele vai analisar é a sua movimentação”, afirma a advogada ao explicar como funciona a análise automática dos dados.
Como o INSS acompanha movimentações financeiras
O cruzamento de informações entre diferentes bases de dados não é novidade, mas ganhou mais importância nos últimos anos com a digitalização dos serviços públicos e a integração de sistemas governamentais.
Na prática, instituições financeiras encaminham informações à Receita Federal por meio da obrigação acessória conhecida como e-Financeira. Esses dados podem ser confrontados com registros do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) e outras bases utilizadas pelo INSS durante revisões administrativas.
Segundo Cláudia Torbes, o problema para muitos beneficiários é que esse procedimento ocorre sem comunicação prévia. “Muita gente só percebe quando vai utilizar o cartão e o benefício simplesmente não caiu”, comenta.
Transferências via PIX podem levantar questionamentos
Durante a análise divulgada pela advogada, três situações aparecem como as mais frequentes entre os casos que acabam gerando pedidos de esclarecimento ou abertura de processos administrativos.
A primeira envolve pessoas que recebem o BPC e costumam receber ajuda financeira mensal de familiares ou amigos por meio do PIX.
Como o benefício depende do cumprimento de critérios de renda familiar, depósitos recorrentes podem ser interpretados pelo sistema como aumento da renda do grupo familiar, principalmente quando não existe documentação que demonstre que o valor se trata apenas de auxílio.
“Se o dinheiro está entrando na sua conta de forma regular, o sistema pode interpretar como renda. Se essa soma ultrapassar o limite, o benefício é suspenso. Não tem choro, não tem vela”, alerta a especialista.

Movimentação mensal também pode entrar na análise
Outro ponto destacado pela advogada diz respeito ao volume total movimentado na conta bancária.
Ela explica que existe uma obrigação legal para que instituições financeiras informem determinadas movimentações financeiras à Receita Federal. Segundo Cláudia Torbes, o cálculo considera a movimentação acumulada durante o mês dentro da mesma instituição financeira, e não apenas uma transferência isolada.
“Não é por transação. O que importa é a soma das movimentações realizadas naquele período”, explica.
A especialista ressalta que isso não significa que qualquer pessoa que movimente determinado valor perderá automaticamente o benefício. O que ocorre é que essas informações podem integrar o conjunto de dados analisados durante fiscalizações e revisões administrativas.
PIX recebido de empresas exige atenção durante afastamento
O terceiro cenário citado pela advogada envolve segurados que recebem benefícios por incapacidade.
Segundo ela, quando há recebimento de valores enviados por empresas (CNPJ), o sistema pode identificar indícios de atividade remunerada incompatível com a condição de afastamento, levando à abertura de procedimento para apuração dos fatos.
Cláudia Torbes observa que existem situações perfeitamente legítimas, como reembolso de despesas, devoluções financeiras ou até empréstimos realizados por empresas familiares. Ainda assim, ela recomenda manter documentos capazes de comprovar a origem e a finalidade dos recursos caso o beneficiário seja chamado a prestar esclarecimentos.
Caso citado pela advogada terminou na Justiça
Durante o vídeo, Cláudia Torbes relata o caso de uma mulher de 61 anos, moradora do interior de Minas Gerais, que recebia o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Segundo a advogada, o filho enviava aproximadamente R$ 600 por mês via PIX para ajudar nas despesas com aluguel e medicamentos. Os depósitos recorrentes acabaram sendo considerados pelo INSS durante a revisão administrativa, o que levou à suspensão do benefício.
A especialista afirma que o caso foi revertido posteriormente na Justiça após a apresentação de documentos e mensagens que demonstravam que os valores representavam apenas ajuda familiar.
“Conseguimos provar com prints de WhatsApp que aquilo era ajuda familiar e não renda de trabalho. Mas foram oito meses devastadores para uma pessoa com mobilidade reduzida”, relata.
Como o beneficiário pode se proteger
Na avaliação da advogada, manter documentação organizada faz toda a diferença caso seja necessário comprovar a origem dos recursos recebidos.
Ela recomenda que beneficiários registrem a origem das entradas financeiras, guardem conversas que demonstrem quando um PIX representa ajuda familiar e formalizem empréstimos por meio de contratos ou recibos sempre que possível.
Outra orientação é evitar responder notificações do pente-fino sem compreender exatamente o que está sendo solicitado.
“Uma resposta mal formulada pode confirmar uma irregularidade que o INSS ainda nem tinha certeza, dando munição para o bloqueio”, afirma.
Vídeo detalha funcionamento do pente-fino
Em vídeo publicado no canal oficial da Ribeiro Torbes Advocacia (veja abaixo), a Dra. Cláudia Torbes explica com mais detalhes como funciona o cruzamento de informações utilizado nas revisões do INSS, apresenta exemplos de casos atendidos pelo escritório e orienta beneficiários sobre quais documentos podem ser importantes para contestar eventuais suspensões administrativas.
Embora movimentações financeiras possam fazer parte das análises realizadas pelo governo, especialistas lembram que cada caso é avaliado individualmente. O simples recebimento de um PIX não significa, por si só, perda automática do benefício, mas inconsistências entre a situação declarada e os dados financeiros podem levar à abertura de processos de revisão e exigir que o segurado apresente comprovação da origem dos valores.
