Uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, uma mula carregando sacas de café e um comerciante determinado deram origem ao que hoje é o maior grupo cafeeiro do Brasil. Mais de seis décadas depois, a história iniciada por João Alves de Lima, em São Miguel (RN), alcançou um novo capítulo com a aquisição das marcas Yoki e Kitano, pertencentes à General Mills, em uma operação de aproximadamente R$ 800 milhões. O negócio amplia a atuação da Três Corações muito além do café e fortalece sua posição como um dos maiores grupos de alimentos do país.
Com faturamento estimado em R$ 13 bilhões em 2025, mais de 30 marcas, 10 unidades industriais e presença em cerca de 600 mil pontos de venda, o Grupo Três Corações consolidou uma trajetória que começou muito distante dos grandes polos produtores de café do Brasil.
A história começou onde praticamente não existia produção de café
A origem da empresa foge completamente do roteiro tradicional das grandes companhias do setor.
Em 1959, João Alves de Lima vivia em São Miguel, município localizado no Alto Oeste potiguar. Na época, a cidade possuía cerca de cinco mil habitantes e pouca infraestrutura. Sem estradas pavimentadas e longe dos principais centros comerciais, ele percorria comunidades vendendo café verde de porta em porta.
O transporte era simples.
Uma mula carregava duas sacas por viagem enquanto João visitava clientes espalhados pela região.
Segundo especialistas que analisam a trajetória da companhia, foi justamente nesse período que surgiu a percepção que mudaria completamente o negócio.
João percebeu que havia muito mais valor em vender café já torrado e moído do que apenas comercializar os grãos in natura.
Um pequeno moinho mudou o futuro da família
A decisão veio poucos anos depois.
Em 1961, João adquiriu um moinho e lançou o Café Nossa Senhora de Fátima, primeiro passo rumo à industrialização do negócio.
Mesmo assim, o café ainda dividia espaço com outras atividades.
Durante anos, ele também administrou padaria, comércio e até uma pequena fábrica de sabão, construindo experiência empresarial em diferentes segmentos.
A atuação chamou atenção do setor.
Em 1973, João Alves tornou-se um dos sócios fundadores da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), entidade que posteriormente se transformaria em uma das principais referências do mercado cafeeiro nacional.
A segunda geração decidiu pensar grande
A grande transformação ocorreu em 1984.
Foi naquele momento que João transferiu a administração da empresa aos três filhos: Pedro, Paulo e Vicente Lima.
Pedro, o mais velho, deixou o curso de Agronomia para assumir integralmente os negócios da família.
Segundo especialistas, foi ele quem passou a enxergar possibilidades de crescimento muito além do mercado regional.
A empresa, que inicialmente utilizava apenas as iniciais do fundador — JAL —, acabou recebendo um novo nome após orientação de profissionais de marketing.
Nascia ali a marca Santa Clara, que rapidamente começou a expandir sua presença no Nordeste.
Cada irmão passou a desempenhar uma função específica.
Pedro assumiu a presidência e a estratégia financeira; Paulo percorreu dezenas de cidades semanalmente cuidando da expansão comercial; Vicente concentrou esforços na compra de café e no controle da qualidade.
O apoio de Fagner ajudou a conquistar o Nordeste
A expansão encontrou um aliado inesperado.
Segundo a história contada pelos próprios empresários, o cantor Raimundo Fagner, amigo da família, ofereceu-se para participar gratuitamente das campanhas publicitárias da marca caso ela instalasse uma fábrica no Ceará.
Ao mesmo tempo, incentivos fiscais reduziram significativamente a carga tributária para empresas instaladas no estado.
A combinação permitiu a inauguração da unidade industrial em Eusébio (CE), no início da década de 1990.
O resultado apareceu rapidamente.
Impulsionada pela força comercial e pelas campanhas estreladas por Fagner, a Santa Clara tornou-se líder em café nas regiões Norte e Nordeste poucos anos depois.
Pedro Lima tinha um sonho: conquistar a marca Três Corações
Apesar do crescimento regional, Pedro Lima ainda perseguia outro objetivo.
Segundo relatos do próprio empresário, sua grande ambição era entrar definitivamente no Sudeste utilizando uma marca já consolidada nacionalmente.
A escolhida era a Três Corações, empresa mineira criada em 1970 e conhecida por lançar o cappuccino em pó no mercado brasileiro.
A primeira tentativa ocorreu em 1997, quando Pedro buscou unir Santa Clara, Três Corações e Damasco.
As negociações não avançaram.
Pouco tempo depois, a Três Corações foi adquirida pelo grupo israelense Strauss Coffee.
Uma reviravolta mudou completamente a história
O cenário mudou poucos anos depois.
Segundo especialistas, a Strauss encontrou dificuldades para expandir sua operação no Brasil devido à limitação logística.
Em vez de seguir sozinha, decidiu procurar justamente os empresários nordestinos que conheciam profundamente a distribuição nacional.
Nascia então uma joint venture considerada histórica.
A sociedade foi formada em partes iguais entre a São Miguel Holding, controlada pela família Lima, e a Strauss Coffee.
Enquanto os israelenses aportavam tecnologia, capital e experiência internacional, os brasileiros ofereciam uma estrutura comercial altamente consolidada.
A união acelerou o crescimento da empresa em praticamente todas as regiões do país.
Respeitar as marcas locais virou uma estratégia vencedora
Ao contrário de outros grandes grupos alimentícios, a Três Corações decidiu preservar marcas regionais após realizar aquisições.
Empresas como Pimpinela, Itamarati e Café Manaus continuaram utilizando seus nomes tradicionais.
Segundo especialistas, essa decisão evitou romper a relação construída durante décadas entre consumidores e marcas locais.
Em vez de alterar a identidade, o grupo concentrou investimentos na qualidade dos produtos, logística e distribuição.
A estratégia ajudou a ampliar significativamente sua participação em mercados considerados difíceis, como São Paulo.
O império deixou de vender apenas café
A expansão continuou nos anos seguintes.
A companhia entrou no segmento de café solúvel após adquirir a Cia Iguaçu, fortaleceu sua atuação em produtos premium comprando operações da Mitsui Alimentos e passou a investir também em bebidas vegetais, antecipando tendências observadas em mercados internacionais.
Outro diferencial destacado por analistas está na logística.
Hoje, a empresa opera dezenas de centros de distribuição espalhados pelo Brasil, permitindo abastecimento rápido em capitais e cidades do interior.
Essa estrutura tornou-se uma das principais vantagens competitivas do grupo.
A compra da Yoki e da Kitano abre uma nova fase
O anúncio da aquisição das operações brasileiras da General Mills representa mais do que uma simples expansão do portfólio.
Com a incorporação de Yoki e Kitano, a Três Corações passa a competir de forma muito mais ampla no setor de alimentos.
Além do café, a companhia fortalece presença em categorias como pipocas, farofas, temperos, molhos e diversos produtos presentes diariamente na mesa dos brasileiros.
Segundo especialistas, a operação amplia significativamente o potencial de crescimento da empresa e reduz sua dependência do mercado cafeeiro.
Vídeo relembra a trajetória que transformou uma pequena torrefação em um gigante nacional
Em vídeo publicado no Youtube (veja abaixo), o canal Curioso Mercado detalha como uma empresa criada no interior do Rio Grande do Norte conseguiu construir uma das maiores estruturas de distribuição do setor alimentício brasileiro. Ao longo da análise, ele mostra os principais momentos da expansão da companhia, explica as aquisições que consolidaram o grupo e comenta como a recente compra das marcas Yoki e Kitano representa um novo passo na estratégia de crescimento da Três Corações.
Família segue no comando e prepara a próxima geração
Mesmo após décadas de expansão, a empresa permanece sob controle da família fundadora.
João Alves de Lima faleceu em 2018, aos 84 anos, mas deixou uma estrutura empresarial consolidada e uma sucessão considerada rara entre grandes grupos familiares brasileiros.
Hoje, Pedro, Paulo e Vicente continuam participando da administração, enquanto a nova geração começa a assumir funções estratégicas.
Entre os destaques está Paulinha Lima, filha de Pedro, formada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e atualmente responsável por projetos ligados à internacionalização e ao desenvolvimento de novos negócios.
A trajetória iniciada com uma mula transportando duas sacas de café tornou-se um dos maiores casos de sucesso do empreendedorismo brasileiro. A recente aquisição da Yoki e da Kitano demonstra que o grupo ainda pretende ampliar sua presença no setor de alimentos, reforçando uma estratégia construída ao longo de mais de seis décadas de crescimento contínuo.
