Entrar em um supermercado, pegar os produtos diretamente das prateleiras, colocá-los na sacola e sair sem enfrentar filas, sem passar por um caixa e sem escanear códigos de barras já deixou de ser um conceito futurista no Brasil. Em Curitiba (PR), o Muffato Go opera como a primeira loja totalmente autônoma do país, utilizando inteligência artificial, visão computacional e centenas de câmeras para identificar automaticamente cada item escolhido pelo consumidor.
A tecnologia chamou a atenção do especialista em varejo Tiago Vieira, do canal Tiago Vieira Supermercados, que visitou a unidade para entender como funciona a operação. Durante o teste, ele conversou com a gerência da loja e acompanhou de perto o sistema responsável por registrar cada movimento dos clientes, dispensando a necessidade de operadores de caixa.
Como funciona o supermercado sem caixas
Ao entrar no Muffato Go, o cliente passa por um portal de acesso utilizando um QR Code gerado pelo aplicativo da rede ou por um sistema de identificação disponível na própria loja.
A partir desse momento, inicia-se todo o monitoramento da compra.
Segundo explicou Francine, gerente da unidade, o sistema cria uma espécie de identificação digital exclusiva para cada consumidor.
“Quando o cliente chega na loja, o sistema começa a identificar como se fosse uma espécie de avatar”, explicou a gerente durante a visita realizada por Tiago Vieira.
Esse “avatar” passa a ser acompanhado continuamente pelas câmeras distribuídas no teto da loja.
Cada vez que um produto é retirado da gôndola, recolocado ou colocado na sacola, o sistema registra automaticamente essa movimentação.
“O cliente vai fazendo as interações dele com a gôndola. Pegou o produto, devolveu, colocou na cestinha dele… o sistema já vai entender essa interação”, detalhou Francine.
Mais de 300 câmeras monitoram toda a loja
O funcionamento do supermercado depende de um complexo sistema de visão computacional.
Segundo a gerente, são mais de 300 câmeras instaladas em uma área de aproximadamente 240 metros quadrados, responsáveis não apenas pela segurança, mas principalmente pela identificação dos produtos escolhidos pelos consumidores.
Esse modelo utiliza algoritmos de inteligência artificial capazes de cruzar imagens, localização e movimentação dos clientes em tempo real.
A tecnologia pertence a um grupo de soluções conhecido mundialmente como Just Walk Out, conceito popularizado internacionalmente por empresas que apostaram em lojas sem caixas tradicionais.
Embora cada operador utilize plataformas diferentes, o princípio é semelhante: sensores e inteligência artificial identificam automaticamente quem retirou determinado produto da prateleira.
Compra é registrada sem passar produtos no leitor
Durante a experiência, Tiago Vieira escolheu diferentes produtos, incluindo bebidas, frutas e iogurtes.
Ao chegar ao terminal de pagamento, não foi necessário escanear nenhum código de barras.
Segundo ele, bastou aproximar-se do equipamento para que toda a lista de compras aparecesse automaticamente na tela.
“Eu simplesmente encostei e ele já sabia tudo que eu comprei. Eu não passei um produto. Isso é surreal”, afirmou o especialista.
O sistema realiza esse reconhecimento porque toda a movimentação já havia sido registrada anteriormente pelas câmeras espalhadas pelo estabelecimento.
Inteligência artificial ainda aprende com alguns produtos
Apesar da elevada precisão, a própria equipe da loja reconhece que alguns desafios ainda existem.
O principal ocorre no setor de frutas, legumes e verduras.
Como diversos produtos possuem formatos e cores semelhantes, a inteligência artificial pode solicitar uma confirmação adicional do consumidor.
Durante o teste realizado por Tiago Vieira, uma laranja chegou a ser confundida momentaneamente com outros itens de aparência parecida.
Segundo Francine, esse comportamento faz parte do processo de aprendizado do algoritmo.
“São itens que são muito parecidos e ela vai aprendendo”, explicou.
A tendência é que, com o aumento do volume de compras e interações, o sistema se torne cada vez mais preciso.
Loja sem caixas não significa loja sem funcionários
Embora o atendimento tradicional tenha sido eliminado, a operação continua contando com colaboradores.
Segundo a gerente, a unidade possui aproximadamente seis funcionários.
Em vez de permanecerem nos caixas, eles atuam em funções estratégicas, como reposição de mercadorias, organização das gôndolas, auxílio aos consumidores e preparação dos pedidos realizados por aplicativos de delivery.
Essa mudança acompanha uma tendência observada em diferentes mercados internacionais, onde a automação elimina tarefas repetitivas e direciona parte da equipe para atividades de maior valor agregado.
Segurança também mudou com a tecnologia
Um dos temas mais discutidos quando se fala em supermercados autônomos é a prevenção de perdas.
No Muffato Go, o monitoramento ocorre desde o momento em que o consumidor entra na loja.
Segundo Francine, todas as movimentações permanecem registradas durante a permanência do cliente.
“A partir do momento que a pessoa entra aqui, ela também é monitorada. Se acontece alguma coisa diferente, ela fica registrada de alguma forma.”
Ao mesmo tempo, a política da unidade busca proporcionar uma experiência de compra mais confortável.
O consumidor pode guardar os produtos diretamente na mochila, bolsa ou sacola durante o percurso, sem necessidade de passar por conferências intermediárias.
A validação acontece apenas na saída, mediante apresentação do QR Code gerado após o pagamento.
O perfil dos clientes revela um novo hábito de consumo
Segundo a gerência da unidade, o supermercado foi desenvolvido para atender consumidores que priorizam rapidez.
O tempo médio de permanência dentro da loja gira em torno de cinco minutos.
Os produtos mais vendidos reforçam esse comportamento.
Energéticos lideram o ranking de vendas, seguidos por alimentos prontos para consumo, bebidas e produtos voltados ao público fitness.
Os dias de maior movimento costumam ser segunda e sexta-feira, impulsionados pelo fluxo de trabalhadores que circulam pela região comercial de Curitiba.
Como comprar no Muffato Go
O acesso pode ser realizado de duas formas.
A primeira é por meio do aplicativo oficial da rede, no qual o cliente cadastra um cartão de crédito, gera um QR Code para entrada e realiza automaticamente o pagamento ao deixar o estabelecimento.
Também existe a opção do chamado autocaixa.
Nesse modelo, o consumidor faz normalmente suas compras e, ao final, dirige-se a um terminal que reconhece automaticamente todos os produtos escolhidos, permitindo o pagamento diretamente no equipamento.
Automação cresce no varejo brasileiro
O uso de inteligência artificial no varejo vem acelerando nos últimos anos.
Segundo estudos da consultoria McKinsey & Company, tecnologias baseadas em IA e visão computacional têm potencial para reduzir custos operacionais, melhorar a experiência do consumidor e otimizar o controle de estoques, fatores que vêm impulsionando investimentos do setor em diferentes países.
No Brasil, grandes redes supermercadistas também ampliaram o uso de etiquetas eletrônicas, sistemas inteligentes de reposição, autoatendimento e análise de comportamento de compra como parte da digitalização das operações.
Especialistas avaliam que lojas autônomas ainda representam uma pequena parcela do mercado nacional, mas funcionam como laboratórios para soluções que podem ser incorporadas gradualmente em supermercados convencionais.
Especialista mostra bastidores da operação em vídeo
Em vídeo publicado em seu canal oficial, Tiago Vieira percorreu toda a unidade do Muffato Go, conversou com a gerente Francine e demonstrou, na prática, como a inteligência artificial identifica cada produto retirado das prateleiras, registra automaticamente o carrinho virtual e realiza o fechamento da compra sem leitura de códigos de barras. Durante a visita, o especialista também discutiu os desafios tecnológicos da operação, o impacto da automação sobre a rotina dos funcionários e o potencial desse modelo para influenciar o futuro do varejo brasileiro.
