Mais de 25 anos em atividades insalubres, julgamento em andamento no STF e um projeto que pode acabar com a idade mínima: como o PLP 42 reacendeu o debate sobre a aposentadoria especial e pode mudar as regras do INSS para milhares de trabalhadores

A possibilidade de acabar com a idade mínima exigida na aposentadoria especial voltou ao centro das discussões no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF). O tema ganhou força com a tramitação do Projeto de Lei Complementar (PLP) 42, proposta que pretende restabelecer um dos principais critérios que vigoravam antes da Reforma da Previdência de 2019: permitir que trabalhadores expostos a agentes nocivos possam se aposentar apenas com o tempo mínimo de atividade especial, sem precisar cumprir uma idade mínima.

A discussão interessa diretamente a milhares de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que exercem funções consideradas insalubres, perigosas ou penosas. Entre eles estão profissionais da saúde, eletricitários, mineiros, metalúrgicos, vigilantes, trabalhadores da indústria química e diversas outras categorias que permanecem diariamente expostas a riscos capazes de comprometer a saúde ou até mesmo colocar a vida em perigo.

Segundo análise divulgada pelo canal Magalhães & Moreno Advogados, o advogado previdenciarista Eric Magalhães afirma que a exigência de idade mínima descaracteriza a própria finalidade da aposentadoria especial.

“A PLP 42 é uma proposta de lei que visa acabar com a idade mínima para que as pessoas que trabalham em condições insalubres, condições penosas, condições perigosas, condições que colocam a sua vida e a sua saúde em risco, não precisem trabalhar e ainda ter uma idade mínima para se aposentar”, explica o advogado.

Como funciona hoje a aposentadoria especial

A aposentadoria especial existe para proteger trabalhadores que exercem atividades sob exposição permanente a agentes físicos, químicos ou biológicos prejudiciais à saúde, além de determinadas atividades perigosas previstas na legislação.

Antes da Reforma da Previdência, promulgada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019, bastava comprovar o tempo de efetiva exposição ao risco para solicitar o benefício. Dependendo da atividade exercida, eram exigidos 15, 20 ou 25 anos de trabalho especial.

Com a reforma, novos requisitos passaram a valer para quem ingressou no mercado de trabalho após a mudança constitucional. Além do período de contribuição, passou a existir também uma idade mínima para obtenção do benefício, alterando significativamente as regras que vigoravam havia décadas.

Especialistas da área previdenciária sustentam que essa mudança modificou a lógica da aposentadoria especial. O objetivo original do benefício sempre foi retirar o trabalhador do ambiente nocivo antes que os efeitos da exposição contínua produzissem danos permanentes à saúde.

O que prevê o PLP 42

O Projeto de Lei Complementar 42 busca justamente restabelecer esse entendimento.

Na prática, a proposta pretende eliminar a exigência de idade mínima para quem comprovar o tempo de trabalho em atividade especial, retomando um modelo semelhante ao existente antes da Reforma da Previdência.

Caso seja aprovado pelo Congresso Nacional e posteriormente sancionado, o projeto poderá alterar novamente as regras para futuros pedidos de aposentadoria especial, embora sua aplicação dependa do texto final aprovado pelos parlamentares.

Segundo Eric Magalhães, trata-se de uma medida voltada à proteção do trabalhador exposto continuamente a ambientes nocivos.

“Não faz sentido exigir que alguém permaneça mais tempo trabalhando justamente em uma atividade que pode comprometer sua saúde ou colocar sua vida em risco.”

O papel do STF na discussão

Enquanto o projeto segue em tramitação no Legislativo, outra frente importante ocorre no Supremo Tribunal Federal.

Nos últimos meses, o STF avançou na análise da constitucionalidade da idade mínima aplicada à aposentadoria especial, sinalizando entendimento favorável aos trabalhadores durante parte do julgamento.

Apesar disso, o processo ainda não foi definitivamente encerrado.

Na avaliação de Eric Magalhães, esse detalhe exige cautela por parte dos segurados.

“Esse julgamento lá no STF ainda não acabou e olha não é de hoje que infelizmente o STF tomou uma decisão, o INSS recorre e depois o STF muda completamente de decisão.”

O advogado lembra que discussões previdenciárias importantes já passaram por mudanças de entendimento ao longo dos anos, como ocorreu com a chamada desaposentação, reforçando que uma decisão definitiva somente ocorrerá após o encerramento completo do julgamento.

Por que a aprovação do Congresso continua sendo considerada importante

Mesmo diante do andamento do julgamento no Supremo, especialistas afirmam que a aprovação do PLP 42 traria maior segurança jurídica.

Isso porque uma alteração legislativa tende a consolidar as regras diretamente na legislação previdenciária, reduzindo futuras disputas judiciais sobre o tema.

Segundo Magalhães, o debate não termina apenas com decisões judiciais.

“O jogo só acaba quando ele efetivamente termina e por isso que é importante nós continuarmos fazendo todo tipo de pressão lá no Congresso para a aprovação do PLP 42.”

O principal impasse: quem pagaria essa conta?

Um dos pontos mais debatidos durante a tramitação do projeto envolve o impacto financeiro da mudança.

Em discussões realizadas na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, parlamentares levantaram dúvidas sobre a existência de uma fonte de custeio capaz de suportar eventual aumento nas despesas previdenciárias.

Esse argumento, porém, é contestado por especialistas da área previdenciária.

Segundo Eric Magalhães, empresas já recolhem contribuições adicionais justamente em razão das atividades exercidas em condições especiais.

Entre esses recolhimentos estão o financiamento do Seguro de Acidente do Trabalho (SAT/RAT) e contribuições incidentes sobre remunerações pagas a trabalhadores expostos a agentes nocivos.

Na avaliação do advogado, essas contribuições já representam uma forma de financiamento da aposentadoria especial.

“Se vocês estão dizendo que essa fonte de custeio não serve para custear isso, então para que ela serve? Que esse dinheiro vá para o bolso do trabalhador como indenização, porque senão não faz sentido.”

O que diz a legislação sobre a aposentadoria especial

A aposentadoria especial possui fundamento constitucional e está prevista no artigo 201 da Constituição Federal.

Sua regulamentação ocorre principalmente pela Lei nº 8.213, de 1991, que disciplina os benefícios do Regime Geral de Previdência Social, além de decretos e normas complementares que definem quais agentes nocivos caracterizam atividade especial.

A comprovação da exposição normalmente ocorre por meio do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP) e do Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT), documentos elaborados pelas empresas para demonstrar as condições em que o empregado exerce suas funções.

Atualização da tramitação

O PLP 42 continua em análise na Câmara dos Deputados.

Uma das movimentações recentes ocorreu com a aprovação de requerimentos relacionados à tramitação nas comissões responsáveis pela análise da matéria, entre elas as Comissões de Trabalho e de Finanças.

Como se trata de um projeto de lei complementar, sua aprovação exige maioria absoluta nas duas Casas do Congresso Nacional antes de seguir para sanção presidencial.

O calendário legislativo também influencia o andamento da proposta, especialmente em períodos eleitorais, quando parte das votações costuma sofrer alterações na agenda do Congresso.

Quem poderá ser beneficiado caso as regras mudem

Se a proposta avançar nos moldes atualmente discutidos, trabalhadores que comprovarem o período mínimo de atividade especial poderão voltar a solicitar a aposentadoria sem cumprir idade mínima.

Os tempos mínimos continuariam variando conforme o grau de exposição aos agentes nocivos:

  • 15 anos para atividades de maior risco;
  • 20 anos para determinadas atividades intermediárias;
  • 25 anos para a maioria das profissões enquadradas como especiais.

A aplicação prática, entretanto, dependerá do texto definitivo aprovado pelo Congresso e de eventual regulamentação posterior.

Especialista reforça mobilização

Durante a análise publicada em seu canal oficial, Eric Magalhães dedicou boa parte da explicação aos próximos passos da proposta, defendendo que a participação da sociedade pode influenciar o andamento da matéria nas comissões parlamentares.

Segundo ele, o debate ultrapassa a discussão financeira e envolve também proteção à saúde dos trabalhadores expostos diariamente a ambientes potencialmente perigosos.

“Nós precisamos da regulamentação da aposentadoria especial por uma questão de justiça social com esses trabalhadores que sofrem nas atividades insalubres, penosas e perigosas.”

O que o trabalhador deve acompanhar

Neste momento, ainda não houve mudança nas regras da aposentadoria especial. O PLP 42 permanece em tramitação no Congresso Nacional e depende da conclusão de todas as etapas legislativas para eventualmente alterar a legislação vigente.

Paralelamente, o julgamento relacionado ao tema no STF ainda aguarda conclusão definitiva. Até que haja uma decisão final da Corte ou a aprovação do projeto pelo Congresso, continuam valendo as regras atualmente previstas na Reforma da Previdência para os casos abrangidos pela legislação em vigor.

Para os segurados que trabalham em atividades especiais, acompanhar tanto a evolução do projeto quanto os desdobramentos no Supremo será fundamental, já que qualquer alteração poderá impactar diretamente os requisitos exigidos para futuras aposentadorias.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.