Sem rios permanentes e praticamente sem lagos de água doce, a Arábia Saudita decidiu investir em uma solução de engenharia que desafia as condições naturais do país. O reino construiu uma gigantesca rede subterrânea de transporte de água, com mais de 14 mil quilômetros de tubulações, capaz de levar água dessalinizada e água do mar por milhares de quilômetros até cidades, indústrias e áreas agrícolas. O sistema faz parte de uma estratégia nacional para garantir segurança hídrica em um dos territórios mais secos do mundo.
A iniciativa integra um conjunto de projetos bilionários que inclui algumas das maiores usinas de dessalinização do planeta, centenas de barragens, reservatórios estratégicos e um ambicioso programa ambiental que pretende recuperar áreas degradadas e plantar 10 bilhões de árvores nas próximas décadas.
Embora seja frequentemente comparado a um “rio invisível”, o sistema não corresponde a um rio artificial aberto. Trata-se de uma complexa malha de tubulações enterradas que percorre o território saudita, conectando usinas, reservatórios e centros urbanos para garantir o abastecimento contínuo de água.
Um país sem rios precisou reinventar sua forma de obter água
A Arábia Saudita ocupa cerca de 80% da Península Arábica e é formada, em sua maior parte, por regiões desérticas. O clima extremamente seco faz com que a evaporação seja intensa e as chuvas ocorram de forma esporádica.
Durante décadas, o abastecimento da população dependeu principalmente de aquíferos subterrâneos conhecidos como águas fósseis, acumuladas ao longo de milhares ou milhões de anos, quando a região possuía um clima muito mais úmido.
O problema é que esses reservatórios praticamente não são recarregados pela chuva nas mesmas proporções em que são consumidos.
Segundo especialistas e autoridades sauditas, a necessidade de reduzir a dependência dessas reservas impulsionou investimentos maciços em dessalinização e infraestrutura hídrica, considerados estratégicos para o futuro do país.
A engenharia que faz a água atravessar o deserto
Em vez de transportar água por canais abertos, o país optou por enterrá-la.
As tubulações subterrâneas reduzem perdas por evaporação, protegem a água contra contaminações e permitem que ela percorra grandes distâncias sob temperaturas que frequentemente ultrapassam 50°C.
Segundo a Saudi Water Authority, a rede nacional de transmissão de água já supera 14.200 quilômetros, tornando-se uma das maiores do mundo. Ela movimenta diariamente milhões de metros cúbicos de água entre as regiões costeiras e o interior do país.
Para alcançar cidades como Riad, a infraestrutura atravessa cadeias montanhosas, áreas rochosas e extensas regiões desérticas, exigindo túneis, estações de bombeamento e reservatórios de grande porte.
Transformar água do mar em água potável virou prioridade nacional
O coração desse sistema está nas usinas de dessalinização.
A Arábia Saudita tornou-se o maior produtor mundial de água dessalinizada, utilizando principalmente tecnologias de osmose reversa e destilação térmica para retirar o sal da água captada no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico.
Entre os maiores empreendimentos está a usina de Ras Al-Khair, inaugurada em 2014.
Segundo a Saudi Water Authority e a Saudipedia, a instalação entrou para o Guinness World Records por sua enorme capacidade de produção e abastece tanto a região leste quanto a capital saudita por meio de extensos sistemas de transmissão.
Nos últimos anos, o país também passou a ampliar o uso de plantas baseadas em osmose reversa, tecnologia considerada mais eficiente do ponto de vista energético quando comparada aos métodos térmicos tradicionais.
Um projeto que vai além do abastecimento urbano
A infraestrutura hídrica não foi planejada apenas para fornecer água às cidades.
Ela também sustenta projetos agrícolas, polos industriais, novas cidades planejadas e iniciativas ambientais inseridas na Saudi Green Initiative, programa lançado para ampliar áreas verdes, combater a desertificação e reduzir emissões de carbono.
A meta oficial prevê o plantio de 10 bilhões de árvores dentro do território saudita, além da recuperação de extensas áreas degradadas e da ampliação das regiões protegidas.
Especialistas apontam que a vegetação pode contribuir para reduzir a erosão do solo, melhorar a qualidade do ar e amenizar temperaturas locais, embora o sucesso dessas iniciativas dependa da disponibilidade contínua de água e de técnicas adaptadas às condições climáticas do deserto.
As barragens também fazem parte da estratégia
Apesar de as chuvas serem raras, quando elas ocorrem costumam provocar enxurradas intensas em leitos normalmente secos, conhecidos como wadis.
Para evitar que essa água seja perdida rapidamente, o país investiu na construção de centenas de barragens destinadas ao armazenamento temporário e ao reforço das reservas estratégicas.
Essas estruturas funcionam como complemento ao sistema de dessalinização e ajudam a aumentar a segurança hídrica em períodos de maior demanda.
O custo ambiental ainda gera debates
Embora seja referência mundial em dessalinização, a estratégia saudita também desperta questionamentos.
Produzir água potável a partir da água do mar exige elevado consumo de energia e gera um subproduto conhecido como salmoura, solução altamente concentrada em sais que precisa ser descartada de maneira controlada para reduzir impactos sobre os ecossistemas marinhos.
Nos últimos anos, a Arábia Saudita passou a investir em tecnologias mais eficientes e em projetos associados a fontes renováveis para diminuir o consumo energético das plantas de dessalinização, alinhando essas iniciativas às metas da Visão 2030 do país.
Uma infraestrutura que pode servir de modelo para outras regiões
A expansão da população, as mudanças climáticas e o aumento da demanda por água vêm levando diversos países a investir em novas tecnologias de abastecimento.
Embora poucas nações tenham condições de reproduzir um projeto da mesma escala, especialistas consideram que a experiência saudita demonstra como infraestrutura, dessalinização, reutilização de água e planejamento de longo prazo podem ampliar a segurança hídrica em regiões sujeitas à escassez.
Ao mesmo tempo, os custos financeiros, energéticos e ambientais continuam sendo fatores centrais na discussão sobre a viabilidade desse tipo de solução em larga escala.
Especialista explica como funciona o ‘rio invisível’
O vídeo publicado no canal TecnoLab360 detalha como a Arábia Saudita transformou um dos ambientes mais áridos do planeta em um laboratório de engenharia hídrica. Segundo ele, o conjunto de tubulações subterrâneas, usinas de dessalinização, barragens e reservatórios forma uma verdadeira rede fluvial invisível que mantém cidades inteiras abastecidas.
“Quando você olha o mapa, parece impossível. Mas, por baixo da areia, existe uma infraestrutura gigantesca levando água por milhares de quilômetros”, explica durante a apresentação.
