Cada vez mais empresas brasileiras estão transferindo parte de sua produção para o Paraguai em busca de custos menores, menos burocracia e uma carga tributária mais simples. Segundo análise do especialista em finanças Bruno Perini, apresentada no canal Você MAIS Rico, o movimento ganhou força na última década e já envolve centenas de indústrias, incluindo grandes grupos nacionais que passaram a investir no país vizinho.
De acordo com Perini, o número de empresas brasileiras instaladas no Paraguai saltou de cerca de 40 em 2015 para mais de 200 atualmente, crescimento próximo de 400%. Para ele, essa mudança deixou de ser uma estratégia voltada apenas à exportação e passou a fazer parte do planejamento industrial de companhias que buscam produzir com maior competitividade.
“Empresas brasileiras passaram a olhar para fora do país não apenas para vender, pensando em mercado consumidor, mas também para produzir. Isso são fábricas, empregos e bilhões de reais de investimentos que começaram a atravessar a fronteira”, afirmou.
Paraguai deixou de ser apenas destino de compras
Durante muitos anos, o Paraguai ficou conhecido entre os brasileiros principalmente pelo comércio de eletrônicos e produtos importados. Segundo Bruno Perini, essa imagem mudou enquanto o país promovia reformas para atrair investimentos industriais.
Na avaliação do especialista, o governo paraguaio apostou em um ambiente regulatório mais simples, redução da carga tributária e maior previsibilidade para empresas estrangeiras.
Esse cenário fez com que grupos brasileiros ampliassem ou estudassem operações no país. Entre os exemplos citados por Perini estão empresas como Lupo e JBS, além de companhias que avaliam investimentos, como Cacau Show, Bauducco e Ajinomoto.
Sistema tributário simplificado virou diferencial
Um dos principais fatores apontados pelo especialista é o chamado “Triplo 10”, modelo tributário adotado pelo Paraguai.
Segundo Perini, o sistema reúne três alíquotas de 10%: Imposto sobre Valor Agregado (IVA), Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e Imposto de Renda das Empresas (IRPJ).
Na comparação feita pelo analista, empresas brasileiras convivem com uma estrutura tributária significativamente mais complexa, envolvendo tributos federais, estaduais e municipais.
“Enquanto o Paraguai oferece um modelo simples e que já está funcionando e consolidado há décadas, o Brasil ainda vai passar por um ajuste por um novo sistema e por adaptações que nós não sabemos como serão.”
Para Perini, a incerteza sobre a implementação da reforma tributária brasileira também pesa na decisão de investidores que buscam previsibilidade para projetos de longo prazo.
Lei de Maquila reduz custos para quem exporta
Outro ponto destacado pelo especialista é a Lei de Maquila, criada pelo Paraguai para incentivar empresas voltadas à exportação.
Nesse regime, companhias podem importar máquinas, equipamentos e matérias-primas sem tarifas de importação. Depois da industrialização, pagam apenas um imposto de 1% sobre o valor agregado do produto exportado.
Segundo Bruno Perini, aproximadamente 64% da produção realizada nesse regime tem como destino o mercado brasileiro.
Ele afirma que essa diferença pode reduzir significativamente o custo de fabricação de diversos produtos.
“Produtos que poderiam estar sendo fabricados por trabalhadores brasileiros em fábricas brasileiras, gerando impostos para o Brasil, estão sendo produzidos do outro lado da fronteira.”
Energia e mão de obra aumentam competitividade
Além da questão tributária, Perini destaca que dois fatores operacionais ajudam a explicar o crescimento industrial do Paraguai: energia elétrica e custo trabalhista.
Segundo o especialista, a tarifa de energia para a indústria no país vizinho é aproximadamente um terço da praticada no Brasil, resultado da disponibilidade de geração elétrica ligada à usina de Itaipu.
No mercado de trabalho, ele afirma que os encargos sobre a folha de pagamento também são menores, reduzindo o custo de contratação para empresas instaladas no país.
Na avaliação de Perini, essa combinação acaba favorecendo principalmente setores intensivos em mão de obra e consumo de energia, como confecções, metalurgia e indústria de transformação.
Cidade do Leste mudou de perfil econômico
O avanço das indústrias também alterou a dinâmica econômica da fronteira.
Segundo os dados apresentados por Bruno Perini, Cidade do Leste deixou de depender exclusivamente do comércio voltado aos turistas brasileiros e passou a concentrar centros de distribuição, galpões logísticos e unidades fabris.
Ele destaca ainda que milhares de brasileiros trabalham atualmente na região, realizando diariamente o deslocamento entre os dois países.
Impacto vai além da arrecadação
Para Bruno Perini, a migração de empresas representa uma perda que vai além da redução de impostos arrecadados pelo Brasil.
Segundo ele, quando uma indústria transfere sua produção para outro país, também leva empregos, investimentos, conhecimento técnico e novas oportunidades de desenvolvimento regional.
“Quando uma fábrica vai para o Paraguai, a gente está perdendo emprego, investimento e oportunidades que poderiam estar sendo construídas aqui dentro do nosso país.”
Na visão do especialista, o crescimento industrial do Paraguai não ocorreu porque o país se tornou uma potência econômica de forma repentina, mas porque conseguiu oferecer um ambiente de negócios considerado mais simples e previsível para investidores.
Vídeo detalha por que empresas estão cruzando a fronteira
Em vídeo publicado no canal Você MAIS Rico (veja abaixo), Bruno Perini analisa os fatores que vêm impulsionando a instalação de empresas brasileiras no Paraguai. Ao longo da apresentação, o especialista explica como funcionam o sistema tributário local, a Lei de Maquila, os custos de energia e mão de obra, além dos impactos econômicos que esse movimento pode gerar para a indústria brasileira nos próximos anos.
