Fim do ar-condicionado? Conheça a tecnologia da China que resfria bairros inteiros e combate o calor extremo

Estrategistas e engenheiros chineses trocam aparelhos individuais por sistemas de névoa, "redes de frio" subterrâneas e arquitetura milenar para baixar a temperatura de cidades onde o asfalto chega a 60ºC.

Adeus ao ar-condicionado em cada prédio? China aposta em túneis subterrâneos, névoa inteligente e materiais que refletem o Sol para resfriar bairros inteiros durante ondas de calor

Enquanto cidades de diferentes países enfrentam temperaturas cada vez mais altas instalando milhões de aparelhos de ar-condicionado, a China vem adotando uma estratégia diferente para enfrentar o calor extremo. Em vez de ampliar apenas a refrigeração dentro de casas e escritórios, projetos urbanos em diversas cidades chinesas estão investindo em tecnologias capazes de reduzir a temperatura de bairros inteiros, atacando diretamente o fenômeno conhecido como “ilha de calor urbana”.

A combinação reúne sistemas de resfriamento distrital, pavimentos que absorvem menos calor, fachadas refletivas, arquitetura bioclimática e equipamentos que lançam névoa ultrafina em áreas públicas. O objetivo é diminuir o calor nas ruas, reduzir o consumo de energia e tornar os grandes centros urbanos mais preparados para enfrentar verões cada vez mais intensos.

O calor nas cidades virou um problema de engenharia urbana

Nos últimos anos, as ondas de calor passaram a desafiar governos em diversas partes do mundo. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), eventos extremos de temperatura têm se tornado mais frequentes e intensos em razão das mudanças climáticas.

Nas grandes cidades, esse problema é agravado pelo chamado efeito de ilha de calor urbana. Superfícies como asfalto, concreto e vidro absorvem grande quantidade de energia solar ao longo do dia e liberam esse calor lentamente durante a noite, fazendo com que áreas urbanas permaneçam significativamente mais quentes do que regiões vizinhas.

Em vídeo publicado pelo canal NeoExtremo, a análise destaca que esse cenário cria um ciclo difícil de interromper.

“Quanto mais calor faz, mais aparelhos de ar-condicionado são ligados. Quanto mais aparelhos funcionam, mais calor é lançado para o ambiente externo”, explica a reportagem do canal.

Segundo a análise, em metrópoles com dezenas de milhões de habitantes, esse efeito passa a influenciar diretamente o clima urbano e aumenta a demanda por energia elétrica.

Névoa inteligente reduz sensação térmica sem molhar pedestres

Uma das soluções que mais chama a atenção está presente em praças, parques e áreas comerciais de algumas cidades chinesas.

São sistemas capazes de lançar uma névoa extremamente fina sobre o ambiente.

À primeira vista, parece apenas vapor d’água. No entanto, a engenharia por trás da tecnologia utiliza gotas microscópicas que evaporam rapidamente antes mesmo de alcançar o solo.

Durante esse processo ocorre o chamado resfriamento evaporativo: a água absorve calor do ambiente ao mudar do estado líquido para o gasoso, reduzindo a temperatura local.

Segundo o NeoExtremo, o efeito é semelhante ao de caminhar por uma área sombreada, embora a pessoa permaneça em ambiente aberto.

“A sensação é semelhante a caminhar por uma sombra muito mais fresca mesmo estando ao ar livre”, explica o vídeo.

Além do conforto térmico, o sistema busca reduzir a temperatura em áreas com grande circulação de pedestres durante períodos de calor intenso.

A maior inovação está escondida no subsolo

Embora os sistemas de névoa sejam mais visíveis, a principal transformação acontece abaixo das ruas.

Algumas cidades chinesas passaram a investir no chamado resfriamento distrital, tecnologia já utilizada em diferentes países, mas que vem sendo expandida em larga escala na China.

Nesse modelo, uma única central produz água gelada continuamente.

Essa água circula por uma extensa rede subterrânea de tubulações e chega aos edifícios para retirar o calor dos ambientes internos. Depois, retorna à central para ser resfriada novamente, formando um circuito fechado.

Segundo o NeoExtremo, uma única instalação pode atender dezenas de edifícios comerciais simultaneamente.

“É praticamente uma rede de abastecimento de água, só que transportando frio”, resume a análise.

Além de reduzir o número de equipamentos individuais instalados em cada prédio, o sistema tende a melhorar a eficiência energética e simplificar a manutenção.

Materiais especiais evitam que as cidades absorvam tanto calor

Outra frente importante envolve a própria construção das cidades.

Pesquisadores vêm desenvolvendo revestimentos capazes de refletir uma parcela maior da radiação solar, impedindo que telhados, fachadas e pavimentos atinjam temperaturas tão elevadas.

Entre as soluções estão tintas refletivas, coberturas de alta refletância e pavimentos conhecidos como “cool pavements”, desenvolvidos para absorver menos calor durante o dia.

Estudos publicados por universidades e laboratórios internacionais mostram que esses materiais podem reduzir significativamente a temperatura superficial de edifícios e vias públicas, contribuindo para diminuir o efeito de ilha de calor quando aplicados em larga escala.

Arquitetura tradicional inspira soluções modernas

Nem toda inovação depende de equipamentos sofisticados.

Arquitetos chineses também voltaram a utilizar conceitos presentes em construções tradicionais erguidas há centenas de anos.

Pátios internos, corredores de vento, grandes aberturas e sistemas de ventilação cruzada passaram a integrar novos projetos urbanos.

Essas soluções favorecem a circulação natural do ar, permitindo que o ar quente suba e seja substituído por correntes mais frescas sem consumo adicional de energia.

Embora não eliminem completamente a necessidade de ar-condicionado em dias extremamente quentes, ajudam a reduzir significativamente sua utilização.

Economia de energia também faz parte da estratégia

Além do conforto térmico, reduzir o consumo de eletricidade tornou-se uma prioridade.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a refrigeração de ambientes representa uma parcela crescente da demanda mundial por energia elétrica, tendência que deve se intensificar nas próximas décadas com o aumento das temperaturas globais.

Sistemas centralizados de resfriamento, materiais refletivos e projetos arquitetônicos mais eficientes podem diminuir o consumo energético dos edifícios, reduzir emissões associadas à geração de eletricidade e aliviar a sobrecarga das redes elétricas durante períodos de calor extremo.

Brasil também enfrenta desafios semelhantes

O fenômeno das ilhas de calor não é exclusivo da China.

Grandes cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, registram diferenças de vários graus entre áreas densamente urbanizadas e regiões com maior cobertura vegetal.

Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras e pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que fatores como impermeabilização do solo, redução de áreas verdes e expansão urbana intensificam esse efeito, tornando os períodos de calor mais desconfortáveis.

Especialistas defendem que iniciativas como arborização urbana, telhados verdes, pavimentos de maior refletância e planejamento climático podem contribuir para reduzir esses impactos também no Brasil.

O conceito de resfriamento distrital utilizado em parte dos projetos chineses não surgiu recentemente. Países como Suécia, Dinamarca, Canadá, Emirados Árabes Unidos e Singapura já utilizam sistemas semelhantes em hospitais, universidades, aeroportos e grandes complexos comerciais há vários anos. A diferença é que a China vem ampliando esse modelo para atender regiões urbanas cada vez maiores, integrando-o a outras estratégias de adaptação climática.

Outro aspecto importante é que especialistas em planejamento urbano defendem uma combinação de soluções, e não uma tecnologia única. A redução das ilhas de calor costuma envolver arborização, ampliação de áreas permeáveis, uso de materiais refletivos, melhoria da ventilação entre edifícios, preservação de corredores verdes e sistemas inteligentes de climatização. Quanto maior a integração dessas medidas, maiores tendem a ser os ganhos em conforto térmico e eficiência energética.

Vídeo apresenta tecnologias que podem transformar o futuro das cidades

Em vídeo publicado no canal NeoExtremo, os apresentadores detalham como funcionam os sistemas de névoa inteligente, as redes subterrâneas de resfriamento distrital, os novos materiais refletivos e as soluções inspiradas na arquitetura tradicional chinesa.

A análise mostra como essas tecnologias vêm sendo utilizadas para enfrentar o aumento das temperaturas nas grandes cidades e discute de que forma elas poderão influenciar o planejamento urbano em outras regiões do mundo nas próximas décadas.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.