O percentual de famílias brasileiras com algum tipo de dívida voltou a crescer em julho de 2026 e atingiu o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), iniciada em 2015. O indicador chegou a 82%, marcando o sexto avanço mensal consecutivo e reforçando o cenário de pressão sobre o orçamento doméstico em meio aos juros elevados e ao encarecimento do crédito.
Os números fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), levantamento mensal realizado pela CNC e acompanhado por economistas, instituições financeiras e formuladores de políticas públicas para medir a saúde financeira das famílias brasileiras. Embora o endividamento não signifique necessariamente inadimplência, a pesquisa mostra que o crescimento das dívidas vem sendo acompanhado pelo aumento dos atrasos nos pagamentos e da dificuldade para quitar compromissos financeiros.
Em entrevista ao programa #NewsNoite, do SBT News, o economista Roberto Luiz Troster, doutor pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que uma das medidas mais rápidas para aliviar o peso do crédito seria retirar a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Segundo Troster, o imposto acabou perdendo a função econômica que possuía décadas atrás e hoje amplia o custo justamente para quem já enfrenta dificuldades financeiras.
“Você pega uma pessoa que já está enforcada e o governo aperta um pouquinho mais o pescoço dela. Isso fazia sentido quando o Brasil vivia inflação muito alta, antes do Plano Real. Hoje não faz mais sentido”, afirmou durante a entrevista.
Pesquisa mostra crescimento contínuo do endividamento em 2026
Os dados da CNC revelam uma escalada ao longo do ano. Em janeiro, 79,5% das famílias declaravam possuir algum tipo de dívida. O percentual passou para 80,4% em abril e alcançou 82% em julho, estabelecendo um novo recorde da série histórica.
A pesquisa faz uma distinção importante entre endividamento e inadimplência. Estar endividado significa possuir prestações, financiamentos ou compras parceladas em andamento, situação considerada comum em economias modernas. O problema surge quando a renda deixa de acompanhar essas obrigações financeiras.
Nesse aspecto, os indicadores também mostram deterioração. As famílias com contas em atraso passaram de 29,3% em janeiro para 29,8% em julho. Já aquelas que afirmam não ter condições de pagar suas dívidas permaneceram em um patamar elevado, alcançando 12,3% no último levantamento.
Outro dado que ajuda a dimensionar o problema é o número de consumidores negativados. Informações divulgadas por birôs de crédito mostram que o Brasil já ultrapassou a marca de 80 milhões de pessoas com restrições no nome, um dos maiores contingentes já registrados.
Cartão de crédito continua sendo o principal responsável pelas dívidas
O cartão de crédito permanece como a principal modalidade de endividamento das famílias brasileiras.
Segundo a pesquisa da CNC, ele aparece em 85% dos casos de famílias endividadas. Em seguida surgem os carnês de lojas, com 16,1%, o crédito pessoal, com 13%, o financiamento imobiliário, com 9,6%, e o financiamento de veículos, com 9%.
Para Roberto Troster, o problema não é recorrer ao crédito, mas pagar juros excessivamente elevados por ele.
“Dever bem é bom. Se você compra um imóvel financiado e paga uma prestação menor do que pagaria de aluguel, no final você construiu patrimônio. Esse é um bom empréstimo”, explicou o economista.
Ele ressalta, porém, que a realidade brasileira tem sido marcada pelo chamado crédito caro. “Quando você encontra cartão de crédito cobrando 300%, 400%, 500% ou até 600% ao ano, essa dívida cresce muito rapidamente e acaba ficando impagável”, observou.
Além dos impactos financeiros, Troster destacou que o excesso de endividamento provoca efeitos sociais relevantes, como estresse constante, perda de qualidade de vida e dificuldades para o planejamento familiar.
Economista diz que IOF agrava situação de quem renegocia dívidas
Durante a entrevista, Troster concentrou boa parte de sua análise na incidência do IOF sobre operações de crédito.
O Imposto sobre Operações Financeiras é um tributo federal cobrado em diversas operações financeiras, como empréstimos, financiamentos, uso de crédito por empresas, câmbio, seguros e investimentos. Nas operações de crédito para pessoas físicas, o imposto possui uma parcela fixa acrescida de uma cobrança diária limitada pela legislação.
Segundo o economista, o problema ocorre porque renegociações de dívidas costumam ser enquadradas como novas operações de crédito, fazendo com que haja nova incidência do imposto.
“Quem atrasou o cartão de crédito, renegociou a dívida e não tem outra alternativa acaba pagando novamente imposto sobre uma situação que já é difícil”, afirmou.
Na avaliação dele, retirar essa cobrança teria efeito imediato sobre o custo final do crédito para milhões de consumidores.
Programa Desenrola é considerado insuficiente diante do tamanho do problema
Questionado sobre iniciativas do governo para reduzir a inadimplência, como o Programa Desenrola Brasil, Roberto Troster avaliou que os resultados ficaram abaixo do esperado.
Segundo ele, apesar de milhões de renegociações anunciadas durante a execução do programa, os indicadores gerais de inadimplência permaneceram elevados.
“O impacto foi muito pequeno perto do tamanho do problema. O número de negativados praticamente não mudou”, disse.
Criado pelo governo federal, o Desenrola Brasil permitiu renegociações de dívidas com descontos e condições especiais para pessoas físicas, utilizando garantias do Tesouro Nacional em parte das operações. Especialistas, porém, observam que programas desse tipo aliviam passivos existentes, mas não resolvem fatores estruturais como juros elevados, renda insuficiente e custo do crédito.
Tributação poderia ser invertida, defende economista
Como alternativa, Troster propôs uma mudança na lógica tributária brasileira.
Na visão dele, faria mais sentido reduzir ou eliminar o IOF incidente sobre operações de crédito e concentrar maior tributação sobre aplicações financeiras.
“Cobrar um pouco mais de imposto de quem possui patrimônio financeiro e deixar de cobrar justamente de quem está tentando reorganizar a vida financeira seria uma lógica mais eficiente”, argumentou.
Ele também criticou a diferença existente entre grandes empresas e consumidores comuns.
Segundo o economista, grandes companhias conseguem captar recursos diretamente no mercado de capitais pagando taxas menores e, em muitos casos, sem incidência de IOF. Já pequenas empresas e pessoas físicas acabam recorrendo ao sistema bancário tradicional, onde enfrentam juros significativamente superiores.
Juros elevados continuam limitando consumo e crescimento econômico
A discussão sobre o endividamento ocorre em um momento em que o custo do crédito permanece elevado no país.
Economistas costumam destacar que taxas básicas de juros mais altas são utilizadas pelo Banco Central para controlar a inflação, mas acabam tornando empréstimos, financiamentos e crédito rotativo mais caros para consumidores e empresas.
Para Troster, quando uma parcela crescente das famílias compromete grande parte da renda com dívidas, sobra menos espaço para consumo, o que reduz a atividade econômica.
“Se as famílias estão muito endividadas, elas compram menos. Quando isso acontece em larga escala, a economia perde força”, afirmou.
Durante a entrevista, ele citou que diversos economistas vêm alertando para o risco de desaceleração da atividade caso o consumo continue enfraquecendo.
Reforma tributária, Previdência e burocracia também entram no debate
Embora tenha defendido medidas emergenciais para aliviar o custo do crédito, Roberto Troster afirmou que o país precisa avançar em reformas estruturais para aumentar sua competitividade.
Entre os temas mencionados estão mudanças no Imposto de Renda, revisão da eficiência dos gastos públicos, discussão sobre o financiamento do ensino superior para famílias de maior renda e redução da burocracia enfrentada pelas empresas.
Nesse ponto, ele lembrou estudos internacionais que historicamente colocam o Brasil entre os países com maior complexidade regulatória para abertura, operação e cumprimento de obrigações empresariais.
Segundo o economista, reduzir custos administrativos também contribui para aumentar investimentos, produtividade e geração de empregos.
Especialista defende foco permanente no crescimento econômico
Ao encerrar a entrevista concedida ao SBT News, Roberto Troster comparou a economia a uma equipe de futebol.
Na avaliação dele, além de boas políticas públicas, o país precisa desenvolver uma estratégia contínua voltada ao crescimento econômico e à inclusão social.
“O que diferencia países que cresceram muito nas últimas décadas é que existe uma decisão coletiva de fazer a economia avançar. É acordar todos os dias pensando em como o país pode produzir mais, investir mais e gerar oportunidades para mais pessoas”, concluiu.
Vídeo detalha argumentos apresentados pelo economista
Em vídeo publicado no canal oficial do SBT News, Roberto Troster explica de forma detalhada como o aumento do endividamento das famílias está relacionado ao custo do crédito, à incidência do IOF e aos juros praticados no mercado brasileiro.
Durante a entrevista, o economista também comenta alternativas para reduzir a inadimplência, avalia os resultados do Desenrola Brasil e apresenta sua visão sobre reformas consideradas prioritárias para estimular o crescimento econômico.
