Ele teve quase R$ 25 mil em faturamento, 3 anos de espera e apenas R$ 6,1 mil de saldo antes da mão de obra: a conta real de uma lavoura com 1.500 pés de café e quando o lucro finalmente começa a aparecer

A cafeicultura continua despertando o interesse de milhares de produtores rurais, impulsionada pelos preços elevados registrados nos últimos anos. Mas quanto realmente custa implantar uma pequena lavoura? E em quanto tempo o investimento começa a gerar lucro? Essas perguntas motivaram o produtor rural Gleyson, responsável pelo canal Gleyson – Café Estrutural, a abrir todas as contas de sua propriedade e mostrar, sem esconder os números, quanto gastou e quanto faturou com uma plantação de 1.500 pés de café da variedade Arara.

No vídeo em seu canal, o cafeicultor faz um alerta para quem pretende entrar na atividade. Apesar do faturamento acumulado superar R$ 24 mil ao longo dos três primeiros anos, ele explica que boa parte desse valor apenas compensou os investimentos realizados e o trabalho da própria família. Na avaliação do produtor, o lucro consistente começa apenas quando a lavoura atinge maior maturidade produtiva.

“Esse vídeo aqui é um vídeo da vida real. Tem muitos vídeos na internet incentivando o pessoal a plantar café, mas a vida real é um relato da nossa história na roça”, afirma Gleyson.

O primeiro ano exige investimento e praticamente não gera receita

Assim como ocorre na maior parte das culturas perenes, o café demanda investimento antes de oferecer retorno financeiro.

Segundo Gleyson, apenas para implantar os 1.500 pés, realizar o plantio e executar os primeiros tratos culturais, foram necessários aproximadamente R$ 10.500 durante o primeiro ano.

Grande parte dos serviços foi executada pela própria família.

“Lembrando que a maioria do serviço aqui é nós que fazemos: capinar, roçar, adubar, pulverizar. Tudo nós que fazemos.”

Essa característica reduz o desembolso imediato, mas, como o próprio produtor ressalta, não significa que a mão de obra deixe de ter valor econômico.

Os custos aumentam conforme o cafezal cresce

Uma percepção comum entre produtores iniciantes é imaginar que os maiores gastos acontecem apenas no plantio.

Na prática, segundo o relato apresentado, o consumo de adubos, corretivos e defensivos aumenta conforme as plantas se desenvolvem.

No segundo ano, o custo de manutenção subiu para cerca de R$ 2.500.

Já no terceiro ano, os investimentos chegaram aproximadamente a R$ 3.200, impulsionados pelo aumento das adubações e do manejo nutricional.

Somando os três primeiros anos, o investimento direto alcançou aproximadamente R$ 18.200, sem contabilizar o trabalho executado pelos próprios proprietários.

A produção cresce lentamente

Outro ponto destacado pelo cafeicultor é que a produtividade do café evolui gradualmente.

No primeiro ano praticamente não houve colheita comercial.

Segundo Gleyson, os poucos frutos produzidos foram deixados como incentivo para um colaborador da propriedade.

“A gente não conseguiu tirar nenhum dinheiro nela com um ano.”

No segundo ciclo produtivo, a lavoura rendeu cerca de três sacas.

Já no terceiro ano, a produção saltou para aproximadamente 12 sacas, demonstrando o avanço natural do cafezal conforme as plantas atingem maior maturidade.

O faturamento aumentou, mas isso não significa lucro

Considerando os preços praticados em cada período, Gleyson calcula que faturou aproximadamente R$ 6.300 no segundo ano e cerca de R$ 18 mil no terceiro.

O faturamento bruto acumulado chegou, portanto, a aproximadamente R$ 24.300.

Ao descontar os R$ 18.200 investidos diretamente na lavoura, o saldo restante ficou próximo de R$ 6.100.

No entanto, o produtor faz questão de explicar que esse valor não representa lucro líquido.

“Para nós, até o momento, essa lavoura não deu lucro. Ela se pagou e pagou o serviço que a gente fez nela.”

Segundo ele, se fossem contabilizadas todas as horas trabalhadas pela família ao longo dos três anos, praticamente todo esse saldo seria consumido.

A variedade Arara exige manejo mais intenso

Durante o vídeo, Gleyson também comenta os desafios encontrados com a variedade Arara, bastante conhecida pela qualidade dos grãos e pelo bom potencial produtivo.

Segundo ele, o principal erro cometido pela família foi iniciar o cultivo sem conhecer profundamente as necessidades específicas da cultivar.

“O Arara, ele é muito exigente. Foi o que a gente errou um pouco no início.”

Ele explica que a variedade demanda maior atenção com fertilização, aplicação de produtos foliares e monitoramento constante da sanidade da lavoura.

Clima e doenças também influenciaram os resultados

Além do manejo nutricional, fatores climáticos reduziram parte da produtividade.

O produtor relata que enfrentou um período de seca durante 2023 e também dificuldades para identificar rapidamente doenças que provocaram intensa desfolha das plantas.

Segundo ele, essas situações atrasaram o desenvolvimento da lavoura e afetaram diretamente o volume produzido.

Esse cenário ilustra um dos principais riscos da cafeicultura brasileira.

Mesmo propriedades tecnicamente bem conduzidas continuam sujeitas aos efeitos das condições climáticas, que podem alterar significativamente a produtividade e os custos de produção.

Quando o lucro realmente começa?

Na avaliação de Gleyson, a mudança mais significativa ocorre a partir do quarto ano.

Caso a produção alcance aproximadamente 15 sacas e os preços permaneçam em patamares semelhantes aos utilizados em sua projeção, a receita poderá crescer de forma mais consistente.

Com custos anuais estimados em cerca de R$ 3.500, ele acredita que a lavoura passará a gerar renda efetiva para a família.

“Aí sim ela vai estar dando lucro para nós.”

Segundo o produtor, a expectativa é que esse desempenho permaneça durante vários anos antes da necessidade de podas mais severas para renovação das plantas.

O que dizem os dados oficiais sobre a cafeicultura brasileira?

O Brasil permanece como o maior produtor e exportador mundial de café. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que o país produz dezenas de milhões de sacas por safra, consolidando-se como um dos principais fornecedores globais tanto de café arábica quanto de café conilon.

A produção brasileira de café na safra de 2026 está estimada em 66,7 milhões de sacas de 60 kg.

Além da importância econômica, a atividade movimenta milhares de propriedades familiares espalhadas principalmente por estados como Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia e Rondônia.

Segundo a Conab, fatores como clima, bienalidade da cultura, custos de fertilizantes e condições internacionais de mercado influenciam diretamente a rentabilidade do produtor rural.

Preço elevado não elimina os riscos da atividade

Nos últimos anos, o mercado cafeeiro registrou forte valorização em diferentes momentos, impulsionada por eventos climáticos, redução da oferta mundial e aumento dos custos de produção.

Especialistas lembram, entretanto, que o preço da saca oscila constantemente e não deve ser o único fator considerado por quem pretende investir na atividade.

Antes da implantação de uma lavoura, produtores costumam avaliar fatores como qualidade do solo, disponibilidade de água, altitude, mecanização, custo de implantação, assistência técnica e planejamento financeiro para suportar os primeiros anos sem retorno significativo.

Vídeo mostra os números reais da propriedade

Em vídeo publicado no canal Gleyson – Café Estrutural, o produtor apresenta os custos de implantação da lavoura, detalha a evolução das despesas com adubação e manejo, compara a produção obtida em cada ano e explica por que considera importante divulgar números reais da atividade. Ao longo da gravação, ele reforça que a cafeicultura pode ser rentável, mas exige planejamento, conhecimento técnico e paciência para esperar o desenvolvimento das plantas.

Para quem pretende iniciar no setor, o relato oferece uma perspectiva prática sobre a diferença entre faturamento e lucro, além de mostrar que o retorno financeiro normalmente depende da maturidade da lavoura, da eficiência do manejo e das condições de mercado enfrentadas ao longo de cada safra.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.