O Brasil pode entrar nos próximos meses em uma combinação de mudanças que vão muito além da previsão do tempo. O avanço de um El Niño potencialmente muito forte, a disputa internacional pelas terras raras brasileiras e a velocidade com que inteligência artificial, robótica e computação avançada estão chegando à economia foram alguns dos assuntos abordados pelo divulgador científico Sérgio Sacani, conhecido como Serjão, em vídeo publicado no canal Resumo do Serjão.
A discussão chama atenção porque os temas, embora pareçam separados, têm uma característica em comum: todos envolvem tecnologia, recursos naturais e capacidade de planejamento. E parte das previsões mais preocupantes apresentadas no vídeo já encontra respaldo em documentos de órgãos como INMET, INPE, CEMADEN, NOAA, Ministério de Minas e Energia e Agência Nacional de Mineração.
El Niño de 2026 pode ser muito forte, mas o termo “Super El Niño” exige cautela
Um dos principais alertas apresentados por Sacani envolve o fenômeno El Niño. Segundo o divulgador, o aquecimento do Pacífico pode produzir efeitos relevantes sobre o clima brasileiro, principalmente com maior risco de chuva no Sul e condições mais secas em partes do centro-norte do país.
A previsão oficial confirma que existe motivo para atenção, embora seja necessário evitar transformar uma previsão em certeza. Em junho, INMET, INPE, ANA, CEMADEN, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional divulgaram um boletim conjunto apontando alta probabilidade de permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027 e possibilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão.
A NOAA também indicou, em julho, 81% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre outubro-novembro-dezembro, com possibilidade de o episódio figurar entre os mais intensos registrados desde 1950. A previsão, contudo, continua sendo probabilística e está sujeita a atualizações.

É por isso que a expressão “Super El Niño” usada no debate público precisa ser tratada com cuidado. O que existe hoje é um cenário meteorológico que pode evoluir para um evento de intensidade excepcional, e não uma garantia de que todos os efeitos previstos ocorrerão exatamente da mesma maneira.
O que o El Niño pode fazer no Brasil?
O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Pacífico equatorial ficam anormalmente aquecidas e alteram a circulação atmosférica.
No Brasil, os efeitos históricos mais conhecidos incluem maior tendência de chuva no Sul e períodos mais secos em partes das regiões Norte e Nordeste. O centro do país também pode enfrentar temperaturas elevadas e baixa umidade em determinadas situações.
O CEMADEN avaliou que um El Niño entre 2026 e 2027 pode aumentar o risco de chuvas extremas, deslizamentos e enchentes na Região Sul, enquanto Norte e Nordeste podem sofrer agravamento da seca e maior risco de incêndios. A área central do Brasil também pode registrar ondas de calor mais frequentes.
Isso não significa que cada cidade terá exatamente o mesmo comportamento. O clima regional depende também de outros fatores, incluindo condições dos oceanos Atlântico e Pacífico, sistemas de pressão e circulação atmosférica.
O alerta de Serjão encontra um Brasil muito mais preparado para observar o clima
No vídeo, Sacani destaca que hoje a humanidade possui uma vantagem que não existia em grandes eventos climáticos do passado: satélites, supercomputadores, redes de observação e modelos numéricos conseguem acompanhar o comportamento da atmosfera e dos oceanos praticamente em tempo real.
O Brasil também ampliou sua estrutura de monitoramento. O boletim nacional sobre o El Niño reúne órgãos especializados justamente para acompanhar os possíveis impactos sobre agricultura, rios, reservatórios, enchentes e deslizamentos.
A previsão não elimina o risco, mas aumenta o tempo disponível para preparar cidades, agricultores, empresas e serviços de emergência.
O Saara ajuda a alimentar a Amazônia?
Outro trecho curioso do conteúdo é a relação entre o deserto do Saara e a floresta Amazônica.
A conexão existe e foi estudada por pesquisadores com auxílio de satélites da NASA. A poeira transportada pelo Atlântico carrega nutrientes importantes, incluindo fósforo, que chega à Bacia Amazônica.
Mas há uma diferença importante em relação ao número apresentado na transcrição. A NASA estima que aproximadamente 22 mil toneladas de fósforo por ano provenientes da poeira do Saara chegam à Amazônia — não 22 milhões de toneladas de fosfato. Esse fósforo ajuda a compensar parte dos nutrientes perdidos pelos solos amazônicos por causa das chuvas intensas.
A descoberta é uma demonstração interessante de como sistemas naturais distantes podem estar conectados.
Isso também ajuda a explicar por que grandes alterações ambientais precisam ser analisadas em escala continental ou global, e não apenas dentro das fronteiras de um país.
Terras raras colocam o Brasil no centro da disputa tecnológica
A segunda grande frente discutida por Sacani está ligada à economia.
As chamadas terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados em diferentes aplicações tecnológicas, incluindo eletrônicos, equipamentos de energia, motores, ímãs permanentes e tecnologias relacionadas à transição energética. O Ministério de Minas e Energia explica que a importância desses elementos está justamente em suas propriedades físicas e químicas.
O Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas do planeta.
Dados do Ministério de Minas e Energia e da Agência Nacional de Mineração colocam o país entre os líderes mundiais. O Sumário Mineral 2025 da ANM registrou 11,4 milhões de toneladas de reservas contidas em 2024, enquanto documentos mais recentes do governo utilizam uma estimativa de aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas, dependendo da metodologia e da base considerada.
O ponto mais importante, entretanto, não é apenas quanto minério existe no subsolo.
É o que o Brasil conseguirá fazer com ele.
Ter a reserva não significa dominar a tecnologia
Essa é uma das principais questões econômicas envolvendo as terras raras.
Extrair o minério é apenas uma etapa. Depois vêm concentração, separação dos elementos, refino e fabricação de produtos de maior valor agregado, como ligas e ímãs permanentes.
É justamente nessa cadeia que o Brasil ainda precisa avançar.
O próprio Ministério de Minas e Energia iniciou, em janeiro de 2026, os estudos para construir uma Estratégia Nacional de Terras Raras, com o objetivo de desenvolver uma cadeia nacional articulada às políticas industrial, ambiental, tecnológica e de transição energética.
Em maio, o ministério também visitou o projeto MagBras, em Minas Gerais, voltado ao desenvolvimento de tecnologia nacional para produção de ímãs permanentes de terras raras.
A discussão mostra que o potencial econômico brasileiro não está apenas na exportação do mineral.
Quanto maior for a capacidade de processar e transformar a matéria-prima dentro do país, maior tende a ser o valor agregado associado à cadeia produtiva.
Por que esses minerais interessam tanto à indústria?
Os elementos de terras raras possuem propriedades magnéticas, ópticas e químicas que os tornam úteis em diversos equipamentos.
Eles estão presentes em aplicações relacionadas a motores elétricos, geradores, eletrônicos, sistemas de energia e equipamentos de alta tecnologia.
Isso explica por que o assunto deixou de ser apenas uma questão de mineração e passou a fazer parte da política industrial e da segurança econômica de vários países.
O Brasil, inclusive, está tentando construir uma estratégia própria para o setor. O Serviço Geológico do Brasil informou em 2026 que existem mais de 2,5 mil processos minerários ativos relacionados às terras raras, distribuídos por 22 estados, embora cerca de 2 mil ainda estejam em fases iniciais de desenvolvimento.
Ou seja, existe potencial geológico, mas transformar esse potencial em uma indústria competitiva ainda exige investimento, tecnologia, infraestrutura e planejamento.
A inteligência artificial já está mudando a ciência
O terceiro eixo do vídeo é a inteligência artificial.
Sacani cita o trabalho de Demis Hassabis, cofundador da Google DeepMind, como exemplo de como a IA pode acelerar descobertas científicas.
Hassabis e John Jumper dividiram metade do Nobel de Química de 2024 pelo desenvolvimento do AlphaFold2, sistema de inteligência artificial capaz de prever estruturas de proteínas. A outra metade do prêmio foi concedida a David Baker por seu trabalho em desenho computacional de proteínas.
O avanço é significativo porque proteínas são estruturas fundamentais para o funcionamento dos organismos.
O Nobel destacou que o AlphaFold2 permitiu prever estruturas de praticamente todas as proteínas conhecidas, e a ferramenta já foi utilizada por pesquisadores de diferentes áreas, incluindo desenvolvimento de medicamentos e estudos ambientais.
A mudança, portanto, não está apenas em fazer computadores escreverem textos ou produzirem imagens.
A IA também está sendo usada para resolver problemas científicos que durante décadas pareciam difíceis demais para os métodos tradicionais.
O próximo salto pode envolver robôs que trabalham sem intervenção constante
A mesma lógica aparece na robótica.
No vídeo, Serjão diferencia máquinas controladas remotamente de sistemas realmente autônomos. A distinção é importante porque uma máquina que recebe comandos de uma pessoa não possui o mesmo grau de autonomia de um robô capaz de perceber o ambiente, tomar decisões dentro de parâmetros definidos e executar uma tarefa durante longos períodos.
Esse processo está avançando em áreas como logística, indústria, agricultura, mineração e transporte.
Os impactos econômicos podem ser grandes.
Uma máquina capaz de operar continuamente em determinados ambientes pode aumentar a produtividade e reduzir a exposição de trabalhadores a atividades perigosas ou repetitivas. Por outro lado, também aumenta a necessidade de profissionais capazes de programar, supervisionar, manter e integrar esses equipamentos.
A tecnologia não elimina necessariamente o trabalho humano.
Ela pode mudar qual tipo de trabalho humano será necessário.
E a computação quântica?
Sacani também relaciona a dificuldade de prever sistemas complexos, como o clima, ao avanço da computação.
A ideia é que máquinas mais poderosas possam processar determinados problemas de maneira muito mais eficiente.
A computação quântica, porém, ainda não representa uma solução pronta para a previsão meteorológica perfeita. Sistemas climáticos são extremamente complexos e dependem de uma quantidade gigantesca de variáveis e dados.
Por isso, é mais correto dizer que a computação quântica pode se tornar uma ferramenta importante no futuro, e não que já esteja prestes a entregar uma previsão do tempo completamente precisa.
A corrida espacial voltou a ter uma dimensão econômica
A última parte do vídeo trata da exploração espacial.
A Lua voltou ao centro das estratégias de Estados Unidos e China, enquanto empresas privadas participam cada vez mais da corrida.
O interesse não está apenas em chegar ao satélite natural da Terra. Existe também uma discussão sobre infraestrutura, energia, pesquisa científica e possíveis recursos disponíveis no espaço.
Nesse contexto, a Starship, da SpaceX, é uma das tecnologias acompanhadas de perto pela indústria espacial. O sistema foi projetado para ser reutilizável e transportar cargas e pessoas em missões de grande porte.
Mas algumas afirmações presentes na transcrição precisam ser tratadas como projeções, e não como fatos consumados.
A ideia de uma exploração econômica em larga escala da Lua ainda depende de avanços tecnológicos, regulamentação, custos e segurança.
Hélio-3 é uma promessa, não uma riqueza disponível amanhã
O hélio-3 costuma aparecer nas discussões sobre o futuro da exploração lunar porque é considerado um possível combustível para determinadas propostas de fusão nuclear.
O problema é que a fusão nuclear comercial ainda não está disponível em escala industrial.
Portanto, afirmar que a Lua será em breve uma grande fonte de energia ou minerais seria antecipar uma tecnologia que ainda precisa superar obstáculos científicos e econômicos.
O mesmo vale para a exploração de terras raras fora da Terra.
Existe potencial, mas transformar recurso geológico em atividade econômica exige tecnologia, logística e custos que ainda estão longe de serem triviais.
O ponto central do alerta de Serjão
O vídeo de Sérgio Sacani conecta assuntos que normalmente aparecem separados nas notícias: clima, mineração, inteligência artificial, robótica e espaço.
A ligação está na necessidade de planejamento de longo prazo.
O Brasil pode ter de lidar simultaneamente com impactos climáticos mais difíceis de administrar, uma disputa internacional por minerais estratégicos e uma transformação tecnológica que está alterando a indústria e a ciência.
No caso do clima, os alertas oficiais já estão em andamento. INMET, INPE e CEMADEN acompanham a evolução do El Niño e recomendam monitoramento contínuo.
No caso das terras raras, o governo já trabalha na construção de uma estratégia nacional para transformar reservas geológicas em uma cadeia produtiva mais sofisticada.
E, na ciência, exemplos como o AlphaFold mostram que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa distante e já está produzindo resultados reconhecidos internacionalmente.
Em vídeo publicado no canal Resumo do Serjão, o divulgador reúne esses assuntos e faz justamente essa conexão: o futuro não será determinado por uma única tecnologia ou por um único fenômeno climático, mas pela capacidade dos países de compreender mudanças que acontecem ao mesmo tempo em diferentes áreas.
A frase que melhor resume essa discussão talvez não seja uma previsão sobre a próxima década, mas uma pergunta sobre o presente: o Brasil está preparado para transformar conhecimento científico, recursos naturais e tecnologia em desenvolvimento antes que outras nações avancem mais rapidamente?
Essa é a questão que permanece depois do alerta.
Fontes principais: NOAA/CPC, INMET, INPE, CEMADEN, Agência Nacional de Mineração, Ministério de Minas e Energia, Serviço Geológico do Brasil, NASA e Nobel Prize. As falas atribuídas a Sérgio Sacani foram mantidas com base em sua entrevista no Podcast do Inteligência LTDA; os dados adicionais foram confrontados com fontes oficiais.
