O Brasil participa, ao lado dos Estados Unidos e de outras 17 nações das Américas, do Panamax 26, um dos maiores exercícios militares multinacionais do continente. A edição deste ano ganhou um componente inédito de preocupação geopolítica ao simular ataques com drones, mísseis e ofensivas cibernéticas contra o Canal do Panamá, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta para o comércio internacional.
As manobras ocorrem em um momento de aumento das tensões internacionais e refletem lições observadas em conflitos recentes no Oriente Médio, especialmente os ataques realizados por grupos armados contra embarcações comerciais no Mar Vermelho. Segundo o jornalista especializado em geopolítica e conflitos Luiz Kawaguti, em entrevista ao programa News Primeira Edição, do SBT News, o objetivo é preparar as forças participantes para enfrentar ameaças modernas que podem comprometer o funcionamento de uma infraestrutura essencial para a economia global.
Canal do Panamá movimenta parte importante do comércio mundial
Inaugurado em 1914, o Canal do Panamá transformou a logística marítima internacional ao conectar os oceanos Atlântico e Pacífico sem que os navios precisassem contornar a América do Sul pelo Cabo Horn.
De acordo com a Autoridade do Canal do Panamá (ACP), milhares de embarcações cruzam anualmente a via interoceânica, transportando cargas que abastecem mercados na Ásia, Europa e Américas. A interrupção das operações, mesmo por poucos dias, pode provocar atrasos logísticos, aumento dos custos de transporte e impactos sobre cadeias globais de suprimentos.
A importância econômica da rota ficou evidente em diferentes momentos da história recente, quando problemas em canais estratégicos, como o de Suez, elevaram fretes internacionais e pressionaram preços de mercadorias em diversos países.
Exercício simula ataques inspirados em conflitos recentes
Segundo Luiz Kawaguti, o Panamax 26 foi estruturado para reproduzir cenários semelhantes aos observados nos conflitos do Oriente Médio, onde grupos armados utilizam drones e mísseis contra embarcações comerciais.
“Eles vão simular aqui na América como se rebeldes patrocinados por algum país estivessem tentando fechar o Canal do Panamá e como que eles poderiam fazer isso principalmente com drones e mísseis”, explicou o especialista durante a entrevista.
O jornalista ressalta que a principal preocupação das forças participantes não é apenas uma invasão militar convencional, mas sim ataques assimétricos realizados por grupos conhecidos como proxies, organizações que atuam com apoio direto ou indireto de determinados Estados, sem integrar oficialmente suas forças armadas.
Nos últimos anos, esse tipo de estratégia ganhou destaque em diferentes regiões do mundo, especialmente após ofensivas contra rotas marítimas internacionais que afetaram o transporte de petróleo, alimentos e produtos industrializados.
Defesa cibernética passa a ser prioridade
Além dos ataques físicos, o Panamax 26 dedica parte significativa do treinamento à proteção digital da infraestrutura do Canal do Panamá.
As eclusas, responsáveis por elevar e reduzir o nível da água para permitir a passagem dos navios entre diferentes altitudes, dependem de sistemas eletrônicos altamente integrados.
Segundo Kawaguti, um ataque cibernético bem-sucedido poderia interromper temporariamente o funcionamento dessas estruturas, gerando impactos econômicos muito superiores aos provocados por danos físicos localizados.
“O canal depende de um sistema muito sofisticado de controle. Se alguém conseguir comprometer essa operação digitalmente, o prejuízo para o comércio internacional pode ser enorme”, pontuou o especialista.
A crescente preocupação com ataques digitais acompanha uma tendência observada por organismos internacionais. Relatórios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e de agências especializadas em segurança cibernética apontam que infraestruturas críticas, como portos, aeroportos, redes elétricas e sistemas de abastecimento, tornaram-se alvos prioritários em cenários de conflito híbrido.
Brasil mantém cooperação militar como política de Estado
A participação brasileira ocorre em um contexto de diferenças diplomáticas pontuais entre Brasília e Washington, mas, segundo Kawaguti, isso não interfere na cooperação entre as Forças Armadas dos dois países.
“Existe uma troca constante de experiências. É uma política de Estado que o Brasil participe de exercícios conjuntos com os Estados Unidos”, afirmou.
De acordo com o especialista, esses treinamentos permitem que militares brasileiros aperfeiçoem protocolos de comunicação, interoperabilidade entre Exército, Marinha e Força Aérea, além da coordenação com forças estrangeiras em operações multinacionais.
Essa cooperação também fortalece a capacidade de resposta diante de crises humanitárias, operações de busca e salvamento, missões de paz e situações envolvendo segurança marítima.
Participação brasileira vai além do aspecto militar
Especialistas em relações internacionais costumam destacar que exercícios multinacionais também possuem relevância diplomática.
Além do treinamento operacional, essas iniciativas ampliam o intercâmbio de informações, padronizam procedimentos entre países parceiros e fortalecem mecanismos de confiança mútua, especialmente em temas relacionados à segurança regional.
Segundo Kawaguti, a presença brasileira demonstra que a cooperação militar continua sendo conduzida como política permanente do Estado brasileiro, independentemente das mudanças de governo ou de divergências diplomáticas circunstanciais.
Seis países participam das operações marítimas
Embora o Panamax reúna representantes de 18 países, parte das operações navais conta com embarcações de menor porte, voltadas principalmente para ações rápidas de patrulhamento, defesa costeira e proteção das áreas próximas às eclusas.
Entre os países destacados na entrevista estão Brasil, Panamá, Chile, Colômbia e México, que participam de exercícios voltados ao enfrentamento de drones, sabotagens e possíveis ataques contra instalações estratégicas.
Diferentemente de grandes operações militares voltadas ao combate convencional, o foco do Panamax 26 está na proteção de infraestrutura crítica e na coordenação entre forças multinacionais diante de ameaças consideradas de alta complexidade.
Exercício também envia mensagem estratégica à região
Na avaliação de Luiz Kawaguti, o Panamax 26 possui um significado que ultrapassa o treinamento operacional.
“O que os Estados Unidos estão fazendo é dar um recado para eventuais forças irregulares ou países contrários de que não vão permitir o bloqueio do Canal do Panamá”, afirmou.
Segundo o jornalista, a simulação demonstra a preocupação crescente com a segurança de corredores marítimos estratégicos, tema que ganhou relevância internacional após os recentes ataques contra navios comerciais em diferentes regiões do mundo.
Embora o exercício não identifique oficialmente um país específico como adversário, Kawaguti observa que as simulações refletem desafios enfrentados atualmente pela segurança internacional e procuram preparar as forças participantes para responder a ameaças híbridas envolvendo grupos armados, drones, ataques cibernéticos e tentativas de interrupção de rotas comerciais.
Vídeo detalha os cenários simulados e a participação do Brasil
Durante entrevista ao programa News Primeira Edição, do SBT News, Luiz Kawaguti explicou como o Panamax 26 foi estruturado, comentou as inspirações nos conflitos recentes do Oriente Médio e detalhou o papel desempenhado pelo Brasil nas operações conjuntas.
Ao longo da análise, o especialista também abordou a crescente importância da defesa cibernética, da interoperabilidade entre forças militares e da proteção de infraestruturas estratégicas para garantir o fluxo do comércio internacional, reforçando que exercícios como o Panamax deixaram de focar apenas em confrontos tradicionais e passaram a incluir ameaças tecnológicas e assimétricas que hoje fazem parte do cenário geopolítico global.
