Uma frase dita em tom de desprezo mudou completamente a vida de Rick Chesther. Enquanto trabalhava vendendo água nas praias do Rio de Janeiro, o empreendedor ouviu de um turista que ele era “o retrato da crise” e representava o “subúrbio do subemprego”. Em vez de responder à provocação, decidiu gravar um vídeo mostrando sua visão sobre empreendedorismo, trabalho e iniciativa. O conteúdo, publicado nas redes sociais sem qualquer estratégia de marketing, viralizou em poucas horas e transformou um vendedor ambulante em uma das vozes mais conhecidas do empreendedorismo brasileiro.
O episódio foi relembrado por Rick durante participação no PrimoCast 229, quando contou detalhes do momento que considera um divisor de águas em sua trajetória. Segundo ele, a intenção nunca foi criar um bordão ou alcançar milhões de visualizações. O objetivo era apenas mostrar que era possível começar um negócio mesmo com poucos recursos.
A humilhação que se transformou em combustível para uma nova trajetória
Rick Chesther contou que, naquela época, sua rotina consistia em vender água mineral nas praias cariocas. Apesar da simplicidade do trabalho, ele afirma que vivia com dignidade, conseguia pagar as contas e mantinha um hábito que considera decisivo em sua formação: investir parte do dinheiro em livros.
Durante o podcast, o empreendedor explicou que sempre acreditou em fazer o melhor possível dentro da realidade disponível.
“O Rick faz o que tem no cenário que você tem até que você possa fazer outras coisas”, afirmou.
Essa filosofia, segundo ele, foi construída ao longo de anos de trabalho e leitura. Rick revelou que cultiva o hábito de ler desde 1997 e atribui parte do seu desenvolvimento pessoal ao conhecimento adquirido fora das salas de aula.

“Você é o retrato da crise”: a frase que marcou sua vida
O momento que desencadeou toda a transformação aconteceu durante uma conversa com turistas na praia.
Rick relatou que ouviu um grupo afirmar que o Brasil já não oferecia oportunidades e que pretendia deixar o país. Ao discordar educadamente da avaliação, acabou sendo alvo de uma resposta que, segundo ele, carregava preconceito social.
Conforme relembrou no PrimoCast, um dos turistas respondeu:
“Cara, se coloca no seu lugar. Você é o retrato da crise. Você vende água na praia agora, irmão. Você está no subúrbio do subemprego.”
O empreendedor disse que aquelas palavras não o fizeram desistir. Pelo contrário.
Segundo Rick, o episódio reforçou sua percepção de que muitos brasileiros ainda associam determinadas profissões a uma posição inferior na sociedade.
“Tem gente que acredita que vale mais do que quem está ali servindo”, comentou durante a entrevista, comparando essa postura à forma como algumas pessoas tratam garçons, atendentes e outros profissionais do setor de serviços.
Um celular, uma televisão antiga e uma ideia que mudaria tudo
Depois da discussão, Rick voltou para casa decidido a gravar um vídeo.
Ele contou que morava em uma residência bastante simples e improvisou um suporte utilizando uma antiga televisão de tubo para apoiar o celular.
Na gravação, preferiu não responder diretamente ao turista. Em vez disso, apresentou um raciocínio prático sobre como alguém poderia iniciar uma atividade comercial mesmo dispondo de pouco dinheiro.
Segundo Rick, era possível começar com um pequeno valor, comprar um fardo de água, gelo, vender os produtos, reinvestir o lucro e repetir o processo gradualmente.
Foi nesse vídeo que surgiu uma das frases que mais marcaram sua carreira.
“A crise não está mais no Brasil. A crise está em você.”
A declaração rapidamente começou a circular nas redes sociais e despertou debates sobre empreendedorismo, trabalho informal e iniciativa individual.
Como nasceu o famoso “Pega a Visão”
Hoje associado a livros, palestras e eventos empresariais, o bordão “Pega a Visão” não foi planejado.
Rick explicou que a expressão fazia parte do vocabulário cotidiano das comunidades cariocas onde vivia e surgiu espontaneamente no encerramento do vídeo.
“Falei ‘Pega a Visão’ no automático, sem intenção de criar um bordão. Nem sabia o que era viralizar naquela época”, contou durante o podcast.
A naturalidade da expressão acabou contribuindo para sua identidade pública e, posteriormente, tornou-se uma marca registrada de sua comunicação.
O sucesso chegou enquanto ele continuava trabalhando
Rick também relembrou que, após publicar o vídeo, simplesmente foi dormir.
Naquele período, seu perfil reunia aproximadamente 800 seguidores no Instagram.
Quando acordou, o número já havia ultrapassado 8 mil pessoas.
A reação inicial, segundo ele, foi de surpresa.
“Eu achei que tinha dado algum problema. Nunca tinha visto tanta notificação”, contou.
Mesmo diante da repercussão, decidiu manter sua rotina e voltou normalmente para a praia vender água.
O empreendedorismo informal movimenta milhões de brasileiros
A história de Rick dialoga com uma realidade presente em boa parte do mercado de trabalho brasileiro.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que milhões de trabalhadores atuam na informalidade, seja como vendedores ambulantes, autônomos ou pequenos empreendedores. Em muitos casos, essas atividades representam a principal fonte de renda das famílias e funcionam como porta de entrada para novos negócios.
Já informações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que grande parte dos pequenos empreendedores inicia suas atividades com baixo investimento, utilizando recursos próprios e reinvestindo os primeiros lucros para expandir gradualmente o negócio.
Essa lógica de crescimento progressivo foi justamente uma das ideias centrais apresentadas por Rick no vídeo que o tornou conhecido nacionalmente.
O que explica a força daquele vídeo?
Especialistas em comunicação digital costumam destacar que conteúdos com relatos pessoais autênticos tendem a gerar maior identificação do público.
No caso de Rick Chesther, a mensagem não estava centrada apenas na venda de água ou na crítica recebida, mas na demonstração prática de que era possível começar pequeno.
Além disso, a linguagem simples, o cenário improvisado e a ausência de produção sofisticada contribuíram para transmitir autenticidade, característica frequentemente associada aos conteúdos que alcançam grande repercussão nas redes sociais.
Rick Chesther transformou a história em livros, palestras e projetos
Depois da viralização, Rick passou a ser convidado para palestras em empresas, universidades e eventos de empreendedorismo em diferentes regiões do Brasil.
Também publicou livros e desenvolveu projetos voltados à educação financeira, vendas e desenvolvimento pessoal, ampliando sua atuação para além das redes sociais.
Embora continue utilizando o bordão “Pega a Visão”, ele costuma afirmar que sua principal mensagem permanece a mesma: aproveitar as oportunidades disponíveis antes de esperar pelas condições consideradas ideais.
Vídeo detalha o episódio que mudou sua vida
Durante sua participação no PrimoCast 229, Rick Chesther contou, em detalhes, como ocorreu a discussão na praia, relembrou a humilhação sofrida, explicou por que decidiu gravar aquele vídeo improvisado e revelou que jamais imaginou que a gravação transformaria sua vida.
Na entrevista, o empreendedor também compartilha reflexões sobre preconceito contra trabalhadores informais, disciplina, leitura, vendas e construção de oportunidades, oferecendo um panorama mais amplo da trajetória que o levou do anonimato a se tornar uma das referências brasileiras quando o assunto é empreendedorismo.
O que essa história revela sobre empreendedorismo no Brasil
A trajetória de Rick Chesther também evidencia um aspecto recorrente da economia brasileira: o empreendedorismo por necessidade. Em momentos de dificuldade econômica ou escassez de empregos formais, muitos brasileiros recorrem ao trabalho autônomo para gerar renda. Ao mesmo tempo, casos como o de Rick mostram como a combinação entre iniciativa, comunicação e o alcance das plataformas digitais pode ampliar oportunidades para profissionais que começaram em atividades informais.
Sua história continua sendo citada em debates sobre empreendedorismo, vendas e desenvolvimento pessoal justamente porque nasceu de uma situação comum a milhares de trabalhadores: transformar uma dificuldade em oportunidade e usar a própria experiência como ponto de partida para construir uma nova trajetória.
