Inocência, um município pacato de Mato Grosso do Sul, com pouco mais de 8 mil habitantes, está prestes a mudar completamente de cenário. E não é exagero. A chilena Arauco, uma das maiores empresas do setor florestal e de celulose do mundo, decidiu instalar ali a maior fábrica de celulose do planeta construída em etapa única.
O investimento? Nada menos que US$ 4,6 bilhões — cerca de R$ 25 bilhões. O nome do projeto? Sucuriú, em homenagem ao rio que corta a região. E o impacto promete ser tão grande quanto o valor aplicado.
O que está vindo por aí com o Projeto Sucuriú
O projeto foi anunciado oficialmente em 2025, com direito a cerimônia da pedra fundamental e muitas promessas. A previsão é que a fábrica comece a funcionar no final de 2027, com capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano.

Para se ter uma ideia, esse volume é suficiente para abastecer indústrias de papel e higiene pessoal em vários continentes. A unidade vai produzir fibra curta de eucalipto, uma das mais utilizadas no mundo para papel higiênico, lenços e papéis especiais.
Mas não é só isso. A fábrica também será uma gigante da energia limpa. A previsão é gerar mais de 400 megawatts (MW) a partir dos resíduos do próprio processo industrial. Metade desse total será usada na própria planta. O restante, cerca de 220 MW, será vendido ao Sistema Interligado Nacional — energia suficiente para abastecer uma cidade com mais de 800 mil habitantes.
Empregos e oportunidades para todos os lados
Durante a fase de obras, o canteiro vai empregar até 14 mil pessoas no pico da construção. Quando a fábrica estiver pronta e em plena operação, serão 6 mil empregos diretos e indiretos em áreas como indústria, logística, manutenção, transporte e manejo florestal.
E não para por aí: a chegada de tantos trabalhadores vai movimentar comércio, serviços, habitação e transporte na cidade e arredores. Hotéis, restaurantes, postos de gasolina, mercados — todos devem sentir o impacto positivo.
A arrecadação municipal também deve disparar, e a Arauco já anunciou que vai investir em qualificação profissional para preparar a mão de obra local e evitar gargalos na infraestrutura da cidade.
Por que Inocência entrou no mapa da celulose
Talvez você esteja se perguntando: por que uma fábrica desse tamanho foi parar justamente em Inocência?
A resposta está na velocidade de crescimento do eucalipto. Na região leste de Mato Grosso do Sul, a árvore atinge o ponto de corte ideal em sete anos. No Chile, por exemplo, esse ciclo demora entre 10 e 12 anos. Isso significa retorno mais rápido para o investimento e maior competitividade.

Além disso, o município fica no chamado “Vale da Celulose”, um polo logístico que já concentra grandes indústrias do setor, facilitando o transporte e a formação de fornecedores especializados.
Cronograma: quando tudo fica pronto
Depois da cerimônia em abril de 2025, as obras avançam em ritmo acelerado. O cronograma prevê:
2025 a 2026: obras civis, montagem eletromecânica e infraestrutura básica;
2026 a 2027: instalação dos equipamentos principais e testes;
4º trimestre de 2027: produção da primeira bala de celulose.
A fábrica foi projetada para integrar, em um único fluxo, as etapas de cozimento, branqueamento, secagem e expedição. Tudo para ganhar eficiência, reduzir custos e evitar desperdícios.
Tecnologia de ponta e sustentabilidade
Para atingir esse nível de eficiência, a Arauco contratou a finlandesa Valmet, referência mundial em automação industrial, para fornecer processos, sistemas e válvulas.
Entre as tecnologias previstas, estão:
Gaseificação de biomassa para alimentar o forno de cal;
Caldeira de biomassa para gerar energia renovável;
Maior caldeira de recuperação química do mundo no setor de celulose.
Com isso, a planta vai operar com baixo impacto ambiental, reutilizando água, aproveitando resíduos e reduzindo ao mínimo o uso de combustíveis fósseis.
O que muda para Inocência e região
Imagine uma cidade com pouco mais de 8 mil habitantes recebendo um projeto desse tamanho. É claro que tudo vai mudar.
O município, que tradicionalmente viveu da pecuária e da agricultura, agora entra na rota da indústria de base florestal, com potencial para atrair fornecedores, empresas de transporte, serviços e até novos moradores.
A expectativa é que o crescimento econômico venha acompanhado de investimentos em saúde, educação, saneamento e mobilidade, já que o fluxo de pessoas e mercadorias vai aumentar bastante.
Energia limpa como pilar do projeto
Um dos grandes diferenciais do Sucuriú é a busca por autossuficiência energética. A ideia é que a própria fábrica produza toda a eletricidade necessária para funcionar, usando resíduos do processo industrial.
O excedente de energia ainda será vendido para a rede nacional, criando uma nova fonte de receita e contribuindo para a matriz energética limpa do país.
Essa prática já é comum em grandes fábricas de celulose, mas o Sucuriú promete ser um marco na transição energética do setor.
Efeitos de longo prazo na economia
Depois que a fábrica entrar em operação, o impacto econômico não vai se limitar à cidade de Inocência. Toda a região do leste sul-mato-grossense deve se beneficiar.
Mais empregos, mais circulação de dinheiro, novos negócios e mais arrecadação de impostos. A cadeia produtiva inclui desde plantio e manejo florestal até logística, manutenção e serviços especializados.
Com o tempo, empresas fornecedoras podem se instalar permanentemente na região, criando um polo industrial integrado.
Inocência: de cidade pequena a protagonista global
Fundada em 1947 e emancipada em 1958, Inocência sempre teve sua economia baseada na agropecuária. Agora, com o Projeto Sucuriú, o município entra para o mapa global da celulose.
A cidade, que fica a 312 km de Campo Grande, terá de se preparar para equilibrar crescimento econômico, qualidade de vida e preservação ambiental.
O desafio será garantir que o avanço industrial traga desenvolvimento sustentável e benefícios para as futuras gerações, como destacou o presidente da Arauco Brasil, Carlos Altimiras.
