O agronegócio brasileiro vive um momento de contrastes. Ao mesmo tempo em que estudos apontam um enorme potencial para transformar resíduos da produção agrícola em uma fonte estratégica de energia, produtores também enfrentam pressão com a disparada do preço do trigo, novas exigências da União Europeia para a carne bovina e barreiras comerciais que afetam as exportações de arroz. O panorama foi apresentado durante a primeira edição do CNN Agro News, que reuniu especialistas para analisar os principais movimentos do setor.
Entre as perspectivas mais promissoras está o avanço do biometano. Segundo levantamento apresentado pela Lots Group durante o programa, o Brasil possui capacidade para produzir cerca de 43 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano, volume suficiente para atender aproximadamente 60% do consumo nacional de diesel. A estimativa reforça o potencial do país para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar o aproveitamento de resíduos gerados pela agroindústria.
Resíduos do campo podem mudar a matriz energética brasileira
Grande parte desse potencial está concentrada na cadeia da cana-de-açúcar. O levantamento mostra que somente esse segmento poderia responder por aproximadamente 21 bilhões de metros cúbicos anuais, quase metade da capacidade estimada para todo o país.
Também aparecem com destaque os resíduos da produção de proteína animal, da agricultura e do saneamento urbano. Apenas o tratamento de esgoto poderia gerar cerca de 3 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano, ampliando as possibilidades de utilização do combustível renovável em centros urbanos e corredores logísticos.
Segundo o CEO da Lots Group, Edson Guimarães, a competitividade econômica do combustível já deixou de ser apenas uma expectativa.
“A paridade de custo versus o diesel ela já é possível hoje, então a gente prevê sim que existe possibilidade da aceleração da curva desta demanda”, afirmou o executivo durante entrevista ao CNN Agro News.
Na avaliação de Guimarães, o crescimento da produção deverá ganhar força entre os próximos cinco e quinze anos.
“O biometano vai ter sim um lugar estratégico na matriz energética da logística rodoviária do Brasil”, acrescentou.
Por que o biometano ganha importância
O interesse pelo biometano aumentou nos últimos anos devido às oscilações no mercado internacional de petróleo e à necessidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa. Produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos, o combustível pode abastecer caminhões, ônibus, tratores e até indústrias.
Além da redução na emissão de carbono, especialistas apontam que o aproveitamento de resíduos agropecuários reduz impactos ambientais, gera novas receitas para produtores e fortalece a economia circular no campo.
O tema também ganhou espaço nas políticas públicas brasileiras. O governo federal tem ampliado iniciativas voltadas à expansão do mercado de biocombustíveis, enquanto estados vêm criando incentivos para novos projetos de produção de biogás e biometano.
Alta do trigo acende alerta para consumidores e indústria
Enquanto o futuro energético apresenta oportunidades, o mercado de alimentos enfrenta pressões relevantes. Conforme detalhado pela jornalista Juliana Camargo durante o CNN Agro News, os contratos futuros do trigo acumulam valorização superior a 26% neste ano.
Entre os fatores que explicam esse movimento está o agravamento das tensões entre Rússia e Ucrânia. Os dois países figuram entre os maiores exportadores mundiais de trigo, e ataques contra portos e estruturas de escoamento aumentam a insegurança sobre a oferta global.
Outro elemento importante é a seca registrada nos Estados Unidos, que reduziu a produção da safra de inverno e diminuiu a disponibilidade internacional do cereal.
No mercado brasileiro, o impacto já aparece nas cotações. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o trigo negociado no Paraná alcançou o maior preço real desde agosto do ano passado. Além da menor oferta, reflexos climáticos associados ao El Niño também influenciaram a produção nacional.
O aumento do custo da matéria-prima preocupa especialmente panificadoras, fabricantes de massas e consumidores, já que o trigo está presente em produtos como pão francês, bolos, biscoitos e massas alimentícias.
União Europeia aumenta exigências para carne bovina
Outro desafio envolve as exportações brasileiras de proteína animal. Produtores acompanham com atenção a entrada em vigor de novas exigências da União Europeia relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal.
Embora represente um mercado menor em volume quando comparado à China, o bloco europeu oferece maior remuneração pelos produtos brasileiros.
Levantamento divulgado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Aplicada (IMEA) indica que, no primeiro semestre, a União Europeia pagou em média US$ 6.400 por tonelada de carne bovina, enquanto o preço médio pago pela China ficou abaixo de US$ 5.000.
Essa diferença próxima de 35% evidencia a importância estratégica do mercado europeu para frigoríficos focados em produtos de maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, a China continua sendo o principal destino da carne bovina produzida em Mato Grosso, respondendo por aproximadamente 55% das exportações do estado.
Tarifa dos Estados Unidos pressiona mercado brasileiro de arroz
O setor orizícola também enfrenta dificuldades. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), a tarifa de 37,5% aplicada pelos Estados Unidos poderá provocar perdas anuais de até US$ 25 milhões para o segmento.
O impacto é relevante porque o mercado norte-americano representa cerca de 19% da receita obtida com as exportações brasileiras de arroz branco, produto que possui maior valor agregado.
No mercado interno, o cenário também preocupa produtores. Especialistas ouvidos pelo CNN Agro News afirmam que a saca, que chegou a aproximadamente R$ 127 no fim de 2024, atualmente gira em torno de R$ 70, valor considerado insuficiente para cobrir os custos de produção em diversas regiões.
Diante desse ambiente, empresas buscam diversificar produtos e ampliar mercados enquanto aguardam avanços nas negociações comerciais.
Tecnologia ajuda produtores do semiárido a enfrentar a seca
Em paralelo aos desafios econômicos, iniciativas de adaptação climática seguem avançando no Nordeste brasileiro.
Um dos destaques apresentados foi o programa Mais Verde do Sertão, desenvolvido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O projeto incentiva o cultivo de espécies adaptadas às condições do semiárido, como palma forrageira e capins resistentes à seca, para garantir alimento ao rebanho durante longos períodos sem chuva.
Desde 2017, a iniciativa já beneficiou mais de 10 mil produtores rurais, contribuindo para reduzir perdas, melhorar a produtividade e aumentar a resiliência da pecuária na região.
O que esperar para os próximos anos
O conjunto de indicadores mostra que o agronegócio brasileiro atravessa um período de transformação acelerada. A expansão do biometano aponta para uma nova fronteira energética capaz de reduzir custos logísticos e aproveitar resíduos antes descartados. Ao mesmo tempo, fatores geopolíticos, mudanças climáticas e exigências internacionais continuam influenciando diretamente os preços dos alimentos e a competitividade das exportações brasileiras.
Em vídeo publicado em seu canal oficial, o CNN Agro News detalhou os números do levantamento sobre o biometano, explicou os impactos da alta do trigo, analisou os desafios enfrentados pelos exportadores de carne e arroz e apresentou iniciativas voltadas à adaptação da produção agrícola às mudanças climáticas, ampliando a compreensão sobre um dos setores mais importantes da economia brasileira.
