O desenvolvimento do El Niño voltou a acender o sinal de alerta entre meteorologistas e autoridades climáticas. Após a transição da La Niña para condições neutras no início de 2026, o Oceano Pacífico Equatorial registrou um aquecimento mais rápido do que o observado em muitos ciclos anteriores. Organizações internacionais e centros meteorológicos indicam que o fenômeno deve ganhar força ao longo dos próximos meses, aumentando a probabilidade de eventos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e períodos de seca em diferentes regiões do Brasil.
Em entrevista ao SBT News, a meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia, afirmou que a velocidade da intensificação chamou a atenção dos especialistas. Segundo ela, o período de maior influência do fenômeno deverá ocorrer entre outubro e dezembro, quando normalmente os efeitos do El Niño se tornam mais evidentes sobre o clima da América do Sul.
“O El Niño recém começou sua fase de intensificação e o ápice deverá ocorrer no último trimestre do ano”, explicou a meteorologista durante a entrevista.
Organização Meteorológica Mundial confirma desenvolvimento do fenômeno
A preocupação também é compartilhada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Em atualização divulgada em junho de 2026, a entidade informou que havia 80% de probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto e que essa possibilidade aumentava para cerca de 90% durante o restante do período de previsão, incluindo os meses de setembro a dezembro. A OMM destacou que o aquecimento do Pacífico tende a aumentar a ocorrência de extremos climáticos em diversas partes do planeta.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) também declarou oficialmente o início das condições de El Niño em junho, prevendo fortalecimento do fenômeno até o início de 2027.
Rapidez da evolução preocupa especialistas
Segundo Estael Sias, um dos aspectos mais incomuns deste episódio é a velocidade da mudança nas temperaturas do Pacífico.
Enquanto em janeiro o planeta ainda apresentava influência da La Niña, poucos meses depois os indicadores oceânicos passaram a mostrar aquecimento consistente.
De acordo com a meteorologista, níveis de intensidade semelhantes aos observados atualmente só haviam sido registrados muito mais tarde durante eventos anteriores.
Essa rápida evolução aumenta a incerteza sobre a intensidade máxima que o fenômeno poderá alcançar até o final de 2026.
A própria Organização Meteorológica Mundial ressalta que ainda existe incerteza quanto ao pico do evento, embora a maioria dos modelos climáticos indique um El Niño pelo menos moderado, com possibilidade de atingir intensidade forte.
Sul do Brasil pode enfrentar mais chuva e temporais
Os impactos do El Niño não são uniformes em todo o território brasileiro.
Segundo a análise apresentada por Estael Sias ao SBT News, a Região Sul deverá permanecer sob maior influência de frentes frias e sistemas de baixa pressão, favorecendo volumes elevados de chuva.
Historicamente, episódios de El Niño costumam aumentar a frequência de precipitações acima da média sobre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, elevando o risco de enchentes, deslizamentos e tempestades severas.
A meteorologista também lembra que ambientes mais instáveis favorecem a formação de eventos como vendavais, granizo, microexplosões atmosféricas e, em situações específicas, tornados.
Norte e Nordeste podem registrar redução das chuvas
Enquanto o Sul tende a enfrentar excesso de precipitação, o comportamento esperado para parte do Norte e do Nordeste é praticamente oposto.
Segundo Estael Sias, essas regiões podem registrar redução significativa das chuvas durante o período de maior influência do fenômeno.
A consequência não se limita ao abastecimento de água.
Baixos níveis dos rios podem comprometer o transporte fluvial em diversas áreas da Amazônia, enquanto a escassez hídrica aumenta o risco de queimadas e dificulta a produção agrícola.
Regiões produtoras como o Matopiba — formado por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — podem enfrentar impactos na produtividade caso a redução das chuvas se confirme.
Sudeste e Centro-Oeste devem enfrentar calor intenso
Para o Sudeste e parte do Centro-Oeste, o principal risco apontado pelos meteorologistas envolve as ondas de calor.
Segundo Estael Sias, ainda poderão ocorrer episódios de chuva durante o inverno e o início da primavera, mas a tendência para os meses seguintes é de temperaturas persistentemente elevadas.
Eventos prolongados de calor extremo costumam aumentar o consumo de energia elétrica, pressionar o abastecimento de água e ampliar riscos à saúde, principalmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
A Organização Meteorológica Mundial também prevê temperaturas acima da média em grande parte do planeta durante a atuação do fenômeno.
Agricultura pode sentir reflexos no campo e nos preços
As consequências do El Niño costumam ultrapassar a meteorologia e alcançar diretamente a economia.
Segundo especialistas, alterações no regime de chuvas podem reduzir a produtividade de diversas culturas agrícolas, principalmente quando ocorrem secas prolongadas ou excesso de precipitação durante períodos críticos do desenvolvimento das plantas.
Essas perdas podem afetar cadeias produtivas importantes, influenciando preços de alimentos, exportações e custos para consumidores.
A Organização Meteorológica Mundial destaca que agricultura, energia, recursos hídricos e saúde estão entre os setores mais sensíveis aos efeitos do fenômeno.
Sistemas de alerta ganham importância
Durante a entrevista ao SBT News, Estael Sias ressaltou que a tecnologia disponível atualmente permite monitorar o comportamento da atmosfera com muito mais precisão do que há algumas décadas.
No entanto, ela observou que radares, satélites e modelos numéricos só cumprem plenamente sua função quando os alertas chegam rapidamente à população.
Segundo a meteorologista, municípios e estados devem reforçar sistemas de prevenção, especialmente em áreas sujeitas a enchentes, deslizamentos e outros desastres naturais.
Especialistas recomendam acompanhar canais oficiais
Meteorologistas lembram que previsões climáticas são atualizadas constantemente à medida que novos dados oceânicos e atmosféricos são incorporados aos modelos.
Por isso, recomenda-se acompanhar boletins emitidos por órgãos oficiais, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Defesa Civil e instituições internacionais responsáveis pelo monitoramento do El Niño.
Em entrevista ao SBT News, Estael Sias reforçou que o momento exige preparação, não pânico. Segundo ela, ainda existe incerteza sobre a intensidade final do fenômeno, mas os indicadores atuais justificam atenção especial dos órgãos públicos e da população. “O alerta é uma ferramenta de prevenção. Quanto antes as pessoas souberem do risco, maiores são as chances de reduzir perdas humanas e materiais”, afirmou a meteorologista.
Com a expectativa de fortalecimento do El Niño ao longo do segundo semestre, especialistas consideram que o restante de 2026 poderá ser marcado por um dos períodos de maior variabilidade climática dos últimos anos, exigindo planejamento tanto do poder público quanto dos setores mais dependentes das condições do tempo.
