Para milhares de brasileiros que solicitam benefícios por incapacidade ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a perícia médica representa uma das etapas mais decisivas do processo. Embora muitos segurados concentrem toda a preocupação no momento da conversa com o médico perito, especialistas em Direito Previdenciário alertam que a avaliação pode começar muito antes de qualquer pergunta ser feita.
Em vídeo publicado em seu canal oficial no YouTube, a advogada previdenciária Cláudia Torbes, do escritório Ribeiro Torbes Advocacia, afirma que detalhes aparentemente simples, como a forma de caminhar, a organização dos documentos e até uma resposta automática por educação podem influenciar a impressão inicial do perito. Segundo ela, essas situações não substituem as provas médicas, mas podem gerar contradições que acabam prejudicando quem realmente está incapacitado para trabalhar.
“O perito não começa a formar opinião quando você senta na cadeira. A perícia começa no segundo em que você aparece na porta e abre a boca para falar”, afirma a especialista.
A seguir, entenda quais são os seis comportamentos apontados pela advogada e o que a legislação e as regras do INSS dizem sobre a perícia médica.
O que é avaliado durante a perícia do INSS?
A perícia médica é obrigatória para concessão de benefícios como o auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) e a aposentadoria por incapacidade permanente (antiga aposentadoria por invalidez). O objetivo do exame é verificar se o segurado realmente apresenta incapacidade para exercer sua atividade profissional e se essa condição atende aos requisitos previstos na legislação previdenciária.
Além dos exames clínicos, o perito analisa laudos médicos, exames complementares, histórico do tratamento e demais documentos apresentados pelo segurado. O procedimento é regulamentado pelo INSS e segue critérios técnicos previstos na legislação previdenciária.
Segundo Cláudia Torbes, entretanto, a coerência entre o que o segurado relata e aquilo que demonstra durante toda sua permanência na agência também pode influenciar a percepção inicial do profissional responsável pela avaliação.
1. Aparência excessivamente produzida pode criar uma impressão contraditória
O primeiro alerta da advogada está relacionado à forma como o segurado comparece à perícia.
Ela explica que não existe obrigação de vestir roupas simples ou aparentar abandono. A recomendação é apenas que a apresentação seja compatível com a realidade enfrentada pela pessoa.
“Não é para ir maltrapilho. Mas, se você afirma possuir limitações severas e aparece extremamente produzido, maquiado, usando roupas ou calçados que exigem muito esforço para vestir, isso pode criar um contraste com aquilo que está sendo alegado”, comenta.
Segundo a especialista, o ideal é comparecer limpo, organizado e de maneira semelhante ao que seria um dia comum convivendo com a doença.
2. O comportamento na sala de espera também pode ser observado
Outro ponto destacado é que muitos segurados acreditam que só passam a ser avaliados quando entram no consultório.
Na visão da advogada, o comportamento antes da consulta também merece atenção.
“A maneira como você anda, senta, levanta, sobe escadas ou carrega objetos pode ser observada. Se existe uma limitação importante, ela naturalmente aparece nesses movimentos.”
Ela reforça que jamais se deve fingir dificuldades inexistentes, o que pode caracterizar fraude, mas também alerta para que a pessoa não esconda suas limitações por vergonha ou pressa.
3. O uso do celular pode transmitir uma mensagem diferente da realidade
Outro comportamento citado por Cláudia Torbes envolve o uso constante do telefone celular durante a espera.
Segundo ela, pessoas que alegam limitações nas mãos, problemas de visão, dificuldades de concentração ou dores intensas podem acabar transmitindo uma imagem contraditória caso permaneçam digitando rapidamente, utilizando aplicativos ou assistindo vídeos normalmente.
A orientação é simples: aguardar o atendimento com tranquilidade e concentrar-se em relatar corretamente as dificuldades enfrentadas no cotidiano.
4. Chegar dirigindo sozinho pode pesar em alguns casos
A especialista ressalta que essa situação depende do tipo de incapacidade alegada.
Se o segurado afirma possuir limitações severas de mobilidade ou condições que dificultam significativamente a locomoção, comparecer sozinho dirigindo pode levantar questionamentos durante a avaliação.
“Quando o quadro realmente exige ajuda para locomoção, chegar acompanhado costuma refletir melhor a realidade vivida pela pessoa”, observa.
Ela lembra, contudo, que o acompanhante nem sempre pode entrar na sala da perícia, sendo necessário observar as regras estabelecidas pelo INSS.
5. O reflexo de responder “tô bem” pode prejudicar a avaliação
Para Cláudia Torbes, esse talvez seja o erro mais frequente entre os segurados.
Por educação, muitos brasileiros respondem automaticamente “estou bem” quando são cumprimentados pelo médico perito.
Segundo ela, essa resposta pode acabar sendo interpretada literalmente.
“Essa frase que nós brasileiros falamos por educação pode parar no laudo. Na perícia, o importante é responder exatamente como você está.”
A recomendação da advogada é descrever as dificuldades reais enfrentadas diariamente, explicando limitações para caminhar, dormir, trabalhar, cozinhar, permanecer sentado ou executar atividades habituais, sempre com sinceridade.
6. Documentação desorganizada pode enfraquecer o pedido
Outro erro apontado é comparecer à perícia sem organização dos documentos médicos.
Laudos recentes, exames, receitas, relatórios médicos e comprovantes de tratamento ajudam o perito a compreender a evolução clínica do paciente.
Segundo Cláudia Torbes, apresentar toda essa documentação organizada cronologicamente facilita a análise e demonstra acompanhamento contínuo da doença.
Embora a organização, por si só, não garanta a concessão do benefício, ela contribui para uma avaliação mais clara das informações disponíveis.
Um caso que, segundo a advogada, ilustra esses cuidados
Durante o vídeo, Cláudia Torbes relata o caso de uma cliente de 61 anos, moradora de São Paulo, diagnosticada com graves problemas na coluna e que possuía exames como ressonância magnética e tomografia comprovando a doença.
Segundo a advogada, a segurada fez questão de subir escadas sem pedir ajuda para não incomodar outras pessoas e, ao entrar na sala, respondeu ao cumprimento do médico dizendo: “Tô firme, doutor.”
Na avaliação da especialista, esse comportamento acabou transmitindo uma imagem incompatível com a gravidade do quadro clínico.
Após a negativa administrativa, o caso precisou ser levado ao Poder Judiciário para que a segurada buscasse o reconhecimento do direito ao benefício.
A legislação prevê critérios técnicos para concessão dos benefícios
De acordo com a Lei nº 8.213/1991, o auxílio por incapacidade temporária é destinado ao segurado que ficar temporariamente incapaz para o trabalho por período superior ao previsto na legislação, enquanto a aposentadoria por incapacidade permanente depende da comprovação de incapacidade total e permanente, sem possibilidade de reabilitação para outra atividade.
Nos últimos anos, o INSS também ampliou a utilização de ferramentas digitais para agendamento, acompanhamento de pedidos e envio de documentos por meio do aplicativo e do portal Meu INSS. Ainda assim, em muitos casos, a realização da perícia presencial continua sendo indispensável para a análise do direito ao benefício.
A importância das provas médicas
Especialistas em Direito Previdenciário costumam destacar que o principal elemento para obtenção de benefícios por incapacidade continua sendo a documentação médica consistente.
Laudos emitidos pelo médico assistente, exames recentes, histórico de tratamentos, receitas e relatórios detalhados ajudam a demonstrar a evolução da doença e servem como base técnica para a decisão do perito.
A orientação é apresentar informações verdadeiras, sem exagerar sintomas nem minimizar dificuldades, permitindo que a avaliação reflita a real condição de saúde do segurado.
Especialista detalhou orientações em vídeo publicado no YouTube
Em vídeo divulgado em seu canal oficial, Cláudia Torbes explica detalhadamente cada uma dessas situações e reforça que o objetivo não é ensinar pessoas a simular doenças, mas orientar segurados que realmente possuem incapacidade a não cometer erros de comportamento capazes de transmitir uma impressão diferente da realidade.
Segundo a advogada, a perícia médica deve ser encarada como o momento em que o segurado apresenta, de forma transparente, todas as limitações impostas pela doença, sem esconder dificuldades por orgulho, educação ou receio de parecer vulnerável.
