O agronegócio brasileiro produz alimentos para o mercado interno e para dezenas de países, lidera avanços em áreas como produtos biológicos e agricultura tropical, mas ainda enfrenta um obstáculo que vai além da produção: convencer a população urbana e compradores internacionais de que boa parte desses avanços também ocorre na agenda ambiental. A avaliação foi apresentada pelo representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Mesa, e pelo analista de agronegócio Chico Graziano, durante entrevista ao SBT News.
Segundo os especialistas, o desafio deixou de ser apenas produzir mais. Agora, passa também por comunicar melhor resultados, pesquisas e práticas sustentáveis que já fazem parte da agricultura brasileira, utilizando dados científicos e evidências verificáveis em vez de respostas pontuais a críticas.
FAO defende uma comunicação baseada em evidências
Na entrevista, Jorge Mesa, representante da FAO no Brasil, afirmou que o país possui resultados concretos para apresentar ao mundo, mas ainda carece de uma narrativa estruturada capaz de demonstrar esses avanços.
Segundo Mesa, a construção dessa credibilidade depende de uma comunicação fundamentada em evidências científicas e informações verificáveis, especialmente em um cenário internacional no qual questões ambientais passaram a influenciar negociações comerciais e decisões de consumo.
Na prática, a mensagem é que produzir de forma sustentável não basta. Também é necessário demonstrar isso de forma transparente e contínua.
Chico Graziano diz que existe um “abismo” entre a realidade do campo e a percepção das cidades
Durante a conversa, Chico Graziano afirmou que boa parte da imagem negativa do agronegócio ainda está ligada a uma visão antiga da atividade rural.
Segundo ele, muitas pessoas ainda associam a agricultura brasileira a práticas que eram comuns décadas atrás.
“Possivelmente há muito no imaginário das pessoas aquela agricultura de antigamente, que botava fogo nas coisas, fazia tudo errado, passava veneno errado e desmatava à vontade. Não é mais assim”, afirmou o analista.
Na avaliação de Graziano, entre 90% e 95% da produção agrícola nacional já utiliza tecnologias modernas, mas essa transformação ainda não chegou ao conhecimento de grande parte da população.
Ele afirma que existe uma dificuldade histórica de comunicação entre o campo e os centros urbanos, o que contribui para a manutenção de percepções desatualizadas.

O Código Florestal brasileiro é apontado como um dos principais argumentos
Entre os exemplos citados por Graziano está o Código Florestal Brasileiro, atualizado pela Lei nº 12.651, de 2012.
A legislação estabelece regras para preservação ambiental dentro das propriedades rurais e determina percentuais mínimos de vegetação nativa que devem permanecer preservados.
Conforme prevê a legislação:
- nas regiões Sul, Sudeste (em grande parte) e em áreas fora da Amazônia Legal, a Reserva Legal normalmente corresponde a 20% da propriedade;
- em parte do Cerrado localizado na Amazônia Legal, esse percentual sobe para 35%;
- nas áreas de floresta da Amazônia Legal, os produtores devem preservar 80% da vegetação nativa.
Durante a entrevista, Graziano utilizou um exemplo para ilustrar essas exigências.
“Se alguém está pensando em comprar uma fazenda na Amazônia, quanto poderá utilizar? Apenas 20%. Os outros 80% precisam permanecer preservados. É isso que determina a lei.”
O Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento criado pelo próprio Código Florestal, também passou a ser utilizado como ferramenta para monitorar essas áreas e apoiar a regularização ambiental das propriedades.
Brasil ampliou o uso de produtos biológicos no campo
Outro ponto destacado pelo analista foi o crescimento do mercado de produtos biológicos utilizados na agricultura.
Esses produtos utilizam organismos vivos ou substâncias naturais para controlar pragas, doenças e melhorar a fertilidade do solo, reduzindo parte da dependência de defensivos químicos em determinadas culturas.
Segundo Graziano, o Brasil ocupa posição de destaque na pesquisa, desenvolvimento e adoção dessas tecnologias.
“O Brasil lidera o avanço em pesquisa e uso de produtos biológicos também. Isso é realmente fantástico e estamos apenas no começo”, comentou.
Nos últimos anos, o setor ganhou impulso com investimentos públicos, privados e maior aprovação de bioinsumos pelo Ministério da Agricultura.
Plantio direto tornou-se uma das maiores transformações da agricultura brasileira
Entre os exemplos apresentados, Graziano também destacou a expansão do sistema de plantio direto.
A técnica consiste em manter a cobertura vegetal sobre o solo após a colheita, evitando revolvimento excessivo da terra.
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o método contribui para:
- reduzir processos erosivos;
- conservar água no solo;
- aumentar matéria orgânica;
- diminuir perdas causadas pelas chuvas;
- melhorar a produtividade ao longo do tempo.
Durante a entrevista, Graziano afirmou que aproximadamente 90% das lavouras brasileiras já utilizam esse modelo de manejo.
Segundo ele, a adaptação foi decisiva para o desenvolvimento da agricultura tropical brasileira.
Debate ambiental também envolve disputas comerciais internacionais
Outro aspecto levantado pelo analista diz respeito ao cenário geopolítico.
Segundo Graziano, parte das críticas direcionadas ao agronegócio brasileiro também ocorre em meio à crescente competição internacional pelo mercado de alimentos.
Ele citou como exemplo discussões envolvendo incêndios florestais.
Na avaliação do especialista, quando episódios semelhantes ocorrem em países europeus, frequentemente são associados às mudanças climáticas. Já quando acontecem no Brasil, segundo ele, parte das críticas costuma direcionar a responsabilidade diretamente ao setor agrícola.
Essa diferença de interpretação, afirma Graziano, reforça a necessidade de apresentar dados técnicos e informações verificáveis sobre as práticas adotadas no país.
Exportações brasileiras dependem cada vez mais da confiança internacional
O tema ganha relevância porque o agronegócio representa uma das principais bases da economia brasileira.
Dados do Ministério da Agricultura e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que o setor responde por parcela significativa das exportações nacionais, abastecendo mercados como China, União Europeia, Estados Unidos e diversos países asiáticos e do Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, compradores internacionais passaram a exigir cada vez mais comprovação sobre rastreabilidade, origem dos produtos e critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).
Por isso, especialistas avaliam que comunicar essas informações de forma transparente tornou-se parte da competitividade do próprio setor.
Redes sociais podem aproximar produtores e consumidores
Na parte final da entrevista, Graziano afirmou que o próprio agronegócio precisa assumir protagonismo na comunicação.
Segundo ele, produtores rurais, especialmente os mais jovens, podem utilizar redes sociais para mostrar o dia a dia das propriedades e explicar como funcionam as práticas agrícolas modernas.
“Nós precisamos de mais jovens ligados ao agro… os chamados influencers, que contem a sua história”, afirmou.
O analista também sugeriu que momentos rotineiros da atividade agrícola sejam compartilhados de forma transparente.
“Quando subirem num trator e forem aplicar um pesticida, gravem um vídeo, mostrem que tudo está sendo feito corretamente. Muitas vezes o público acredita que fazemos errado simplesmente porque não conhece o processo.”
Vídeo detalha os argumentos apresentados pelos especialistas
Em entrevista publicada pelo SBT News (veja abaixo), Jorge Mesa, representante da FAO no Brasil, e o analista Chico Graziano aprofundam a discussão sobre a imagem internacional do agronegócio brasileiro, os desafios da comunicação baseada em evidências e as práticas sustentáveis adotadas pelo setor.
O conteúdo apresenta exemplos relacionados ao Código Florestal, ao avanço dos produtos biológicos, ao plantio direto e à necessidade de aproximar a realidade do campo da percepção da sociedade urbana.
O que o debate mostra
A discussão apresentada pelos especialistas indica que a competitividade do agronegócio brasileiro passa cada vez mais por dois fatores complementares: manter ganhos de produtividade e demonstrar, com dados públicos, pesquisas científicas e informações verificáveis, como essas práticas são implementadas.
Para Jorge Mesa e Chico Graziano, fortalecer essa comunicação pode contribuir para ampliar a credibilidade do setor perante consumidores, governos e parceiros comerciais, especialmente em um cenário no qual sustentabilidade e segurança alimentar ocupam posição central nas relações econômicas internacionais.
