Agricultor cava poço para salvar criação da seca, encontra petróleo e descobre que riqueza pode levar anos para gerar qualquer retorno: “Eu queria era água”

O que era para ser a solução para a falta de água no sertão acabou se transformando em um problema inesperado para um agricultor de 63 anos no interior do Ceará. Ao perfurar um poço artesiano em sua propriedade em Tabuleiro do Norte, a cerca de 240 quilômetros de Fortaleza, Sidrônio encontrou petróleo bruto em vez da água necessária para manter a produção rural.

A descoberta chamou a atenção de pesquisadores, da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e despertou o interesse de possíveis compradores da fazenda, mas, na prática, trouxe dívidas, incertezas e mais dificuldades para a família.

O agricultor havia investido R$ 15 mil, obtidos por meio de um empréstimo bancário, na tentativa de garantir água para irrigar a plantação e abastecer os animais durante os períodos de estiagem. Em vez disso, viu um líquido escuro jorrar do solo, mudando completamente o rumo da propriedade.

A busca por água que terminou com uma descoberta inesperada

A propriedade de Sidrônio possui cerca de 480 mil metros quadrados e depende das chuvas para produzir alimentos. Segundo o agricultor, milho, feijão e outras culturas se desenvolvem bem quando há precipitação suficiente. O problema surge durante o período seco, quando o pasto desaparece e a escassez de água compromete tanto a agricultura quanto a criação de animais.

Nós planta de tudo, tudo dá“, afirmou o produtor, ao lembrar que o potencial da terra nunca foi o problema. A maior dificuldade sempre foi a falta de água.

A situação chegou a um ponto crítico pouco antes da perfuração do poço. Sem condições de manter os animais hidratados, Sidrônio precisou vender toda a criação de porcos.

Vi eles aqui sem água, tudo cansadinho… vendi os porcos e não criei mais por causa desse tipo de água“, contou.

Foi justamente para evitar novos prejuízos que ele decidiu contratar uma empresa especializada na perfuração de um poço artesiano.

A alegria durou poucos segundos

As imagens registradas pela família mostram o momento em que o líquido começou a sair da perfuração. Inicialmente, todos acreditaram que finalmente haviam encontrado água.

Sidrônio lembra que comemorou imediatamente.

Quando começou a sair aquele jorro preto, fiquei alegre de imediato“, recorda.

Pouco depois, porém, veio a constatação de que o líquido possuía características completamente diferentes.

Aí disseram: ‘Aqui tem óleo’. Na hora eu pensei: agora me lasquei, porque meu gado não bebe óleo“, relembrou, em uma fala que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.

Seu filho, Sydney, resolveu acompanhar a situação utilizando equipamentos improvisados para medir o nível do líquido dentro do poço e coletar amostras.

Não é nada normal sair um negócio desse aqui de uma terra“, comentou.

Testes laboratoriais confirmaram que se trata de petróleo cru

A família levou amostras ao Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus de Tabuleiro do Norte, onde análises laboratoriais confirmaram que o material encontrado era petróleo bruto.

Segundo pesquisadores envolvidos na análise, a confirmação da existência do petróleo não significa, automaticamente, que a área será explorada comercialmente.

Depois da divulgação do caso, técnicos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também estiveram na propriedade para realizar avaliações iniciais.

De acordo com a agência, foi aberto um processo administrativo para estudar a possibilidade de inclusão da região em futuros blocos exploratórios. No entanto, isso depende de estudos geológicos, econômicos e ambientais que costumam levar vários anos.

Especialistas da área explicam que a simples presença de petróleo não garante sua exploração. É necessário comprovar que existe volume suficiente para justificar economicamente o investimento, além de atender às exigências ambientais e regulatórias.

O petróleo pertence à União, não ao proprietário da terra

Um dos pontos que mais surpreendeu a família foi descobrir que, pela legislação brasileira, o petróleo encontrado no subsolo não pertence ao dono da propriedade.

A Constituição Federal determina que as jazidas de petróleo e demais recursos minerais são bens da União. A exploração somente pode ocorrer mediante autorização federal, normalmente por meio de concessões ou contratos específicos.

Isso significa que Sidrônio não pode extrair nem comercializar o petróleo encontrado em seu terreno por conta própria.

Caso estudos futuros apontem viabilidade econômica e uma empresa seja autorizada a explorar a área, o proprietário poderá receber participações financeiras previstas em lei, como royalties ou compensações pela ocupação da terra. Entretanto, esses valores somente existem se houver produção comercial efetiva.

Pesquisadores ressaltam que ainda não há qualquer estimativa conclusiva sobre o tamanho do reservatório existente na região.

Pode existir um reservatório significativo ou apenas uma pequena ocorrência localizada. Hoje ninguém consegue afirmar isso com precisão“, explicam os técnicos envolvidos nas avaliações.

Enquanto o petróleo espera estudos, a dívida continua crescendo

Na prática, a descoberta não resolveu nenhum dos problemas enfrentados pela família.

O empréstimo de R$ 15 mil continua sendo pago, a produção agrícola diminuiu e a criação de animais permanece limitada pela falta de água.

Com receio sobre possíveis impactos ambientais e sem saber exatamente quais intervenções podem ser feitas na área, parte da propriedade deixou de ser utilizada para cultivo.

Depois da repercussão nacional do caso, uma adutora foi instalada para levar água até o sítio. Apesar disso, o abastecimento passou a gerar uma nova despesa para o agricultor.

Como é que nós vamos pagar? Era melhor vocês terem achado água“, desabafou.

Descobertas semelhantes são raras no Brasil

Embora o Brasil seja um dos maiores produtores de petróleo do mundo, ocorrências como a registrada em Tabuleiro do Norte são incomuns.

A maior parte da produção nacional está concentrada em bacias sedimentares marítimas, especialmente na região do pré-sal, localizada na costa dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Segundo dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, o país produz diariamente mais de 4 milhões de barris de petróleo e gás natural equivalente. Entretanto, transformar uma ocorrência isolada em um campo economicamente explorável exige anos de pesquisas sísmicas, perfurações adicionais e elevados investimentos.

Especialistas do setor lembram que diversas descobertas acabam não sendo desenvolvidas comercialmente justamente porque o custo de extração supera o potencial de produção.

O drama da seca continua maior que a riqueza encontrada

Para quem vive no sertão, a água continua sendo muito mais valiosa do que qualquer promessa de riqueza futura.

Sidrônio resume esse sentimento ao lembrar que seu objetivo nunca foi encontrar petróleo, mas apenas garantir condições para plantar e criar animais durante os meses mais secos do ano.

Sem saber quando — ou mesmo se — a descoberta poderá gerar algum benefício financeiro, ele admite que a família cogita deixar a propriedade caso a situação continue sem solução.

Se isso demorar demais, vamos fechar as porteiras e procurar outro meio de viver“, afirmou.

Especialista detalhou descoberta em reportagem exibida na televisão

Em reportagem exibida pelo programa Domingo Espetacular, da RECORD, pesquisadores, técnicos e o próprio agricultor detalharam todas as etapas da descoberta, desde a perfuração do poço até a confirmação laboratorial de que o líquido encontrado era petróleo bruto.

Durante a entrevista, especialistas também explicaram os próximos passos do processo administrativo conduzido pela ANP, ressaltando que qualquer decisão sobre eventual exploração comercial dependerá de estudos técnicos, ambientais e econômicos que podem levar vários anos para serem concluídos.

Enquanto essas análises não terminam, a realidade da família permanece praticamente a mesma: convivendo diariamente com a seca, pagando um financiamento feito para encontrar água e esperando uma definição sobre uma riqueza que, por enquanto, continua apenas debaixo da terra.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.