Acordo Mercosul-UE pode abrir mercado de quase 800 milhões de consumidores para produtos brasileiros, impulsionar exportações de todos os estados e ampliar oportunidades para empresas de setores que vão da bioeconomia amazônica à tecnologia industrial

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia pode representar uma das maiores oportunidades para a economia brasileira nas últimas décadas. Um estudo elaborado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostra que o tratado tem potencial para ampliar significativamente a presença dos produtos brasileiros em um mercado formado por aproximadamente 800 milhões de consumidores, distribuídos entre os países dos dois blocos econômicos.

O levantamento identifica quais setores possuem maior potencial de crescimento em cada estado brasileiro e reforça que, diante do aumento das disputas comerciais internacionais e do avanço de políticas protecionistas em grandes economias, ampliar mercados deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento para se tornar uma necessidade para o país.

Estudo aponta oportunidades específicas para cada região brasileira

O levantamento da ApexBrasil mostra que os benefícios do acordo não se concentram apenas nos grandes polos industriais. A proposta é aproveitar as vocações econômicas de cada região, ampliando a competitividade brasileira conforme as tarifas de importação forem sendo reduzidas gradualmente.

Na Região Norte, o destaque está na chamada bioeconomia amazônica. Produtos como açaí, castanhas, cacau, óleos essenciais, madeira proveniente de manejo sustentável e minerais críticos aparecem entre os principais itens com potencial para conquistar espaço no mercado europeu, impulsionados pela crescente demanda por produtos sustentáveis e matérias-primas estratégicas.

Já o Nordeste reúne oportunidades tanto em setores tradicionais quanto em novas cadeias produtivas. A fruticultura irrigada continua sendo uma das grandes apostas, ao lado das indústrias de calçados e couro. Outro segmento citado pelo estudo é o hidrogênio verde, considerado uma das principais apostas para atrair investimentos internacionais nos próximos anos.

No Centro-Oeste, o agronegócio permanece como protagonista. As exportações de grãos, carnes e minérios continuam sendo a principal força econômica da região. O estudo também identifica nichos industriais no Distrito Federal capazes de ampliar negócios com países europeus.

O Sul aparece como uma região que combina produção agropecuária e indústria. Máquinas, geradores elétricos, carnes e derivados da soja estão entre os produtos que podem ganhar competitividade caso o acordo entre em vigor.

Sudeste concentra maior número de oportunidades para produtos industrializados

Segundo a ApexBrasil, o Sudeste reúne o maior volume de oportunidades ligadas a produtos de maior valor agregado e tecnologia.

São Paulo lidera o levantamento nacional com 127 produtos estratégicos identificados. Entre eles estão aeronaves, máquinas industriais, suco de laranja e café, setores nos quais o estado já possui forte presença internacional.

Minas Gerais aparece logo em seguida, com 69 oportunidades mapeadas. O café não torrado permanece como principal produto exportado para a União Europeia e representa mais de 70% das vendas mineiras ao bloco.

No Rio de Janeiro e no Espírito Santo, o estudo aponta oportunidades relacionadas às cadeias de mineração, siderurgia, energia e café.

Especialistas defendem internacionalização permanente das empresas brasileiras

Durante entrevista ao Jornalismo da TV Cultura, especialistas defenderam que a expansão internacional das empresas brasileiras precisa deixar de depender apenas de iniciativas pontuais de cada governo.

Segundo a análise apresentada, estados e municípios precisam investir na formação de novos exportadores e criar programas permanentes de internacionalização.

“É importante que os estados olhem para como capacitar mais exportadores, como você ter programas específicos de exportação e de internacionalização para que essas empresas possam entrar competitivamente no mercado”, destacou um dos especialistas ouvidos pela emissora.

Na avaliação dos analistas, a política comercial brasileira precisa ser tratada como uma estratégia permanente.

“O governo muda, governo está sempre mudando. O que a gente tem que entender é que isso tem que ser política de Estado. Quando a gente olha para Estados Unidos e para a própria União Europeia, existem políticas específicas que permanecem por vários anos”, acrescentou.

Cenário internacional aumenta urgência do acordo

O debate sobre o acordo Mercosul-União Europeia ganhou ainda mais relevância diante das mudanças recentes no comércio mundial.

Nos últimos anos, diferentes países passaram a adotar medidas protecionistas, elevando tarifas de importação e restringindo o comércio internacional em determinados setores. Esse movimento ganhou força especialmente durante o governo Donald Trump nos Estados Unidos e continua influenciando estratégias comerciais em diversas economias.

Nesse contexto, especialistas afirmam que reduzir a dependência de poucos mercados compradores tornou-se uma forma de aumentar a segurança das exportações brasileiras diante de mudanças políticas e econômicas internacionais.

Mais de 8 mil empresas brasileiras já exportam para a Europa

Dados apresentados pelo governo federal mostram que mais de 8 mil empresas brasileiras já mantêm relações comerciais com países da União Europeia.

A expectativa é que a redução gradual das tarifas facilite o acesso não apenas de grandes exportadores, mas também de pequenas e médias empresas, ampliando a diversidade da pauta exportadora brasileira.

Além de favorecer o aumento das vendas externas, especialistas avaliam que o acordo poderá estimular investimentos, modernização industrial e maior inserção das empresas brasileiras em cadeias globais de valor.

Infraestrutura continua sendo um dos maiores desafios

Apesar do potencial econômico identificado pelo estudo, especialistas ressaltam que o sucesso da estratégia dependerá de investimentos internos.

Durante a análise apresentada pela TV Cultura, foi destacado que abrir novos mercados não resolve, por si só, problemas relacionados à logística nacional.

“Outro entrave que a gente tem são os gargalos internos de infraestrutura. Porque você tem que exportar, você tem que ter estrada, tem que ter porto que consiga escoar. Isso aí a diplomacia não faz, é um problema, um dever de casa interno que a gente tem que fazer”, afirmou um dos entrevistados.

Rodovias, ferrovias, portos e terminais de carga continuam sendo considerados elementos essenciais para que o Brasil consiga aumentar sua competitividade internacional.

Negociações dentro do Mercosul ainda representam obstáculo

Outro ponto destacado pelos especialistas envolve o próprio funcionamento do Mercosul.

Como as negociações comerciais precisam ser conduzidas em conjunto pelos países integrantes do bloco, decisões costumam exigir consenso entre os membros, o que pode tornar o processo mais lento.

Durante a entrevista, também foi citado que divergências políticas entre governos da região têm dificultado o avanço de algumas negociações, embora o Brasil continue buscando ampliar acordos comerciais com diferentes parceiros internacionais.

Brasil também negocia novos acordos com outros mercados

Além da União Europeia, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que o país pretende acelerar negociações com outros mercados considerados estratégicos.

Entre os destinos prioritários estão Canadá, Emirados Árabes Unidos e Japão. Paralelamente, missões empresariais têm acompanhado viagens oficiais para países como China, Índia e nações do Sudeste Asiático, buscando ampliar oportunidades de negócios mesmo antes da conclusão de novos tratados comerciais.

A participação do setor privado nessas missões é vista como um instrumento importante para aproximar empresas brasileiras de compradores internacionais e fortalecer a presença do país em mercados considerados prioritários.

O que mais o leitor precisa saber sobre o acordo Mercosul-União Europeia

O acordo entre Mercosul e União Europeia foi concluído politicamente em 2019 após cerca de duas décadas de negociações, mas ainda depende da ratificação pelos países envolvidos para entrar plenamente em vigor. Quando implementado, o tratado prevê a redução gradual de tarifas de importação sobre milhares de produtos, além de estabelecer regras relacionadas a investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual e facilitação do comércio.

A União Europeia figura historicamente entre os principais parceiros comerciais do Brasil. Segundo dados do MDIC, o bloco europeu está entre os maiores destinos das exportações brasileiras e também ocupa posição de destaque como origem de investimentos estrangeiros no país. Especialistas apontam que a ampliação desse relacionamento pode aumentar a competitividade da indústria nacional e estimular inovação tecnológica.

Outro aspecto relevante é que o acordo pode incentivar empresas brasileiras a diversificar mercados, reduzindo a dependência de poucos compradores internacionais. Em um cenário marcado por disputas comerciais e mudanças frequentes nas regras globais, essa diversificação tende a diminuir riscos para exportadores de diferentes setores.

Vídeo detalha oportunidades identificadas pelo estudo

Em vídeo publicado pelo Jornalismo da TV Cultura, especialistas explicam como foi elaborado o levantamento da ApexBrasil e detalham quais setores econômicos de cada estado podem ganhar competitividade caso o acordo entre Mercosul e União Europeia avance para a fase de implementação. A análise também aborda os desafios relacionados à infraestrutura, à logística nacional e ao ambiente geopolítico internacional que influencia diretamente o comércio exterior brasileiro.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.