6 anos de alta, avanço das montadoras chinesas e mais: Carros 0 km ficam mais baratos em 2026 e o que isso pode significar para quem pretende trocar de veículo

Depois de seis anos consecutivos de aumentos acima da inflação, o mercado automotivo brasileiro começou a dar sinais de mudança. Pela primeira vez desde a pandemia de Covid-19, o preço real dos carros novos recuou, abrindo espaço para uma concorrência mais intensa entre montadoras e criando um cenário mais favorável para quem pretende comprar um veículo zero-quilômetro. Especialistas atribuem essa virada ao avanço das fabricantes chinesas, ao aumento da oferta de veículos eletrificados e ao crescimento da competição entre marcas tradicionais.

A avaliação foi apresentada por Cassio Pagliarini, sócio e CMO da Bright Consulting, durante entrevista ao Jornal do SBT News. Segundo ele, o setor vive um momento completamente diferente daquele observado entre 2020 e 2022, quando a crise global de componentes e a desvalorização cambial impulsionaram fortes reajustes nos preços dos automóveis.

Mercado encerra ciclo iniciado durante a pandemia

A pandemia alterou profundamente a indústria automobilística mundial. A falta de semicondutores, problemas logísticos internacionais e o aumento dos custos de produção reduziram a oferta de veículos novos justamente quando a demanda começou a se recuperar.

Como consequência, os preços dispararam.

Segundo Cassio Pagliarini, entre 2020 e 2022 os automóveis acumularam aumento real de aproximadamente 32% acima da inflação, tornando a compra de um carro novo muito mais difícil para boa parte das famílias brasileiras.

Agora, esse cenário começa a mudar.

“O preço baixou. A competição aumentou, a tecnologia evoluiu e a oferta de eletrificação ficou muito atrativa para o consumidor”, explicou o especialista.

Nos primeiros meses de 2026, o reajuste médio dos veículos ficou abaixo da inflação do período, representando uma redução real no preço pago pelo consumidor.

Marcas chinesas mudaram a dinâmica da concorrência

Boa parte dessa transformação está ligada ao crescimento das montadoras chinesas no mercado brasileiro.

Nos últimos anos, fabricantes asiáticas ampliaram significativamente sua presença no país, trazendo veículos elétricos, híbridos e modelos a combustão com preços mais competitivos e elevado nível de equipamentos.

Segundo Pagliarini, isso obrigou as montadoras tradicionais a reverem suas estratégias comerciais.

“A competição é muito forte e faz com que as montadoras tradicionais tenham de baixar preços para continuar disputando mercado”, afirmou.

Além dos preços mais agressivos, a chegada das novas marcas também acelerou a oferta de tecnologias que antes estavam restritas aos modelos mais caros.

Por que os carros chineses conseguem custar menos?

Durante a entrevista, o consultor explicou que a competitividade das fabricantes chinesas resulta da combinação de vários fatores estruturais.

A China possui capacidade para produzir cerca de 30 milhões de veículos por ano, enquanto o Brasil tem capacidade instalada próxima de 4 milhões de unidades, embora utilize apenas parte desse potencial.

A escala industrial reduz significativamente o custo de fabricação.

Outro diferencial é a verticalização da produção.

Em muitos casos, as empresas controlam praticamente toda a cadeia produtiva, desde a fabricação do aço e das baterias até a montagem final dos veículos.

Segundo Pagliarini, também contribuem para essa competitividade a logística própria para exportação, o acesso facilitado a financiamentos e o forte investimento em pesquisa e desenvolvimento.

Tecnologia deixou de ser exclusividade dos modelos premium

Outro fator que ajuda a explicar a redução dos preços é a rápida evolução tecnológica.

Itens como centrais multimídia maiores, sistemas avançados de assistência ao motorista, conectividade com smartphones, câmeras de estacionamento e recursos de segurança passaram a aparecer em veículos de categorias intermediárias.

Além disso, cresce rapidamente a oferta de automóveis híbridos e elétricos.

Segundo a Bright Consulting, a eletrificação deixou de ser apenas uma tendência futura e já influencia diretamente as estratégias comerciais das fabricantes instaladas no Brasil.

Carga tributária ainda pesa no preço final

Apesar da redução observada em 2026, especialistas lembram que o automóvel brasileiro continua entre os bens de consumo mais tributados da economia.

Sobre o valor final incidem impostos como IPI, ICMS, PIS, Cofins e, quando há financiamento, também custos financeiros associados ao crédito.

Dependendo da categoria do veículo, a carga tributária pode representar entre 30% e 45% do preço pago pelo consumidor.

Além dos tributos, o chamado Custo Brasil — que engloba burocracia, logística, infraestrutura e custos operacionais — continua pressionando os preços da indústria automotiva.

“O carro brasileiro é caro por causa dos impostos, mas também por causa dos custos logísticos e operacionais que existem aqui”, observou Pagliarini.

Frota brasileira continua envelhecida

Mesmo com o aumento das vendas nos últimos anos, especialistas alertam que a idade média da frota nacional permanece elevada.

Segundo dados utilizados pela Bright Consulting com base em informações do IBGE, o Brasil possui aproximadamente um automóvel para cada 3,4 habitantes, índice inferior ao observado em diversas economias desenvolvidas.

Além disso, muitos veículos permanecem em circulação por longos períodos.

Uma frota envelhecida tende a apresentar maior consumo de combustível, níveis mais elevados de emissão de poluentes e menor disponibilidade de tecnologias modernas de segurança.

Entidades do setor defendem políticas de renovação da frota, ampliação da oferta de crédito e redução dos juros para facilitar a substituição de veículos antigos.

Eletrificação deve ampliar disputa em 2027

A tendência é que a concorrência continue aumentando.

Diversas montadoras já anunciaram novos lançamentos de veículos híbridos, híbridos plug-in e elétricos para os próximos meses.

Segundo Cassio Pagliarini, essa nova onda tecnológica deverá manter elevada a pressão competitiva entre fabricantes nacionais e estrangeiras.

Isso não significa necessariamente reduções contínuas nos preços, mas pode favorecer promoções, maior oferta de equipamentos e melhores condições comerciais para atrair consumidores.

Momento exige comparação entre modelos e condições de financiamento

Especialistas lembram que o preço de tabela é apenas um dos fatores envolvidos na compra de um automóvel.

Também devem ser considerados os custos de financiamento, seguro, manutenção, consumo de combustível, valor de revenda e disponibilidade de assistência técnica.

Em um ambiente de maior concorrência, concessionárias costumam ampliar campanhas promocionais, oferecer bônus na troca do veículo usado e condições especiais de financiamento.

Por isso, comparar diferentes modelos, tecnologias e formas de pagamento pode fazer diferença significativa no custo total da aquisição.

Entrevista detalha por que o mercado entrou em nova fase

Em entrevista ao Jornal do SBT News, Cassio Pagliarini, sócio e CMO da Bright Consulting, detalhou como a entrada das montadoras chinesas, o avanço da eletrificação e o aumento da competição entre fabricantes encerraram um ciclo de seis anos de altas reais nos preços dos veículos novos. Durante a conversa, o especialista também explicou os desafios da indústria brasileira, o impacto da carga tributária, o envelhecimento da frota nacional e as perspectivas para o mercado automotivo ao longo de 2027.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.