Imagine acordar, abrir o aplicativo do seu banco e descobrir que aquele dinheiro que deveria ser a sua rede de segurança contra o desemprego simplesmente não cumpre mais o papel de proteção. Essa é a cena que começa a preocupar milhões de brasileiros depois que o presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, admitiu publicamente que o FGTS pode entrar em colapso.
Não se trata de um exagero ou de uma previsão distante. O próprio dirigente falou em alto e bom som: “Vamos ter uma crise muito grande no FGTS”.
De lá para cá, a fala virou combustível para discussões acaloradas. Afinal, se o fundo que deveria garantir tranquilidade ao trabalhador está cambaleando, o que esperar do futuro?
Como o FGTS se tornou um paciente em UTI?
Segundo especialistas como Josué Aragão (veja abaixo), o FGTS deixou de ser um fundo sólido e previsível. Hoje, ele mais parece um paciente internado em UTI, sobrevivendo com aparelhos.
Os motivos para isso são vários:
Menos trabalhadores formais contribuindo para o fundo;
Saques recorrentes drenando liquidez;
Inflação corroendo depósitos;
Rentabilidade que não acompanha o custo de vida.
A equação é simples: entra menos dinheiro, sai mais e o que sobra rende pouco. Resultado? O saldo encolhe em termos reais.
A matemática cruel que o trabalhador enfrenta
O FGTS rende TR + 3% ao ano. Parece razoável? Na prática, não é. Essa remuneração fica abaixo da inflação, o que significa que o dinheiro perde poder de compra mês após mês.
Um exemplo prático deixa claro o tamanho do problema: em dez anos, um trabalhador que contribui todos os meses com 8% do salário teria saldo 7,4% menor do que o necessário apenas para repor a inflação.
Ou seja, mesmo guardando religiosamente, o dinheiro não acompanha a alta dos preços. É como correr numa esteira: por mais esforço que você faça, continua no mesmo lugar.
Saque-aniversário e antecipações do FGTS
Outro ponto que acendeu a luz vermelha é a popularização do saque-aniversário e das antecipações.
Esses mecanismos, criados para dar mais liberdade ao trabalhador, acabaram gerando um efeito colateral: drenagem contínua de recursos.
Pense assim: é como se a caixa d’água de uma casa tivesse uma torneira sempre aberta. Mais cedo ou mais tarde, o reservatório seca.
Quando o trabalhador perde e o país também
O impacto não fica restrito ao bolso individual. O FGTS é a base de programas sociais e habitacionais. Mais de 90% dos financiamentos populares dependem dele.
Isso significa que qualquer desequilíbrio no fundo atinge diretamente:
O Minha Casa, Minha Vida, responsável por tirar milhões do aluguel;
Obras de saneamento básico;
Projetos de infraestrutura urbana.
Se o dinheiro acabar, a roda da economia para junto. Em 2024, por exemplo, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção estimou que 2 milhões de moradias e 6 milhões de empregos poderiam ter sido criados se os recursos estivessem preservados.
Fraudes internas
Como se não bastasse a corrosão financeira, fraudes internas ampliam a desconfiança. Investigações recentes apontaram que servidores da própria Caixa manipulavam sistemas como o Caixa Tem para liberar saques indevidos.
Esses episódios jogam contra a credibilidade do FGTS. Afinal, como confiar em um fundo que, além de render pouco, ainda sofre com desvios e má gestão?
O peso da política no cofre do trabalhador
Outro problema histórico é o uso político do fundo. Ao longo dos anos, governos de diferentes partidos enxergaram no FGTS uma espécie de cofre com finalidades múltiplas.
Em vez de proteger exclusivamente o trabalhador e financiar habitação popular, o fundo passou a ser usado como ferramenta de fomento político. Muitas vezes, obras de grande apelo eleitoral receberam prioridade, mesmo sem garantia de retorno sustentável.

O que sustenta o FGTS está se desfazendo
Quando o presidente da Caixa admite que a engrenagem pode parar, é porque os pilares que sustentavam o fundo estão se esfarelando.
Menos empregos formais significam menos contribuições.
Mais saques recorrentes drenam a liquidez.
Inflação persistente corrói o saldo dos trabalhadores.
Gestão politizada enfraquece o propósito original.
O cenário é preocupante porque o FGTS nasceu para ser uma rede de proteção, mas hoje se parece com uma corda bamba: depende de poucos, rende pouco e sustenta muito.
Projetos de lei querem dividir ainda mais o bolo
Se a situação já é delicada, no Congresso Nacional tramitam dezenas de projetos que pretendem usar o FGTS para finalidades novas.
Entre eles:
Educação: custear mensalidades, materiais didáticos ou intercâmbios (PL 3371/2020).
Saúde: liberar saques para tratamentos médicos, cirurgias específicas e doenças raras (PL 510/2022, PL 1709/2023 e PL 272/2023).
Acessibilidade: financiar equipamentos e tecnologias assistivas para pessoas com deficiência (PL 1713/2023).
Embora todos tenham mérito social, cada real retirado do FGTS é um real a menos para financiar habitação e saneamento. A conta não fecha.
A fala que escancarou a crise
Carlos Vieira, presidente da Caixa, não deixou espaço para interpretações otimistas:
“Recentemente, tivemos um projeto de lei que trazia a possibilidade de usar o recurso do FGTS para indenização em casos de assédio ou violência doméstica. Reconhecemos a importância. Mas, se aprovado, tiraria R$ 70 bilhões do fundo. Isso significa menos recursos para o propósito principal.”
O tom da fala é claro: não se trata de falta de empatia, mas de realismo financeiro. O FGTS não tem capacidade infinita.

Um fundo cercado por dilemas
O FGTS vive um dilema existencial. Ao mesmo tempo em que precisa proteger o trabalhador, também sustenta políticas públicas de habitação e saneamento.
Agora, com propostas de expansão para áreas como saúde e educação, o fundo corre o risco de virar um cobertor curto demais. Quando cobre a cabeça, descobre os pés.
O que pode acontecer daqui para frente
Se nenhuma medida for tomada, especialistas alertam que o FGTS pode entrar em colapso em poucos anos. Isso significaria:
Trabalhadores com saldos insuficientes para enfrentar o desemprego;
Programas habitacionais sem recursos para novas moradias;
Obras de saneamento e infraestrutura paradas;
Redução drástica da confiança na Caixa e no sistema de proteção social.
O fundo que nasceu em 1966 como poupança compulsória e instrumento de financiamento pode, ironicamente, deixar de cumprir ambos os papéis.
O trabalhador no meio do furacão
No fim das contas, o maior prejudicado é o trabalhador. Ele deposita mensalmente, vê o dinheiro render menos que a inflação e ainda corre o risco de perder a proteção em caso de crise maior.
É como pagar um seguro de carro que não cobre acidentes graves. Você continua desembolsando, mas não tem garantias reais.
