Pé-de-Meia Licenciaturas paga R$ 1.050 por mês, cria poupança obrigatória e tenta frear evasão nos cursos de formação de professores
Em um país onde o acesso ao ensino superior ainda reflete desigualdades profundas, permanecer na universidade se tornou um desafio tão grande quanto ingressar nela. Para milhares de jovens, especialmente aqueles vindos da escola pública, a rotina acadêmica é atravessada por jornadas de trabalho, dificuldades financeiras e pela constante incerteza sobre o futuro. Nesse cenário, políticas públicas voltadas à permanência estudantil ganham protagonismo e passam a ser decisivas para definir quem consegue concluir a graduação.
É nesse contexto que surge o Pé-de-Meia Licenciaturas, programa do Ministério da Educação (MEC) que combina apoio financeiro mensal, poupança condicionada e incentivo direto à carreira docente. Voltado a estudantes ingressantes em cursos presenciais de licenciatura, o programa garante um pagamento de R$ 1.050 por mês, funcionando como um suporte concreto para custear a vida universitária e, ao mesmo tempo, como uma estratégia de médio prazo para enfrentar a escassez de professores na educação básica.
Como funciona o pagamento de R$ 1.050 por mês
O valor mensal do Pé-de-Meia Licenciaturas é dividido em duas partes, com finalidades distintas:
R$ 700 ficam disponíveis para saque imediato, permitindo que o estudante utilize o recurso para despesas essenciais, como transporte, alimentação, materiais didáticos, aluguel ou apoio à renda familiar.
R$ 350 são depositados em uma poupança vinculada ao programa, que não pode ser sacada imediatamente. Esse valor só será liberado no futuro, desde que o beneficiário cumpra os critérios definidos pelo MEC após a conclusão do curso.
Essa estrutura busca equilibrar dois objetivos: garantir condições reais de permanência durante a graduação e criar um compromisso de longo prazo com a carreira docente.
A contrapartida exigida pelo MEC
Diferentemente de bolsas tradicionais, o Pé-de-Meia Licenciaturas está integrado ao programa Mais Professores para o Brasil e impõe uma contrapartida clara. Para ter acesso ao valor acumulado na poupança, o estudante precisa ingressar como professor em uma rede pública de ensino em até cinco anos após a formatura.
Caso o beneficiário não cumpra essa exigência dentro do prazo estipulado, o montante acumulado na poupança não poderá ser sacado. A medida busca atacar um dos principais gargalos da educação brasileira: a falta de professores formados e dispostos a atuar na educação básica, especialmente em áreas estratégicas.
Quem pode participar do Pé-de-Meia Licenciaturas
Para ter direito ao benefício, o estudante precisa cumprir três requisitos principais:
Ter obtido nota igual ou superior a 650 pontos no Enem;
Ser aprovado pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu);
Efetivar matrícula em um curso presencial de licenciatura.
Após a matrícula, o estudante ainda precisa realizar o cadastro específico no programa, etapa indispensável para começar a receber os pagamentos mensais.
Inscrições via Sisu em 2026
Em 2026, o Sisu ofertará 73.630 vagas em cursos presenciais de licenciatura, distribuídas em instituições federais e estaduais de todas as regiões do país. As inscrições ocorrem entre 19 e 23 de janeiro, exclusivamente pelo Portal Único de Acesso ao Ensino Superior.
Cursos como pedagogia, matemática, ciências biológicas, história e geografia concentram a maior parte das vagas. Uma das principais novidades desta edição é o critério de seleção: o sistema passará a considerar automaticamente a maior nota obtida pelo candidato nas três últimas edições do Enem (2023, 2024 e 2025).
A mudança amplia as chances de ingresso, elimina a necessidade de refazer o exame apenas para melhorar a pontuação e torna o processo mais inclusivo.
A evasão nos cursos de licenciatura
O lançamento do Pé-de-Meia Licenciaturas responde a um problema estrutural antigo. Dados do Inep mostram que os índices de evasão nos cursos de formação de professores são alarmantes. Em pedagogia, cerca de 53% dos estudantes abandonam o curso antes da conclusão. Em áreas como física, esse percentual pode chegar a 73%.
Pesquisas internacionais, como o Pisa, também indicam que apenas 3% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam interesse em seguir a carreira docente. A combinação de baixos salários, condições de trabalho precárias e falta de valorização social afasta novos talentos da profissão.
Com o incentivo financeiro mensal, o governo aposta na redução do abandono, no aumento da permanência e na atração de estudantes com melhor desempenho acadêmico. Em 2025, o número de alunos de alto rendimento matriculados em licenciaturas cresceu 60%, sinalizando os primeiros impactos da política.
O Pé-de-Meia do ensino médio continua em 2026
Paralelamente ao Pé-de-Meia Licenciaturas, o governo mantém em 2026 o programa Pé-de-Meia voltado a estudantes do ensino médio público, com estrutura própria de incentivos financeiros.
Estrutura de valores em 2026
O programa segue com quatro tipos de incentivos:
Incentivo-Matrícula: R$ 200,00 (parcela única anual, paga em março);
Incentivo-Frequência: R$ 1.800,00 por ano, pagos em 9 parcelas de R$ 200,00 entre abril e dezembro, para estudantes com frequência mínima de 80%;
Incentivo-Conclusão: R$ 1.000,00 por ano, depositados em conta poupança e liberados apenas após a conclusão do ensino médio;
Incentivo-Enem: R$ 200,00 pagos em parcela única para alunos do 3º ano que comprovarem participação nos dois dias do exame.
Calendário do Pé-de-Meia em 2026
Em janeiro de 2026, não há pagamento do Incentivo de Frequência, já que ele é referente aos meses letivos. O ciclo de pagamentos começa com o Incentivo-Matrícula, pago em março.
Calendário previsto – Incentivo de Matrícula 2026
Nascidos em janeiro e fevereiro: 24 de março de 2026
Nascidos em março e abril: 25 de março de 2026
Nascidos em maio e junho: 26 de março de 2026
Nascidos em julho e agosto: 27 de março de 2026
Nascidos em setembro e outubro: 30 de março de 2026
Nascidos em novembro e dezembro: 31 de março de 2026
O valor de R$ 200 é depositado diretamente na conta Caixa Tem do estudante.
Quem tem direito ao Pé-de-Meia do ensino médio
O programa é destinado a estudantes:
Com idade entre 14 e 24 anos;
Matriculados no ensino médio público;
Com famílias inscritas no Cadastro Único, com prioridade para beneficiários do Bolsa Família.
A consulta sobre elegibilidade e status dos pagamentos pode ser feita pelo aplicativo Jornada do Estudante, do MEC.
Como o dinheiro é movimentado
Toda a movimentação dos valores ocorre exclusivamente pelo aplicativo Caixa Tem. Estudantes menores de 18 anos precisam que o responsável legal autorize a movimentação da conta no primeiro acesso.
Caso o estudante tenha sido aprovado em 2025, o valor do Incentivo-Conclusão referente ao ano anterior será depositado na poupança interna, mas só poderá ser sacado após a conclusão total do ensino médio.
