Se alguém dissesse há alguns anos que um dos maiores bancos digitais do planeta permitiria usar criptomoedas para pagar o cafezinho da manhã, muitos chamariam isso de loucura. Mas cá estamos: o Nubank, gigante das finanças digitais na América Latina, está prestes a dar um passo que pode sacudir todo o mercado financeiro.
Durante o evento Meridian 2025, o vice-presidente do Nubank, Roberto Campos Neto — sim, o ex-presidente do Banco Central — confirmou que o banco está desenvolvendo um projeto para permitir pagamentos com stablecoins diretamente no cartão de crédito. E não, isso não é ficção científica. É um plano real, com direito a programa de testes e tudo.
Agora, se você está pensando: “Mas espera aí… stablecoin? Cartão de crédito? Como isso funciona?” — calma, vamos por partes.
Antes de tudo: o que são stablecoins?
Stablecoins são criptomoedas lastreadas em ativos estáveis, como o dólar. Ou seja, enquanto o Bitcoin pode subir e cair como uma montanha-russa, as stablecoins, como USDT (Tether) e USDC (USD Coin), têm como objetivo manter valor próximo de 1 dólar.
Isso significa que 1 USDT ≈ 1 dólar. Nem mais, nem menos (pelo menos na teoria). Por isso, elas viraram queridinhas de quem quer a agilidade das criptos, mas sem aquele frio na barriga causado pela volatilidade.
E adivinha? É exatamente esse tipo de moeda digital que o Nubank quer trazer para o seu cartão de crédito.
O que o Nubank está planejando
Segundo Campos Neto, o projeto começa com um programa piloto, onde alguns clientes poderão pagar suas compras usando stablecoins atreladas ao dólar, mas com a experiência tradicional do cartão Nubank.
Imagine: você vai a uma cafeteria, passa o cartão roxinho como sempre… mas, por trás dos bastidores, em vez de reais, são stablecoins que pagam a conta.

O executivo explicou que o grande desafio dos bancos é encontrar formas de aceitar depósitos tokenizados e usar esses ativos digitais como base para crédito. Ou seja, não é só sobre pagar uma pizza, mas sobre criar um sistema financeiro onde dinheiro digital e crédito tradicional convivem em harmonia.
Por que isso importa tanto?
Hoje, a maioria das pessoas compra criptomoedas para guardar, não para gastar. Campos Neto mesmo disse no evento:
“Os dados mostram que as pessoas não compram cripto para transacionar, mas para guardar valor.”
Isso acontece porque, em tempos de incerteza econômica, muita gente vê nas stablecoins uma forma de proteger o patrimônio contra a inflação ou desvalorização da moeda local.
Na América Latina, isso faz total sentido:
Brasil: 90% das operações com cripto em 2024 estavam ligadas a stablecoins, segundo o Banco Central.
Argentina: com inflação acima de 100%, mais de 70% das compras de cripto foram em USDT e USDC, diz a exchange Bitso.
Venezuela: 47% das transações abaixo de US$ 10 mil foram em stablecoins, segundo a Chainalysis.
Ou seja, a demanda já existe. O que falta? Ferramentas fáceis para usar essas moedas no dia a dia.
Nubank e o namoro com as criptomoedas
Se você acha que o Nubank está chegando agora no universo cripto, está enganado. O banco já tem um histórico interessante:
2022: comprou 1% do patrimônio líquido em Bitcoin e lançou negociação de cripto no aplicativo.
2025: adicionou moedas como Cardano (ADA), Cosmos (ATOM), Near Protocol (NEAR) e Algorand (ALGO)na plataforma.
Ou seja, o projeto com stablecoins é mais um capítulo dessa estratégia de inovação que o banco vem construindo nos últimos anos.

Como deve funcionar na prática
Embora o Nubank ainda não tenha dado todos os detalhes, especialistas apontam um possível caminho:
Depósito de stablecoins no app Nubank, vinculado à conta do cliente.
Conversão automática para pagamentos via cartão de crédito.
Integração com redes de pagamento tradicionais, como Mastercard ou Visa, para aceitação global.
Isso significa que, na frente do caixa, nada muda para o lojista. Mas, nos bastidores, a transação passa pelo universo cripto.
O impacto para o mercado financeiro
Se der certo, o movimento pode abrir as portas para uma nova era de serviços bancários:
Pagamentos internacionais mais baratos: sem taxas absurdas de conversão.
Crédito lastreado em ativos digitais: permitindo novos tipos de empréstimos e financiamentos.
Integração total entre cripto e bancos: algo que hoje ainda é limitado e cheio de barreiras regulatórias.
E, claro, isso pode pressionar outros bancos a seguirem o mesmo caminho.
Mas e a regulamentação?
Ah, aí está a cereja do bolo. O Brasil já tem uma das legislações mais avançadas para cripto na América Latina, mas ainda existem muitas zonas cinzentas.
Para pagamentos com stablecoins via cartão, será preciso garantir:
Conformidade com o Banco Central e normas de combate à lavagem de dinheiro.
Segurança das transações, para evitar golpes e perdas.
Transparência na conversão entre stablecoins e moeda fiduciária.
Campos Neto, pela experiência no Banco Central, provavelmente sabe bem onde estão os obstáculos e como contorná-los.
Por que isso pode mudar tudo
Se o Nubank conseguir integrar stablecoins de forma simples e segura, podemos ver:
Mais pessoas adotando cripto sem nem perceber que estão usando.
Redução de custos para transações internacionais e remessas.
Expansão do crédito para pessoas que hoje têm acesso limitado a serviços financeiros.
E, de quebra, o Nubank pode sair na frente dos concorrentes, ganhando milhões de clientes que querem modernidade sem abrir mão da simplicidade.
O que esperar dos próximos passos
Por enquanto, o projeto começa pequeno, com testes. Mas, se seguir o histórico do Nubank, pode ganhar escala rapidamente. Foi assim com o cartão de crédito sem anuidade, com a conta digital e até com os investimentos no app.
Se tudo der certo, talvez em alguns anos seja tão comum pagar com stablecoins quanto é usar o Pix hoje.
