Um edifício residencial de 10 andares, completamente equipado com janelas, sacadas, instalações elétricas e hidráulicas, foi montado em 28 horas e 45 minutos na China e voltou a chamar a atenção de engenheiros e especialistas em construção ao redor do mundo. O método utiliza módulos estruturais produzidos integralmente em fábrica e transportados para o local da obra, onde são encaixados com auxílio de guindastes, reduzindo drasticamente o tempo de montagem quando comparado às técnicas convencionais.
Desenvolvida pela empresa chinesa Broad Group, a tecnologia representa uma das principais apostas da construção modular em aço. Mais do que impressionar pela velocidade, o sistema reacendeu discussões sobre produtividade, sustentabilidade, resistência a terremotos e o futuro das grandes cidades em um cenário de crescente demanda por moradias.
Os detalhes do método foram apresentados em um vídeo publicado pelo canal Tecno Lab 360, que explica como a industrialização da construção civil pode alterar profundamente a forma como edifícios são projetados e executados nas próximas décadas.
Uma tragédia levou ao desenvolvimento de uma nova forma de construir
A origem da tecnologia remonta ao terremoto que atingiu a província chinesa de Sichuan, em 12 de maio de 2008.
Com magnitude de aproximadamente 8 graus, o desastre provocou a morte de dezenas de milhares de pessoas e destruiu escolas, hospitais e milhares de edifícios.
Segundo o Tecno Lab 360, o episódio levou Zhang Yue, fundador da Broad Group, a questionar os métodos tradicionais da construção civil.
Em vez de concentrar todas as etapas no canteiro de obras, a empresa decidiu transferir praticamente todo o processo produtivo para uma gigantesca fábrica.
Hoje, a unidade industrial ocupa cerca de 230 mil metros quadrados, área equivalente a mais de 30 campos oficiais de futebol, onde apartamentos inteiros passam a ser montados antes mesmo de seguirem para o terreno definitivo.
Como funciona o sistema modular
Diferentemente das obras convencionais, em que concreto, aço, blocos e demais materiais chegam separadamente ao canteiro, a construção modular utiliza grandes módulos tridimensionais praticamente finalizados.
Segundo o vídeo do Tecno Lab 360, cada unidade já deixa a fábrica com paredes, pisos, janelas, sacadas, tubulações hidráulicas, instalações elétricas e sistemas de ventilação integrados.
Quando chegam ao terreno, os módulos são posicionados por guindastes e conectados por parafusos estruturais de alta resistência.
A comparação feita pelo canal ajuda a entender a lógica do sistema.
“Se a construção tradicional é como cozinhar ao ar livre, preparando tudo na hora, a Broad funciona como uma cozinha industrial.”
Esse modelo reduz significativamente retrabalhos, desperdícios de materiais e falhas comuns em obras convencionais.
O cronômetro de 28 horas não conta toda a história
Embora o vídeo mostre um edifício sendo montado em menos de 29 horas, o próprio canal faz uma importante ressalva.
Esse tempo corresponde apenas à fase de montagem dos módulos no terreno.
Antes disso, houve meses de planejamento, fabricação industrial, execução das fundações, logística de transporte e preparação da infraestrutura necessária para receber a estrutura.
Em outras palavras, a velocidade impressionante observada nas imagens representa apenas a etapa final de um processo muito mais amplo.
Segundo o Tecno Lab 360, a verdadeira inovação está justamente em substituir grande parte do trabalho executado no canteiro por uma linha de produção industrial altamente controlada.
Estrutura em aço promete maior resistência sísmica
Um dos principais argumentos apresentados pela Broad Group está relacionado ao comportamento estrutural do aço.
Enquanto o concreto apresenta elevada resistência à compressão, o aço possui maior ductilidade, característica que permite absorver deformações sem ruptura imediata.
Essa propriedade é especialmente valorizada em regiões sujeitas a terremotos.
Segundo especialistas em engenharia estrutural, edifícios metálicos tendem a dissipar melhor parte da energia sísmica quando corretamente dimensionados, reduzindo o risco de colapsos catastróficos.
Por essa razão, construções em aço já são amplamente utilizadas em países como Japão, Estados Unidos e Nova Zelândia, locais frequentemente atingidos por tremores de terra.
Promessa de durabilidade chama atenção
Outro aspecto que despertou curiosidade foi a estimativa de vida útil apresentada pela empresa.
Segundo a Broad Group, suas estruturas poderiam permanecer em operação por até mil anos, graças ao rigoroso controle de qualidade durante a fabricação e à possibilidade de inspeção periódica das conexões metálicas.
Essa estimativa, porém, deve ser interpretada com cautela.
Na engenharia, a durabilidade de uma construção depende de diversos fatores, como manutenção preventiva, proteção contra corrosão, condições ambientais, uso da edificação e eventuais reformas ao longo do tempo.
Por isso, especialistas costumam considerar que a longevidade de qualquer estrutura depende muito mais da conservação do que apenas do material utilizado.
Construção modular cresce em vários países
O avanço desse tipo de tecnologia não ocorre apenas na China.
Segundo estudos do McKinsey Global Institute, a industrialização da construção civil é uma das principais tendências mundiais para aumentar a produtividade de um setor que historicamente apresenta ganhos de eficiência inferiores aos observados em outras indústrias.
Países como Singapura, Suécia, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos vêm ampliando o uso de componentes industrializados em projetos residenciais, hospitais, hotéis e edifícios corporativos.
Além da redução dos prazos, a construção modular costuma diminuir desperdícios de materiais e facilitar o controle de qualidade das obras.
Impressão 3D disputa espaço na construção civil
Durante o vídeo, o Tecno Lab 360 também apresenta outra tecnologia que vem ganhando espaço no setor: a impressão 3D de edificações.
Nesse sistema, grandes impressoras depositam sucessivas camadas de concreto ou materiais cimentícios até formar paredes e elementos estruturais.
Empresas chinesas e europeias já utilizam esse método para construir casas populares, galpões industriais e pequenos edifícios.
Embora utilizem tecnologias diferentes, impressão 3D e construção modular compartilham o mesmo objetivo: tornar as obras mais rápidas, previsíveis e menos dependentes de processos tradicionais executados manualmente.
Debate vai além da engenharia
Apesar dos avanços tecnológicos, o modelo ainda desperta questionamentos entre arquitetos e urbanistas.
Uma das críticas mais frequentes envolve a padronização das edificações.
Especialistas alertam que a repetição excessiva de módulos pode gerar conjuntos urbanos visualmente homogêneos, reduzindo a diversidade arquitetônica das cidades.
Também existem desafios regulatórios.
Em muitos países, normas técnicas, códigos de obras e processos de aprovação ainda foram desenvolvidos pensando principalmente em construções de concreto armado, exigindo adaptações para permitir maior utilização dos sistemas industrializados.
Vídeo mostra como os módulos são montados
Em vídeo publicado no canal Tecno Lab 360 (veja abaixo), imagens detalham todas as etapas da montagem do edifício de 10 andares, desde a fabricação dos módulos até o encaixe final realizado por grandes guindastes.
Durante a apresentação, o canal explica por que a construção modular em aço vem sendo considerada uma das principais apostas para enfrentar o déficit habitacional em diversos países e discute os desafios técnicos, econômicos e urbanos que ainda precisam ser superados antes que esse modelo se torne dominante na construção civil mundial.
