Imposto de Renda: A péssima notícia que Lula recebeu após proposta da isenção para quem ganha até R$5 mil

A proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais a partir de 2026, anunciada como um passo em direção à justiça fiscal, foi duramente criticada por especialistas e por um novo estudo do Centro de Liderança Pública (CLP).

A análise da entidade suprapartidária alerta para riscos de distorções econômicas, perda de arrecadação e reforço a desigualdades já presentes no sistema tributário brasileiro.

Péssima notícia para o governo Lula na isenção do Imposto de Renda

A má notícia para o Palácio do Planalto é que, segundo o estudo assinado por Daniel Duque, da Inteligência Técnica do CLP, a proposta precisa ser “repensada”, pois pode acabar causando mais problemas do que benefícios. De acordo com a entidade, ao invés de tornar o sistema mais justo, a medida pode aprofundar a regressividade da carga tributária e onerar ainda mais a produção e o consumo — que já sofrem com uma tributação excessiva no Brasil.

O texto destaca: “Apesar de o objetivo de aliviar a carga tributária para as faixas de renda mais baixas ser louvável, é preciso considerar o contexto mais amplo do sistema tributário brasileiro. O País já se destaca de forma negativa por depender menos do Imposto de Renda do que outras nações.”

O que diz a proposta de isenção até R$ 5 mil?

A proposta do governo Lula prevê que, a partir de 2026, trabalhadores com renda mensal de até R$ 5 mil fiquem totalmente isentos do pagamento do Imposto de Renda. Estima-se que cerca de 10 milhões de brasileiros deixariam de pagar o tributo. Além disso, o governo propõe uma faixa de isenção parcial para rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.

Para compensar a perda de arrecadação, a equipe econômica quer tributar os chamados “super ricos”, ou seja, pessoas com rendimentos superiores a R$ 50 mil mensais, o equivalente a R$ 600 mil por ano.

Especialistas veem riscos na proposta

Segundo o CLP, o Imposto de Renda deveria ser usado como uma ferramenta de progressividade — ou seja, cobrar proporcionalmente mais de quem ganha mais —, mas o Brasil vai na contramão. O país tributa menos a renda e mais o consumo, o que penaliza os mais pobres.

O estudo ressalta que a ampliação da faixa de isenção do IR beneficiará, em sua maioria, os 32% da população com rendimentos mais altos, já que cerca de 70% dos trabalhadores ganham até dois salários mínimos e já são isentos ou pagam pouco imposto atualmente. Isso significa que a proposta tem pouco impacto prático para a maior parte dos brasileiros.

“Expandir ainda mais a isenção pode aprofundar o desequilíbrio na arrecadação de um tributo que, em muitos lugares do mundo, é fundamental para a progressividade do sistema. A medida reforça uma distorção histórica do sistema tributário brasileiro”, alerta o documento.

Dados da Receita Federal  mostram que o Brasil tributa menos a renda que outros países. E a proposta do governo Lula não altera o peso dessa tributação.
Dados da Receita Federal mostram que o Brasil tributa menos a renda que outros países. E a proposta do governo Lula não altera o peso dessa tributação. Foto: Reprodução

Bitributação e impactos para empresas

Outro ponto criticado no estudo é a proposta de tributar dividendos como forma de compensar a isenção do IR. A entidade alerta para o risco de bitributação, já que os lucros das empresas já são tributados por meio da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), que representa cerca de 7% da arrecadação federal.

Segundo o CLP, ao tributar os dividendos sem uma contrapartida de redução na CSLL, o governo estaria onerando duas vezes a mesma base de arrecadação, o que pode gerar insegurança jurídica e afastar investimentos.

Além disso, a alta carga tributária sobre salários continua sendo uma das maiores do mundo, desestimulando a contratação formal e incentivando a informalidade — outro ponto crítico destacado no estudo.

Governo admite falhas na progressividade

Durante um debate na Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), o secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Marcos Pinto, reconheceu que a proposta ainda não resolve o problema da progressividade.

“A gente ainda precisa chegar na discussão da progressividade no Brasil. Infelizmente, uma parcela muito pequena da população paga menos imposto que a grande maioria dos brasileiros. E a gente precisa corrigir isso”, afirmou o secretário.

Pinto também citou estudo do IPEA que mostra que a carga tributária efetiva de quem ganha mais de R$ 1 milhão por ano no Brasil é de apenas 13%, enquanto nos Estados Unidos é de 30%. “Não estamos falando de um país socialista”, ironizou.

Alternativas mais eficazes, segundo o CLP

O CLP sugere que, em vez de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda, o governo poderia focar em medidas com maior impacto distributivo. Entre as alternativas, estão:

  • Redução da alíquota do novo imposto sobre o consumo, que tende a ser uma das maiores do mundo;

  • Alívio da carga sobre a folha de pagamentos, estimulando a formalização de empregos;

  • Adoção de faixas de tributação mais justas no IR, com isenções verdadeiramente focadas em quem ganha menos.

Segundo a entidade, essas medidas promoveriam um sistema mais progressivo e equilibrado, beneficiando as camadas mais vulneráveis da população sem penalizar a produção ou reforçar distorções já existentes.

Reação do mercado e da sociedade civil

A proposta de Lula gerou reações mistas entre economistas, empresários e parlamentares. Enquanto parte do Congresso vê com bons olhos o alívio para a classe média, especialistas em política fiscal alertam para os impactos na arrecadação e o risco de comprometer investimentos em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.

Entidades da sociedade civil também demonstraram preocupação com a falta de equilíbrio da proposta. Para elas, o debate sobre justiça fiscal precisa ir além da isenção do IR e abordar a estrutura desigual do sistema como um todo.

Considerações finais

A proposta de ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda para até R$ 5 mil mensais — uma das principais promessas de campanha de Lula — está longe de ser consenso. Embora busque aliviar a carga tributária para a classe média, o plano pode acabar agravando distorções históricas do sistema tributário brasileiro, segundo alerta do CLP.

A péssima notícia para o governo é que, além das críticas técnicas, a proposta corre o risco de não gerar os efeitos esperados para a população mais pobre, que já é majoritariamente isenta. Ao mesmo tempo, pode comprometer a arrecadação, reduzir a competitividade das empresas e dificultar o avanço de uma reforma tributária verdadeiramente progressiva.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.