Governo propõe mudança nas regras do lucro presumido e aumento de 10% na base de cálculo do IRPJ e da CSLL: entenda como o projeto pode elevar a carga tributária das empresas de médio porte, afetar comércio, serviços e indústria, e por que o Simples Nacional ficará de fora das alterações

Na última semana, o governo federal encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei que altera significativamente o regime do lucro presumido, modalidade de tributação utilizada por cerca de 1,5 milhão de empresas de médio porte no Brasil. A proposta prevê elevar em 10% a base de cálculo do IRPJ (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica) e da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), o que deve resultar em maior carga tributária para firmas que faturam até R$ 78 milhões por ano.

Segundo a equipe econômica, a medida faz parte de uma estratégia mais ampla para reduzir benefícios fiscais e aumentar a arrecadação federal. A proposta, no entanto, mantém intocado o Simples Nacional, regime que concentra 22,4 milhões de micro e pequenas empresas. Assim, o impacto recairá quase exclusivamente sobre negócios de médio porte nos setores de comércio, serviços e indústria.

Origem e função do lucro presumido

O regime do lucro presumido surgiu nos anos 1990, durante as reformas econômicas do governo Fernando Henrique Cardoso. O objetivo era simplificar a cobrança de impostos, reduzir custos com contabilidade e incentivar a formalização de empresas.

Diferente do lucro real, que exige escrituração contábil detalhada e cálculo com base no resultado efetivo da empresa, o lucro presumido utiliza uma margem fixa de presunção sobre o faturamento bruto. Para serviços, por exemplo, a alíquota é atualmente de 32%. Isso significa que, mesmo que o lucro real da empresa seja maior ou menor, os impostos incidem sobre esse percentual pré-definido.

Essa simplificação permitiu que milhares de empresas regularizassem suas operações, contribuindo para o aumento da arrecadação e para a redução da informalidade.

Diferença entre lucro presumido e lucro real

A distinção entre os dois regimes é central para entender o impacto da proposta.

  • Lucro Real: mais complexo, exige escrituração contábil completa e auditorias constantes. Os impostos incidem sobre o lucro líquido efetivo da empresa, após todas as deduções de custos e despesas. É considerado justo, mas burocrático.

  • Lucro Presumido: simples e previsível, aplica margens fixas de tributação. Para muitas empresas, mesmo pagando um pouco mais, a praticidade compensa os custos.

No entanto, o governo avalia que em diversos setores, especialmente em serviços, o lucro real das empresas é superior à margem presumida de 32%. Isso resulta em renúncia fiscal, já que parte do lucro não entra na base tributável. É essa diferença que o novo projeto busca corrigir.

O que muda com a nova proposta

O projeto prevê elevação de 10% na base de cálculo. Para os serviços, a margem passa de 32% para 35,2% do faturamento. Apesar de parecer um reajuste modesto, especialistas alertam que o impacto será relevante no caixa das empresas.

Outro ponto destacado é o limite de faturamento do regime, fixado em R$ 78 milhões desde 2013, sem correção pela inflação. Isso significa que, na prática, mais empresas de médio porte podem ser “expulsas” do regime simplificado e obrigadas a migrar para o lucro real.

Críticas de tributaristas e empresários

Especialistas em direito tributário afirmam que a medida pode aumentar a pressão sobre empresas que já enfrentam custos elevados com mão de obra, insumos e burocracia.

Para o advogado Carlos Eduardo Navarro, do escritório GVNB Advogados, “o lucro presumido nunca foi apenas sobre economia tributária, mas também sobre simplificação administrativa. Essa praticidade pode ser comprometida com a mudança”.

Já o tributarista Hermano Barbosa, do BMA, lembra que, nos anos 1990, a criação do regime contribuiu para ampliar a base de arrecadação justamente porque reduziu barreiras para a formalização. Segundo ele, o risco agora é que a medida desestimule a adesão ou leve empresas a buscar alternativas mais complexas.

Impactos esperados no setor produtivo

Empresas de médio porte são fundamentais para a economia brasileira, especialmente nos setores de serviços e comércio. O aumento na carga tributária pode resultar em:

  • Repasse de custos ao consumidor final, encarecendo produtos e serviços.

  • Redução de investimentos, já que o caixa das empresas ficará mais pressionado.

  • Migração para o lucro real, com mais burocracia e custos contábeis.

  • Possível aumento da informalidade, caso empresas busquem escapar da maior tributação.

O argumento do governo

A equipe econômica defende que o corte linear de benefícios fiscais é necessário para corrigir distorções. Segundo o Ministério da Fazenda, manter regimes diferenciados cria desequilíbrios, beneficiando empresas que acabam pagando menos do que deveriam em relação ao seu lucro efetivo.

Além disso, a proposta está alinhada ao esforço de aumentar a arrecadação para financiar políticas sociais e reduzir o déficit público. O governo tem argumentado que o impacto será restrito, já que mais de 90% das empresas brasileiras estão no Simples Nacional, que não será alterado.

Resistência no Congresso

Apesar dos argumentos técnicos, parlamentares já indicaram que a proposta enfrentará resistência no Congresso Nacional. Deputados ligados ao setor produtivo afirmam que a medida pode desestimular o crescimento das empresas e comprometer a competitividade do mercado interno.

Comissões temáticas devem analisar o texto antes de sua votação em plenário. O debate promete ser intenso, uma vez que envolve diretamente o ambiente de negócios e a geração de empregos.

Perspectivas e próximos passos

Se aprovada, a mudança representará uma das maiores transformações no regime do lucro presumido em mais de 20 anos. Para empresários e contadores, o momento é de cautela e planejamento.

O setor produtivo avalia que a elevação da carga tributária pode comprometer a saúde financeira de empresas que já operam com margens apertadas. Por outro lado, o governo insiste que o ajuste é essencial para equilibrar as contas públicas e tornar o sistema tributário mais justo.

Enquanto o projeto tramita no Congresso, empresas seguem em compasso de espera, calculando o impacto que as novas regras podem ter em seus negócios. O certo é que o lucro presumido, regime que nasceu para simplificar e desburocratizar, está no centro de um novo embate tributário no Brasil.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.