Governo notifica mudanças no vale-alimentação e vale-refeição que podem atingir em cheio bolso de trabalhadores, donos de bares e restaurantes

O vale-alimentação e o vale-refeição fazem parte da vida de milhões de brasileiros. Quem nunca usou o famoso “ticket” para pagar aquele almoço no restaurante, a marmita na padaria ou até mesmo as compras no mercado? Pois é, o benefício é antigo, mas as regras que envolvem a forma como o dinheiro circula entre empresas, operadoras e comerciantes estão prestes a mudar.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, revelou na última segunda-feira (29) que o governo deve finalmente anunciar, em outubro, as alterações no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). A medida tem como foco principal limitar a taxa de desconto — conhecida no mercado como Merchant Discount Rate (MDR) — que bares, restaurantes e supermercados pagam para aceitar os cartões de vale.

A promessa de mudança já vinha desde maio, mas a novela se arrastou por meses. Agora, segundo Marinho, a decisão será tomada em conjunto com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, logo após seu retorno de uma viagem oficial.

Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho. Foto de © VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

O que está em jogo

Na prática, quando você passa o cartão de vale-refeição no restaurante, aquele estabelecimento não recebe o valor integral. As operadoras que administram os cartões ficam com uma parte, que pode variar de acordo com o contrato. Para muitos bares e restaurantes, esse desconto pesa — e bastante.

Além de cortar parte do faturamento, o repasse do dinheiro costuma demorar cerca de 30 dias. Isso significa que o restaurante precisa bancar as despesas do dia a dia enquanto espera o valor cair na conta. É quase como vender fiado para milhares de clientes de uma só vez.

Com a mudança, o governo quer reduzir tanto a taxa cobrada quanto o prazo de repasse, trazendo mais fôlego para quem vive de vender refeições no Brasil.

Por que o governo está se metendo nessa história?

O PAT não é apenas um programa de benefícios. Ele foi criado justamente para incentivar empresas a oferecerem alimentação aos trabalhadores, com benefícios fiscais em troca. Com o passar dos anos, virou também um grande negócio para as operadoras de cartões e para redes de alimentação.

O problema é que, segundo empresários, as taxas cobradas pelas administradoras ficaram abusivas e acabam sendo repassadas, de forma indireta, para o consumidor final. Afinal, se o restaurante perde parte do valor recebido, o preço do prato pode subir para compensar.

Ou seja: regular as taxas pode significar um prato mais barato para quem usa o vale e uma vida menos apertada para o dono do restaurante.

E os trabalhadores, o que ganham com isso?

Para quem recebe o vale, a mudança não deve alterar o valor do crédito em si. O impacto é indireto: se os restaurantes e mercados tiverem menos descontos para pagar e receberem mais rápido, há uma tendência de preços mais estáveis.

Outro ponto importante: o governo quer reforçar que o vale-alimentação deve ser usado exclusivamente para compra de comida. Houve tentativas recentes de flexibilizar o uso para outros produtos, mas a ideia perdeu força.

O papel do iFood e os entregadores

Durante a coletiva em que comentou sobre o vale, Marinho também falou sobre outro tema quente: o acordo com empresas de aplicativo de entrega, como o iFood.

O governo pretendia assinar um pacto de valorização das condições de trabalho de entregadores nesta segunda-feira, mas o evento foi adiado. O motivo? O Ministério do Trabalho quer ampliar a lista de empresas participantes para não restringir o acordo apenas ao iFood.

Segundo Marinho, a ideia é construir uma mesa de negociação mais ampla, envolvendo diferentes plataformas, para que as regras beneficiem de forma mais uniforme os trabalhadores de aplicativos.

Vale-alimentação no Brasil em 2025: como funciona hoje

Para completar esse cenário, vale entender como está o vale-alimentação em 2025:

  • Número de beneficiários: Cerca de 24 milhões de trabalhadores recebem vale-refeição ou vale-alimentação no Brasil, segundo dados do Ministério do Trabalho.

  • Valor médio: O benefício varia muito de acordo com a empresa, mas a média nacional gira em torno de R$ 600 a R$ 800 por mês. Em setores mais competitivos, como tecnologia, o valor pode superar os R$ 1.200.

  • Uso ampliado: O cartão pode ser aceito em mercados, padarias, açougues, hortifrutis e restaurantes credenciados. Porém, o uso continua restrito a gêneros alimentícios.

  • Tributação diferenciada: As empresas que participam do PAT recebem incentivos fiscais, o que estimula a adesão.

  • Discussão sobre ampliação: Há debates sobre modernizar o benefício para acompanhar novos hábitos de consumo, como compras de alimentos pela internet e delivery.

Por que as mudanças importam para o seu bolso

Imagine um trabalhador que recebe R$ 800 de vale-alimentação por mês. Esse valor é vital para fechar as contas e garantir as compras do mercado. Agora pense em um restaurante que vende 100 pratos por dia pagos com vale. Se ele perde até 6% desse valor em taxas, são centenas de reais por mês que deixam de entrar no caixa.

Essa equação mostra por que o tema mobiliza tanta gente: para o trabalhador, o vale é comida na mesa; para o empresário, é sobrevivência do negócio.

O que pode vir pela frente em outubro

Segundo o próprio ministro Luiz Marinho, a decisão está praticamente pronta e deve incluir:

  • Limitação da taxa de desconto para os estabelecimentos, tornando o mercado mais equilibrado.

  • Redução no prazo de repasse do dinheiro para bares, restaurantes e supermercados.

  • Regras mais claras sobre a utilização do benefício, reforçando que ele deve ser usado apenas para alimentação.

  • Possível criação de mecanismos de fiscalização, para garantir que as operadoras cumpram os novos prazos.

O peso político da decisão

Não dá para ignorar o peso político do anúncio. Ao mexer no vale-alimentação, o governo fala diretamente com três públicos importantes: trabalhadores, empresários e operadoras financeiras.

Para os trabalhadores, a mensagem é de defesa do poder de compra. Para os donos de restaurantes, é um alívio prometido. E para as operadoras de cartões, uma sinalização de que o governo não pretende deixar o mercado totalmente livre para cobrar o que quiser.

Expectativa alta e cobrança ainda maior

O fato é que o governo já tinha prometido anunciar as mudanças em maio, mas adiou. Agora, com a expectativa jogada para outubro, a pressão aumenta. Representantes de bares e restaurantes já deixaram claro que querem respostas rápidas.

Enquanto isso, os trabalhadores seguem atentos. Afinal, o vale-alimentação é um dos benefícios mais valorizados, especialmente em tempos de inflação alta nos alimentos.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.