Governo muda regras do saque-aniversário do FGTS e limita antecipações: veja como o novo teto de R$ 500 e a carência de 90 dias vão mudar sua vida financeira

Governo muda regras do saque-aniversário: entenda o impacto direto no bolso do trabalhador

O Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) aprovou na terça-feira (7) uma série de mudanças que prometem alterar completamente a forma como o saque-aniversário funciona.

As novas regras afetam principalmente quem utiliza o crédito com antecipação, e o governo argumenta que o objetivo é proteger os trabalhadores e o próprio fundo.

Agora, haverá um piso de R$ 100 e um teto de R$ 500 para o saldo passível de antecipação. Isso significa que o trabalhador poderá antecipar até cinco parcelas de R$ 500, em um período de 12 meses — totalizando R$ 2.500.

Além disso, quem aderir ao saque-aniversário precisará esperar 90 dias para efetuar a primeira operação de antecipação. Antes, essa transação podia ser feita imediatamente após a adesão.

Mas o que, na prática, muda na vida de milhões de brasileiros?

O que é o saque-aniversário do FGTS e como ele funciona

Criado em 2019, durante o governo Bolsonaro, o saque-aniversário é uma modalidade opcional que permite ao trabalhador sacar parte do saldo do FGTS todos os anos, no mês de seu aniversário.

O valor disponível é calculado com base em uma alíquota sobre o saldo total, acrescida de uma parcela adicional fixa, que varia conforme o montante acumulado.

Ao optar pelo saque-aniversário, o trabalhador abre mão do direito de sacar todo o saldo em caso de demissão sem justa causa, mantendo apenas o direito à multa rescisória de 40%.

O modelo foi criado como alternativa para movimentar a economia, mas acabou se transformando em uma verdadeira febre de crédito.

Por que o governo decidiu mudar as regras

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, as alterações têm como principal objetivo reduzir os riscos de endividamento e evitar o esvaziamento do FGTS.

O ministro Luiz Marinho não economizou críticas à modalidade. Ele classificou o saque-aniversário como uma “armadilha” para o trabalhador.

Em suas palavras:

“Ao ser demitida, a pessoa não pode sacar o saldo do seu FGTS — e demissões acontecem todos os dias. Hoje já temos 13 milhões de trabalhadores com valores bloqueados, que somam R$ 6,5 bilhões”, afirmou Marinho.

Com as mudanças, o governo estima que cerca de R$ 84,6 bilhões deixarão de ir para os bancos até 2030 e serão redirecionados aos trabalhadores.

Resumo prático: o que muda com as novas regras do saque-aniversário

AntesAgora
Era possível antecipar valores ilimitados do saldo disponívelLimite de R$ 500 por parcela, com máximo de cinco parcelas (R$ 2.500) por ano
Adesão e crédito podiam ser feitos no mesmo diaCarência de 90 dias após a adesão
Múltiplas operações simultâneas eram permitidasApenas uma operação por ano
Parte maior do saque ia para bancos70% do valor fica com o trabalhador e até 30% pode ir para quitar crédito
Sem limite mínimo de saquePiso fixado em R$ 100

Uma mudança que divide opiniões

A proposta recebeu apoio unânime do Conselho Curador do FGTS, mas dividiu opiniões entre trabalhadores e instituições financeiras.

De um lado, o governo e sindicatos defendem que a medida protege o fundo e o trabalhador. Do outro, os bancos alertam que o novo limite reduz o acesso a crédito fácil, o que pode afetar o consumo.

Para o governo, no entanto, o modelo anterior favorecia o endividamento. O Ministério afirma que muitos trabalhadores usavam a antecipação para despesas de curto prazo — inclusive jogos online —, reduzindo o saldo de proteção em caso de desemprego.

Quantos trabalhadores aderiram e quanto já foi antecipado

Desde 2020, o saque-aniversário movimentou R$ 236 bilhões em operações de crédito.

Dos 42 milhões de trabalhadores com contas ativas no FGTS, cerca de 21,5 milhões (51%) optaram pela modalidade.

Desses, 70% fizeram operações de antecipação com bancos.

Ou seja, o crédito vinculado ao saque-aniversário se tornou um dos maiores produtos financeiros do país, impulsionado principalmente por taxas de juros mais baixas que as de empréstimos pessoais comuns.

Limite de uma operação por ano: o que muda na prática

A partir de agora, o trabalhador só poderá fazer uma antecipação por ano.

Antes, era comum que pessoas com saldos maiores fizessem diversas operações simultâneas, o que, segundo o governo, gerava “fuga de recursos” do FGTS.

Na prática, isso significa que o trabalhador precisará planejar melhor quando e quanto pretende antecipar, evitando o uso recorrente do fundo como linha de crédito.

Carência de 90 dias: fim do crédito imediato

Outro ponto importante é o prazo de carência de 90 dias após a adesão ao saque-aniversário.
Hoje, cerca de 26% das operações são concedidas no mesmo dia da adesão, o que deixará de acontecer.

Com o novo prazo, o governo quer reduzir o uso impulsivo do crédito e evitar que o saque-aniversário se torne uma forma de “empréstimo de emergência”.

A medida, segundo técnicos do Conselho, incentiva o trabalhador a planejar o uso do benefício, em vez de utilizá-lo de forma imediata e sem necessidade.

Quem poderá sacar e quem fica de fora

As novas regras não afetam quem mantém o FGTS na modalidade tradicional.

Apenas os trabalhadores que aderirem ao saque-aniversário poderão sacar parte do saldo todos os anos.

Quem pode sacar:

  • Trabalhadores que aderirem voluntariamente ao saque-aniversário;

  • Aqueles que não tiverem operações de crédito em andamento;

  • Pessoas com saldo suficiente para cobrir a parcela de saque.

Quem não pode sacar:

  • Quem não aderiu à modalidade;

  • Quem possui empréstimos de antecipação ativos;

  • Trabalhadores que foram demitidos e ainda têm valores bloqueados por crédito ativo.

O trabalhador continua podendo sacar todo o saldo ao ser demitido?

Não.

Ao aderir ao saque-aniversário, o trabalhador perde o direito ao saque total do FGTS em caso de demissão sem justa causa.

Ele recebe apenas a multa de 40%, enquanto o saldo permanece bloqueado.

Essa regra continua igual, e é um dos principais motivos de crítica à modalidade.

Segundo o ministro Luiz Marinho, o governo chegou a estudar o fim do saque-aniversário, mas a proposta não avançou no Congresso.

Quando as novas regras entram em vigor

As mudanças valem assim que a Caixa Econômica Federal — gestora do FGTSadequar seus sistemas, o que deve ocorrer até 1º de novembro.

Ou seja, a partir dessa data, quem aderir ao saque-aniversário já estará sujeito às novas condições de limite de valor, carência e número de operações.

O governo desistiu de acabar com o saque-aniversário?

Sim.

O Ministério do Trabalho chegou a propor o fim da modalidade, alegando prejuízo à função original do FGTS, que é garantir segurança financeira em situações como demissão, aposentadoria ou compra da casa própria.

No entanto, o projeto enfrentou resistência no Congresso Nacional.

Sem apoio político, o governo recuou e optou por reformular as regras, em vez de extinguir o saque-aniversário.

Segundo Luiz Marinho, “não há ambiente político para encerrar o programa neste momento, mas ele pode voltar a ser discutido futuramente”.

Quanto do saque fica com o trabalhador

Pelas novas regras, 70% do valor do saque ficará com o trabalhador, enquanto até 30% poderá ser usado para quitar o crédito antecipado, caso o trabalhador tenha feito essa operação com o banco.

Segundo o governo, essa mudança inverte a lógica atual, em que boa parte do valor beneficiava as instituições financeiras.

Com isso, R$ 86 bilhões deixarão de ir para os bancos até 2030.

Crédito mais controlado e foco na sustentabilidade do FGTS

O Conselho Curador afirmou que o objetivo é restabelecer o equilíbrio entre o uso individual e o papel social do FGTS.

O fundo é responsável por investimentos em habitação popular, saneamento básico e infraestrutura urbana, e o aumento das antecipações vinha reduzindo os recursos disponíveis para esses setores.

Com as novas limitações, a expectativa é que o FGTS recupere sua capacidade de investimento, sem prejudicar a liquidez necessária para atender aos trabalhadores.

O saque-aniversário acabou?

Não.

O saque-aniversário continua existindo, e o trabalhador pode continuar optando por ele se desejar.

As mudanças atingem apenas a parte do crédito com antecipação — ou seja, quem utiliza o saldo do FGTS como garantia para empréstimos.

Quem preferir pode permanecer no saque tradicional, acessando o FGTS apenas em situações previstas em lei, como:

  • Demissão sem justa causa;

  • Aposentadoria;

  • Compra de imóvel;

  • Doenças graves;

  • Falecimento do titular (para os herdeiros).

E se eu quiser sair do saque-aniversário?

O trabalhador pode solicitar o retorno à modalidade tradicional a qualquer momento, mas a mudança só passa a valer após 25 meses.

Durante esse período, ele ainda receberá os saques anuais, conforme o calendário de aniversário.

Nova alternativa de crédito: o consignado privado com garantia do FGTS

Para substituir a antecipação, o governo está incentivando o crédito consignado privado, que utiliza o FGTS apenas como garantia parcial.

Nesse modelo, o trabalhador pode comprometer até 10% do saldo do FGTS e 100% da multa rescisória de 40% como garantia.

Embora a taxa média seja mais alta — 3,79% ao mês em agosto, contra 1,86% da antecipação —, o consignado mantém o saldo livre, permitindo que o trabalhador acesse o FGTS em caso de demissão.

Segundo o governo, a ideia é oferecer crédito com mais segurança e menos risco de bloqueio.

O que o governo quer com essas medidas

O Ministério do Trabalho afirma que as novas regras:

  • Reduzem o endividamento de curto prazo;

  • Evitam bloqueios de saldo em demissões;

  • Reforçam o papel social do FGTS;

  • Desestimulam o uso indevido do fundo, inclusive para apostas online e gastos imediatos.

Luiz Marinho reforçou que a ideia é “tirar o trabalhador da armadilha da antecipação fácil” e preservar o fundo como patrimônio coletivo.

Como essas mudanças afetam os bancos

As instituições financeiras, que lucravam com os empréstimos vinculados ao FGTS, devem perder espaço com as novas regras.

Entre 2020 e 2025, os bancos movimentaram R$ 236 bilhões apenas com operações de antecipação — um volume considerado elevado pelo Conselho Curador.

Com o limite anual de R$ 2.500 e a carência de 90 dias, a expectativa é de queda significativa no volume de crédito.

Mesmo assim, o governo não pretende eliminar o papel dos bancos.

A ideia é equilibrar os interesses entre instituições financeiras e trabalhadores, reduzindo abusos e garantindo sustentabilidade.

E o trabalhador, afinal, sai ganhando ou perdendo?

Depende.

Para quem usava o saque-aniversário de forma planejada, as novas regras podem restringir o acesso ao crédito rápido.

Mas, para a maioria — especialmente os 90% que ganham até quatro salários mínimos —, a mudança pode ser positiva, já que protege o saldo em caso de desemprego.

Na prática, o governo quer que o saque-aniversário deixe de ser um “empréstimo disfarçado” e volte a cumprir sua função original: oferecer um alívio financeiro anual, sem comprometer o futuro do trabalhador.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.