O aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros reacendeu um debate sensível sobre o futuro da economia nacional. A sobretaxa, que chega a 50% em itens estratégicos, foi vista não apenas como uma medida comercial, mas como reflexo direto da falta de diálogo entre Brasília e Washington.
Quem chama atenção para o problema é Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco do BRICS, que afirma: sem articulação política e pragmatismo, o Brasil corre o risco de perder bilhões em investimentos e empregos, além de espaço em um dos mercados mais importantes do planeta.
EUA: maior mercado consumidor e parceiro crucial
Apesar do crescimento da China e do dinamismo de outras economias emergentes, os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do mundo, com um PIB de mais de US$ 25 trilhões. Além disso, o país é destino-chave de exportações brasileiras, sobretudo em setores como alimentos, bebidas, máquinas e aeronaves.
Segundo Troyjo, o Brasil não pode se dar ao luxo de adotar uma postura passiva. “Não se trata de abaixar a cabeça”, ressalta. “É questão de pragmatismo: sem diálogo direto com a Casa Branca, ficamos de fora das mesas de negociação que realmente importam.”

O peso das tarifas sobre o Brasil
As tarifas americanas afetam setores que são pilares da balança comercial brasileira. Entre os mais impactados estão:
Carne bovina e de frango – que perderam competitividade frente a concorrentes como México e Austrália.
Café – tradicional produto de exportação, que agora enfrenta sobretaxas que reduzem margens de lucro.
Máquinas e equipamentos – essenciais para a indústria, agora encarecidos nos EUA.
Por outro lado, alguns produtos conseguiram escapar da medida, como suco de laranja e aeronaves, graças à articulação direta de empresas brasileiras com compradores e autoridades norte-americanas. Esse exemplo, segundo especialistas, mostra que quando há coordenação, é possível reduzir danos.
O contraste com outros países
Enquanto o Brasil se limitou a enviar cartas protocolares ao governo norte-americano, países como México, Índia e Suíça adotaram outra estratégia: enviaram ministros, diplomatas e até chefes de Estado a Washington para abrir canais de negociação.
O resultado é claro. Esses países, mesmo enfrentando tarifas, conseguiram incluir setores sensíveis em listas de exceçõesou, pelo menos, negociar prazos mais suaves para implementação. O Brasil, por sua vez, reforça a imagem de isolamento político e perde espaço em um jogo onde a diplomacia pesa tanto quanto os números.
O componente político das tarifas
De acordo com Troyjo, é impossível entender a decisão norte-americana apenas sob a ótica econômica. Há um pano de fundo político claro.
Os EUA vivem um momento de forte pressão interna, marcado pela disputa com China e Rússia em vários campos: tecnológico, militar e comercial. Nesse cenário, países que demonstram retórica considerada “antiamericana” acabam enfrentando medidas duras, mesmo que sejam parceiros relevantes.
A Índia é um exemplo emblemático. Mesmo pagando tarifas de até 25%, segue constantemente em diálogo com Washington, evitando ser tratada como adversária. Já o Brasil, até agora, não conseguiu abrir uma frente política eficaz, e corre o risco de ficar preso em um corredor polonês tarifário até 2026, ano em que tanto Brasil quanto EUA terão novos ciclos eleitorais.
O risco de perder investimentos
Além das perdas no comércio, há uma ameaça ainda maior: a fuga de investimentos.
Os EUA são historicamente um dos maiores investidores no Brasil, com participação em setores estratégicos como energia, tecnologia, agronegócio e aviação. Caso a tensão comercial se prolongue, empresas norte-americanas podem redirecionar aportes para outros países, considerados mais alinhados politicamente.
Isso teria impacto direto sobre a geração de empregos, a inovação e a competitividade da economia brasileira. “Investimento estrangeiro não é só dinheiro, é transferência de tecnologia, acesso a cadeias globais e capacidade de competir em nível mundial”, reforça Troyjo.
Caminhos para reduzir danos
Especialistas apontam que a saída passa por dois eixos principais: articulação privada e diplomacia ativa.
Pressão do setor privado – Empresas brasileiras que dependem do mercado norte-americano precisam se mobilizar, atuando em conjunto com parceiros e compradores nos EUA. Esse tipo de estratégia já funcionou no passado, garantindo exceções tarifárias para setores estratégicos.
Restauração de canais políticos – O Brasil precisa retomar canais de comunicação de alto nível com Washington, mesmo em um ambiente de divergências ideológicas. A história mostra que, em momentos críticos, negociações específicas são possíveis e podem salvar setores inteiros da economia.
O pragmatismo necessário
Para Troyjo e outros analistas, a questão não é de alinhamento ideológico, mas de pragmatismo diplomático. Mesmo quando há diferenças políticas, países mantêm diálogo para proteger interesses comerciais e estratégicos.
“O Brasil precisa entender que não existe espaço para isolamento em um mundo interconectado. O comércio exterior não é só balança de exportações, mas também projeção internacional. Sem diálogo, perdemos competitividade e relevância”, destaca o ex-presidente do Banco do BRICS.
Consequências para empregos e competitividade
Se nada for feito, o impacto não ficará restrito às estatísticas de exportação. A sobretaxa sobre carne, café e máquinas pode levar ao fechamento de plantas industriais, redução de postos de trabalho e perda de competitividade frente a rivais globais.
Com margens de lucro cada vez menores, muitas empresas brasileiras podem preferir reduzir sua presença nos EUA ou até migrar para outros mercados, menos lucrativos, mas mais estáveis. Isso representaria bilhões de dólares a menos na economia brasileira e perda de espaço no maior mercado consumidor do planeta.
Decisão estratégica para o futuro
O debate em torno das tarifas americanas mostra que não estamos diante apenas de uma questão comercial. Trata-se de uma decisão estratégica sobre o posicionamento global do Brasil.
O país pode continuar isolado, reagindo de forma protocolar às medidas externas, ou pode adotar uma postura mais pragmática, negociando diretamente com os EUA e defendendo seus interesses de forma ativa.
Em um cenário de disputas geopolíticas intensas, a neutralidade passiva pode sair muito cara. Para especialistas, o momento é de ação imediata: abrir diálogo com Washington, envolver o setor privado e buscar alternativas antes que os danos se tornem irreversíveis.
