Quando o Tribunal de Contas da União (TCU) solta um relatório sobre o Bolsa Família, já dá para imaginar que vem coisa grande por aí. E desta vez não foi diferente. O documento, divulgado nesta semana, trouxe uma mistura de alerta, cobrança e até um toque de frustração com a forma como o programa mais famoso de transferência de renda do Brasil vem sendo administrado.
Em bom português: o TCU colocou o dedo na ferida. Falou de falhas na fiscalização, na gestão, nos critérios técnicos e, para completar, lançou dúvidas sobre o futuro do benefício em 2026, já que o governo ainda não confirmou se vai aumentar os valores pagos às famílias.
E quem tem NIS final de 0 a 9 — ou seja, praticamente todo mundo que recebe — ficou com a pulga atrás da orelha: será que o dinheiro vai dar para tudo?
O tal do “apetite a risco” que ninguém sabia que existia
Uma das partes mais curiosas do relatório do TCU foi a crítica à falta de algo chamado “apetite a risco”. Calma, não tem nada a ver com comida nem com investimento.
Esse termo, em programas sociais, significa basicamente: quantos erros o governo está disposto a aceitar antes que o programa saia do controle?
Por exemplo:
Erro de inclusão: quando alguém recebe sem ter direito.
Erro de exclusão: quando alguém que deveria receber fica de fora.
O TCU diz que o Bolsa Família não tem esse limite bem definido. E isso é um problemão, porque sem esse número, fica impossível saber se o programa está sendo justo ou se o dinheiro está indo parar nas mãos erradas — ou deixando de chegar a quem realmente precisa.
Falhas nas prefeituras: o efeito dominó do programa
O governo federal é quem paga o Bolsa Família, mas a verificação das condições das famílias é feita pelas prefeituras. É aí que o bicho pega.
Segundo o relatório, mais de 90% dos municípios brasileiros não fizeram o número mínimo de visitas domiciliares entre 2019 e 2023. E por que isso importa?
Porque sem essas visitas, o Cadastro Único — que é a base do programa — pode ficar desatualizado. E com dados desatualizados, as chances de erro disparam.
As razões para tantas falhas?
Falta de pessoal treinado.
Alta rotatividade de entrevistadores.
Pouca capacitação técnica.
Apoio federal insuficiente.
É como tentar administrar um prédio gigante sem síndico, sem zelador e com moradores mudando toda hora. O caos é quase inevitável.
O Benefício Complementar e a matemática que não fecha
Outro ponto que o TCU trouxe à tona foi o tal do Benefício Complementar, criado em 2023 para garantir que todas as famílias recebam no mínimo R$ 600,00 por mês.
A ideia parecia boa. Só que, na prática, gerou distorções: famílias pequenas acabam recebendo mais por pessoa do que famílias grandes. Ou seja, o valor não é proporcional ao tamanho da família, o que acaba sendo injusto para quem tem mais bocas para alimentar.
O TCU foi além: calculou que, se o benefício fosse ajustado corretamente, daria para economizar até 9,1% do orçamento anual ou reduzir a pobreza em 7,2% com o mesmo dinheiro.
Isso é o tipo de número que deixa qualquer gestor público de cabelo em pé.
O impacto para 2026: aumento ou aperto?
Agora vem a parte que todo mundo quer saber: vai ter aumento no Bolsa Família em 2026?
Por enquanto, a resposta é: ninguém sabe. O governo não confirmou nada e ainda está analisando o relatório do TCU.
O que complica é que o espaço fiscal para gastar está mais apertado do que nunca. O novo arcabouço fiscal, que limita os gastos públicos, não deixa muita margem para aumentos expressivos.
Além disso, a arrecadação não tem crescido como o governo esperava. E sem dinheiro novo entrando, qualquer reajuste pode significar cortes em outras áreas.
Parlamentares já começaram a pressionar para que pelo menos haja uma correção pela inflação, mas até isso está em aberto.

A promessa do governo: resposta até outubro
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, responsável pelo Bolsa Família, disse que vai responder ao TCU até o fim de outubro.
Entre as possíveis mudanças estão:
Revisão do Benefício Complementar.
Mais apoio técnico para as prefeituras.
Definição clara sobre os tais erros aceitáveis.
Mas, por enquanto, tudo ainda está no campo das promessas. E, enquanto isso, os beneficiários seguem sem saber se vão poder contar com mais dinheiro no ano que vem.
Por que tudo isso importa para quem tem NIS final 0 a 9
Pode parecer que essas discussões são distantes da realidade de quem recebe o Bolsa Família, mas não são.
Se não houver aumento em 2026, na prática, o benefício vai perder valor por causa da inflação. É como se você continuasse ganhando a mesma quantia, mas o preço do arroz, do feijão e da conta de luz só aumentassem.
Além disso, os erros na fiscalização e nas visitas domiciliares podem fazer com que:
Famílias que precisam fiquem de fora.
Famílias que não precisam continuem recebendo.
Ou seja, tanto a justiça social quanto a eficiência do programa ficam comprometidas.
O que dizem os especialistas
Economistas e assistentes sociais ouvidos pela imprensa apontam que o governo precisa resolver três problemas principais:
Definir o apetite a risco: para saber exatamente o tamanho do erro aceitável.
Melhorar a fiscalização: garantindo dados atualizados e visitas domiciliares regulares.
Rever o Benefício Complementar: para torná-lo mais justo e eficiente.
Sem isso, o Bolsa Família corre o risco de continuar gastando muito sem atingir todos os objetivos para os quais foi criado.
O dilema do governo: gastar mais ou gastar melhor?
Esse é o ponto central da discussão.
De um lado, há pressão para aumentar o valor do Bolsa Família, principalmente porque a inflação corrói o poder de compra das famílias.
De outro, o TCU alerta que há dinheiro sendo mal utilizado por falta de gestão eficiente.
O governo vai ter que decidir se coloca mais dinheiro no programa ou se primeiro conserta as falhas apontadas. Talvez precise fazer as duas coisas ao mesmo tempo — e aí é que mora a dificuldade.
Ainda não entendeu tudo? Veja as perguntas mais frequentes sobre esse assunto
1. O que o TCU revelou sobre o Bolsa Família?
O Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou um relatório apontando falhas na fiscalização, na atualização dos cadastros e na forma como o programa distribui os recursos. Um dos pontos mais críticos foi a falta de critérios claros para definir erros aceitáveis, como famílias que recebem sem ter direito ou famílias que deveriam receber e ficam de fora.
2. O valor do Bolsa Família vai aumentar em 2026?
Ainda não há confirmação oficial. O governo federal disse que vai analisar o relatório do TCU e deve se posicionar até o fim de outubro. Porém, com o orçamento apertado e as regras do novo arcabouço fiscal, não está garantido um aumento significativo — no máximo, fala-se em uma correção pela inflação.
3. Quem recebe Bolsa Família com NIS final de 0 a 9 será afetado?
Sim. Como todos os pagamentos são feitos conforme o número final do NIS, qualquer mudança no valor, no calendário ou nas regras impacta diretamente todos os beneficiários, independentemente do número final.
4. Por que o TCU criticou o Benefício Complementar?
O Benefício Complementar garante que todas as famílias recebam no mínimo R$ 600, mas o TCU apontou que isso gera distorções: famílias pequenas recebem proporcionalmente mais por pessoa do que famílias grandes. A corte disse que, se o valor fosse ajustado de forma justa, o governo poderia economizar recursos ou ampliar o combate à pobreza sem gastar mais.
5. Qual é o problema com as visitas domiciliares?
Mais de 90% das prefeituras não cumpriram a meta mínima de visitas domiciliares entre 2019 e 2023. Sem essas visitas, o Cadastro Único — base do Bolsa Família — pode ficar desatualizado, o que aumenta o risco de erros e fraudes no pagamento do benefício.
6. O que é “apetite a risco” e por que isso é importante?
“Apetite a risco” é o termo usado para definir qual é o nível aceitável de erros em um programa social. No Bolsa Família, não há um limite claro para erros de inclusão (quem recebe sem ter direito) ou de exclusão (quem tem direito e não recebe). Sem esse parâmetro, o governo não sabe exatamente onde precisa melhorar para evitar injustiças.
7. O relatório do TCU significa que o Bolsa Família pode acabar?
Não. O Bolsa Família continua sendo o principal programa de transferência de renda do Brasil e é considerado essencial para milhões de famílias. O relatório aponta falhas que precisam ser corrigidas para que o programa funcione melhor, mas não há qualquer indicação de que ele será encerrado.
8. Qual é a posição do governo sobre o relatório?
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social disse que vai responder oficialmente até o fim de outubro e que estuda mudanças para melhorar a gestão, como mais apoio técnico às prefeituras e possível revisão do Benefício Complementar.
9. O que pode mudar no Bolsa Família em 2026?
Algumas possibilidades estão sendo discutidas:
Correção do valor pela inflação.
Revisão do Benefício Complementar para torná-lo mais justo.
Regras mais claras para evitar erros no pagamento.
Melhoria na fiscalização e no apoio aos municípios.
10. O que isso tudo significa para quem recebe o benefício?
Na prática, os beneficiários podem enfrentar duas situações:
Se houver aumento ou correção, o valor pode subir, mas depende do espaço no orçamento federal.
Se as regras forem ajustadas, pode haver mudanças na forma como o benefício é calculado ou concedido, afetando diretamente quem recebe hoje.
11. Quando teremos uma resposta definitiva?
O governo prometeu um posicionamento até o fim de outubro. Só então será possível saber se o valor do Bolsa Família será reajustado em 2026 e quais mudanças serão feitas na gestão do programa.
