O governo federal reduziu oficialmente a projeção do salário mínimo para 2026, passando de R$ 1.631 para R$ 1.627. A atualização, enviada ao Congresso Nacional pelo Ministério do Planejamento, reflete o comportamento mais moderado da inflação ao longo de 2025, especialmente na estimativa do INPC, indicador usado exclusivamente para definir o piso salarial nacional.
A princípio, essa alteração parece pequena. No entanto, ela impacta diretamente aposentadorias, pensões, benefícios sociais e o próprio poder de compra da população, que já enfrenta meses de forte pressão sobre alimentos e serviços.
Antes de mais nada, é importante entender por que o valor caiu. Segundo o Planejamento, a prévia da inflação medida pelo IPCA-15 subiu apenas 0,20% em novembro, acumulando 4,5% nos últimos 12 meses, dentro do teto da meta do Conselho Monetário Nacional. Esse comportamento mais controlado da inflação também deve se refletir no INPC, que será divulgado no dia 10 e definirá o reajuste final.
Ou seja, quanto menor a inflação do INPC, menor será o reajuste do salário mínimo para o ano seguinte.
Regra atual de reajuste explica a redução na estimativa
O piso nacional não é definido de forma aleatória. Desde a retomada da política de valorização, o governo aplica uma fórmula clara que combina inflação e crescimento econômico. Em primeiro lugar, o cálculo considera:
A inflação do INPC acumulada até novembro de 2025
O crescimento real do PIB de 2024
Esse modelo garante reposição inflacionária e ganho real anual. Contudo, existe um limite: o aumento real não pode superar 2,5%, conforme o novo arcabouço fiscal.
Por isso, mesmo que o PIB de 2024 tenha desempenho robusto, o percentual adicional tem teto definido.
A nova estimativa indica que a soma desses componentes resultará em um reajuste aproximado de 7,2% sobre o salário mínimo atual, de R$ 1.518, chegando aos R$ 1.627 projetados.
Impacto direto no INSS, BPC e na despesa pública
Antes de mais nada, é essencial destacar que o salário mínimo é a base para diversos pagamentos obrigatórios do governo. Entre eles:
Aposentadorias e pensões do INSS
Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas)
Seguro-desemprego
Abono salarial
Auxílio-reclusão
Quando a projeção do salário mínimo recua, como aconteceu agora, o impacto imediato é redução de gastos projetados no Orçamento Federal.
Entretanto, o Ministério do Planejamento informou que não pediu corte automático nesses benefícios na nova proposta orçamentária. Em outras palavras, caberá ao Congresso decidir se haverá ou não ajustes para alinhar a despesa às novas projeções.
Segundo a pasta, “a projeção menor tende a reduzir o gasto total, mas a atualização depende de outros fatores, como a variação da base de beneficiários”.
Assim, ainda não há qualquer impacto confirmado nas folhas de pagamento do INSS.
Valor ainda não é oficial: definição só sai no fim de 2025
Apesar de estar no documento enviado ao Congresso, o valor de R$ 1.627 ainda não está confirmado. Isso ocorre porque:
O INPC final de 2025 será divulgado apenas em dezembro
O PIB de 2024 ainda passará por revisões
O governo pode ajustar a projeção ao longo da tramitação do Orçamento
Ou seja, trata-se de uma estimativa técnica, não de um valor final.
A confirmação do salário mínimo de 2026 sempre é anunciada oficialmente em dezembro do ano anterior — neste caso, dezembro de 2025.
Diferença cresce quando comparada ao salário mínimo ideal do DIEESE
Enquanto o governo projeta um salário mínimo de R$ 1.627, estudos mostram que esse valor está longe de garantir o padrão mínimo previsto na Constituição.
O DIEESE calcula mensalmente o chamado salário mínimo necessário, baseado no custo da cesta básica mais alta do país e nas despesas essenciais de uma família de quatro pessoas.
Os números mais recentes impressionam:
Outubro de 2025: R$ 7.116,83
Maio de 2025: R$ 7.528,56
Assim, mesmo com valorização anual, o salário mínimo brasileiro representa apenas cerca de 20% do valor considerado ideal para cobrir alimentação, moradia, educação, lazer, transporte e demais necessidades básicas.
Essa diferença evidencia o desafio histórico enfrentado pelos trabalhadores de baixa renda e pelos beneficiários do INSS, que dependem exclusivamente do mínimo.
Por que o salário mínimo é tão importante para o Brasil?
O salário mínimo funciona como uma âncora econômica e social. Ao longo das últimas décadas, o piso nacional:
Sustentou o consumo interno
Reduziu a pobreza em ciclos de aumento real
Movimentou pequenos comércios e serviços
Garantiu previsibilidade às famílias beneficiárias do INSS
Quando o reajuste fica abaixo do esperado, seus efeitos se espalham por toda a economia, especialmente em regiões onde a renda média é mais baixa.
Além disso, programas sociais como BPC, Benefício Variável Familiar (Bolsa Família) e abonos possuem regras indexadas ao mínimo.
Portanto, qualquer alteração — para cima ou para baixo — modifica o planejamento financeiro de milhões de famílias.
O que esperar nos próximos meses
Em primeiro lugar, o indicador crucial será o INPC de dezembro, divulgado no início de 2026. Ele definirá a reposição inflacionária oficial. Até lá, o governo pode atualizar suas projeções conforme novos dados forem publicados.
A princípio, especialistas avaliam que o valor final poderá ficar próximo da estimativa apresentada agora. Contudo, ainda existem muitos fatores em aberto:
Inflação de serviços
Revisões do PIB
Pressões do mercado de trabalho
Custo crescente da cesta básica
Em outras palavras, a projeção de R$ 1.627 é sólida, mas ainda sujeita a ajustes.
