O governo federal revisou a projeção do salário mínimo para 2026, trazendo um número que afeta diretamente aposentados, trabalhadores e milhões de beneficiários de programas sociais. A proposta mais recente indica um piso de R$ 1.627, valor que substitui a estimativa anterior de R$ 1.631 enviada ao Congresso no orçamento preliminar.
O novo cálculo representa um aumento aproximado de 7,18% sobre o mínimo atual, que está fixado em R$ 1.518 desde janeiro de 2025. Embora o reajuste esteja acima da inflação acumulada, especialistas destacam que o ganho real continua limitado pela regra fiscal vigente, que determina teto de 2,5% para aumentos reais até 2027.
Esse limite foi implementado como parte do arcabouço fiscal, numa tentativa de equilibrar a expansão das despesas obrigatórias com o controle de gastos públicos. Na prática, a fórmula reduz a margem para aumentos expressivos no salário mínimo, mesmo em períodos de inflação elevada ou perda significativa do poder de compra.
Reajuste impacta muito mais que o salário dos trabalhadores
O valor do salário mínimo não influencia apenas o rendimento de trabalhadores formais. Ele também serve de referência direta para:
Aposentadorias e pensões do INSS que recebem um salário mínimo
Benefício de Prestação Continuada (BPC)
Seguro-desemprego
Abono salarial PIS/Pasep
Programas assistenciais que utilizam renda per capita como critério
Assim, um reajuste menor alivia o caixa do governo, mas repercute imediatamente no bolso da população que depende desses benefícios. Por outro lado, um aumento mais robusto amplia o gasto público, tornando o equilíbrio fiscal mais difícil.
No caso do INSS, por exemplo, mais de 60% dos beneficiários recebem exatamente um salário mínimo. Cada aumento de poucos reais na base impacta bilhões de reais no orçamento anual da Previdência.
Como o governo calcula o novo salário mínimo
A política atual segue duas etapas:
Reposição da inflação medida pelo INPC acumulado até novembro
Acréscimo do ganho real, limitado a 2,5%, baseado no crescimento do PIB de dois anos anteriores
Para 2026, o governo aplicou essa fórmula, chegando ao valor estimado de R$ 1.627. A confirmação, contudo, depende de dois fatores:
fechamento da inflação oficial de 2025
aprovação final do orçamento pelo Congresso Nacional
Até lá, o número serve como base para cálculos, planejamento financeiro e análise de impacto econômico.
É possível viver com um salário mínimo? Debate volta ao centro das discussões
Mesmo com o reajuste de 2025 — que fixou o piso em R$ 1.518 após aumento nominal de 7,5% —, muitos trabalhadores já relataram dificuldades para cobrir as despesas básicas. Com o valor proposto para 2026, a discussão se intensifica.
Os principais fatores que pressionam o orçamento das famílias são:
alta contínua das cestas básicas nas capitais
aumento de tarifas de serviços essenciais
reajuste de aluguel acima da inflação em diversas regiões
custos de transporte urbano
despesas com saúde e medicamentos
O cenário é ainda mais difícil para famílias que dependem exclusivamente do mínimo.
Salário mínimo ideal deveria ser de R$ 7.156,15, segundo o DIEESE
Enquanto o governo discute ajustes dentro do limite fiscal, o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) publica mensalmente o cálculo do salário mínimo necessário. Esse valor tem como base o artigo 7º da Constituição, que determina que o salário mínimo deve cobrir integralmente necessidades essenciais de um trabalhador e sua família.
Entre os itens considerados estão:
alimentação
moradia
saúde
educação
vestuário
higiene
transporte
lazer
previdência
Para outubro de 2025, o DIEESE estimou que o salário mínimo ideal deveria ser de R$ 7.156,15, valor 4,7 vezes maiorque o mínimo oficial vigente em 2025.
Esse cálculo utiliza a cesta básica mais cara entre 17 capitais analisadas. Em cidades como São Paulo e Florianópolis, por exemplo, o custo da cesta ultrapassou os R$ 800, o que pressiona diretamente a defasagem entre o mínimo atual e o ideal.
A diferença reforça o argumento de economistas e entidades de que o piso oficial cobre apenas parte das despesas essenciais, obrigando famílias inteiras a depender de trabalhos informais, programas sociais e renda complementar.
Por que o salário mínimo ideal chega a mais de R$ 7 mil?
O valor elevado calculado pelo DIEESE não é aleatório. Ele reflete o custo real de vida no país considerando uma família de quatro pessoas.
Os principais motivos para o salto estão relacionados a:
1. Alimentação mais cara
A alimentação representa a maior parte da cesta básica. Com alta de preços em vários alimentos essenciais — carne, arroz, leite, frutas e legumes —, o impacto final do cálculo aumenta rapidamente.
2. Moradia com custos elevados
Aluguel, água, energia e gás subiram acima da inflação em diversas regiões metropolitanas, comprimindo o orçamento familiar.
3. Transporte e saúde pesando mais no orçamento
Ônibus, metrô, consultas médicas e medicamentos registraram aumentos contínuos ao longo de 2024 e 2025.
4. Despesas escolares e materiais
O DIEESE inclui educação e materiais básicos, que também estão mais caros em várias capitais.
Assim, o salário mínimo ideal ultrapassa R$ 7 mil porque considera um padrão de vida digno, não apenas o valor mínimo para sobrevivência.
Impactos do salário mínimo no orçamento público
Apesar de necessário para a população, o aumento do piso nacional tem reflexo direto nas contas do governo. Quanto maior o reajuste, maior o impacto financeiro em:
benefícios assistenciais
folhas de pagamento
piso de servidores
transferências constitucionais
despesas previdenciárias
Por isso, qualquer mudança envolve cálculos complexos e depende da capacidade fiscal do país.
A projeção de R$ 1.627 para 2026 procura equilibrar perda de poder de compra, limites do arcabouço fiscal e sustentabilidade orçamentária.
