Por muito tempo, existia uma regra quase “sagrada”: para ter direito à estabilidade provisória no emprego após um acidente ou doença relacionada ao trabalho, era preciso ficar afastado por mais de 15 dias e ainda receber o auxílio-doença acidentário. Sem isso, não havia estabilidade, nem conversa.
Só que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) resolveu chacoalhar essa tradição. Com a tese 125, a Corte decidiu que a estabilidade pode ser reconhecida mesmo sem o afastamento de 15 dias, desde que fique comprovado o nexo causal ou concausal entre a doença ocupacional e o trabalho — mesmo que isso seja descoberto só depois do contrato terminar.
Na prática, isso significa que o famoso “tempo mínimo” deixou de ser o passaporte obrigatório para a estabilidade. O foco agora está na comprovação da doença e na relação dela com o trabalho.
Por que o TST decidiu mudar a regra?
O principal motivo é simples: nem todas as doenças aparecem de um dia para o outro. Muitas têm efeitos tardios, acumulativos ou de difícil diagnóstico.
Imagine alguém que trabalhou anos exposto a produtos químicos e só desenvolveu uma doença meses depois de sair da empresa. Antes, sem o afastamento e o auxílio-doença, essa pessoa ficaria sem estabilidade. Agora, com a tese 125, se houver comprovação do nexo entre a doença e o trabalho, a estabilidade é garantida.
O TST quis dar mais proteção para casos assim, onde a burocracia não acompanhava a realidade.
Mas calma: não é estabilidade automática para todo mundo
Se você está achando que qualquer doença ou acidente agora garante estabilidade, não é bem assim.
A decisão do TST não transforma pequenos acidentes em passaporte para estabilidade. Cortes leves, escoriações sem impacto real ou doenças sem nenhuma prova de relação com o trabalho continuam fora da proteção.
Para ter direito, é preciso demonstrar três pontos principais:
Existência da doença ou sequela – Tem que estar comprovado por laudos médicos.
Nexo causal ou concausal – É preciso provar que o trabalho causou ou contribuiu para a doença.
Impacto na capacidade de trabalho – Se a doença não reduz a capacidade de trabalho, não há estabilidade.
Sem esses requisitos, a proteção não se aplica.
Doenças ocupacionais x acidentes de menor gravidade
Um ponto importante da decisão é que ela está muito mais ligada a doenças ocupacionais do que a acidentes leves.
Doenças ocupacionais podem surgir devagar, serem silenciosas ou ter relação com exposição prolongada. Já acidentes leves normalmente não deixam sequelas ou não exigem afastamento prolongado.
Por isso, o TST deixou claro que a tese 125 serve para proteger quem realmente precisa, sem banalizar o instituto da estabilidade.
O que diz exatamente a tese 125
O enunciado aprovado pelo TST é bem direto:
“Para fins de garantia provisória de emprego prevista no artigo 118 da Lei 8.213/1991, não é necessário o afastamento por período superior a 15 dias ou a percepção de auxílio-doença acidentário, desde que reconhecido, após a cessação do contrato de trabalho, o nexo causal ou concausal entre a doença ocupacional e as atividades desempenhadas no curso da relação de emprego.”
Traduzindo: não precisa dos 15 dias nem do auxílio-doença, mas precisa provar a relação entre doença e trabalho.
Impacto para as empresas: mais atenção e prevenção
Com essa decisão, as empresas terão que redobrar os cuidados com a saúde ocupacional.
Antes, se o trabalhador não cumpria os 15 dias afastado e não tinha auxílio-doença acidentário, a empresa ficava mais tranquila. Agora, o risco jurídico aumentou, porque a estabilidade pode ser reconhecida até depois do desligamento, se aparecer uma doença relacionada ao trabalho.
Isso significa que as empresas precisam:
Investir em programas de prevenção;
Fazer exames periódicos nos funcionários;
Manter registros detalhados das condições de trabalho;
Melhorar a comunicação entre RH, segurança do trabalho e jurídico.
A falta de documentação pode fazer a empresa perder na Justiça.
Impacto para os trabalhadores: mais proteção e menos burocracia
Para os trabalhadores, a decisão é uma boa notícia. Antes, a estabilidade dependia muito do que o INSS dizia. Agora, a Justiça do Trabalho pode reconhecer o direito mesmo sem o benefício previdenciário.
Isso protege quem descobre a doença depois de sair da empresa ou não consegue afastamento longo pelo INSS, mas tem provas médicas de que ficou doente por causa do trabalho.
No entanto, o trabalhador precisa guardar laudos, exames e documentos. Sem provas, não adianta só alegar.
A colisão entre TST e INSS
Essa mudança criou uma tensão entre a Justiça do Trabalho e o INSS.
O INSS sempre usou os 15 dias e o auxílio-doença acidentário como porta de entrada para a estabilidade. O TST, ao flexibilizar essa regra, pode gerar situações em que o trabalhador não tem o benefício previdenciário, mas consegue estabilidade pela Justiça do Trabalho.
Isso deve aumentar os debates entre os dois sistemas e pode levar a mais processos discutindo nexo causal.
A importância da prova pericial
Com a tese 125, a prova médica e pericial ganhou muito mais importância.
Se antes bastava contar os dias afastado e verificar o auxílio, agora o juiz vai olhar para exames, laudos e histórico clínico. A decisão deixou claro que não basta alegar, é preciso provar tecnicamente a doença e sua relação com o trabalho.
Advogados terão papel estratégico
Para advogados, a decisão do TST abre espaço para mais discussões técnicas.
O conceito de distinguishing — mostrar que o caso tem características próprias que o diferenciam do padrão — será essencial.
Cada caso terá que ser analisado em detalhes: tipo de doença, tempo de exposição, exames realizados e impacto na capacidade de trabalho.
Por que a decisão não banaliza a estabilidade
O TST quis deixar claro que a estabilidade não é um prêmio, e sim uma proteção para quem realmente precisa se recuperar.
Sem incapacidade real ou doença relacionada ao trabalho, não existe direito à estabilidade. Isso evita que a decisão seja usada para transformar qualquer problema de saúde em motivo para reintegração.
O futuro das relações trabalhistas com a tese 125
Com a mudança, é provável que vejamos:
Mais processos discutindo nexo causal;
Empresas investindo mais em prevenção para evitar passivos trabalhistas;
Trabalhadores com mais chances de garantir estabilidade quando houver doenças ocupacionais comprovadas;
Debates jurídicos intensos sobre a relação entre TST, INSS e critérios de comprovação.
O que a tese 125 deixa como lição
A principal mensagem da decisão é que a realidade clínica importa mais do que a burocracia.
Se a doença tem relação com o trabalho e reduz a capacidade de labor, a estabilidade existe. Se não tem impacto real ou não tem prova, não há direito.
Essa mudança dá mais humanidade à legislação, sem abrir espaço para abusos.
