A revolução tecnológica avança a passos largos e, junto com ela, cresce a preocupação sobre o futuro do mercado de trabalho. Se antes a automação ameaçava funções manuais e industriais, agora a inteligência artificial (IA) mira em áreas tradicionalmente administrativas e estratégicas.
Uma previsão recente acendeu o alerta no mundo corporativo: duas profissões podem desaparecer até o fim do ano — assistentes executivos e recrutadores.
A declaração foi feita por Aravind Srinivas, CEO da Perplexity AI, uma das startups mais promissoras do setor de IA generativa, em entrevista ao portal norte-americano The Verge. Segundo ele, ferramentas cada vez mais sofisticadas já são capazes de executar as tarefas dessas categorias com eficiência, agilidade e menor custo.
Assistentes executivos: uma função em xeque
Durante décadas, os assistentes executivos foram vistos como peças-chave dentro das empresas, responsáveis por organizar agendas, coordenar reuniões, filtrar informações e até mediar comunicações entre diretores e equipes.
Mas essa rotina altamente estruturada agora encontra concorrência direta em sistemas de inteligência artificial.
Plataformas como o Perplexity Comet, desenvolvido pela startup de Srinivas, prometem substituir com vantagem diversas atribuições desse cargo. Entre as funções já automatizadas estão:
Gerenciamento de agendas com atualizações em tempo real;
Produção de relatórios detalhados a partir de grandes volumes de dados;
Planejamento de reuniões, incluindo envio de convites e lembretes;
Respostas a e-mails personalizadas com base em históricos de conversas;
Busca e análise de informações online em segundos.
Segundo Srinivas, esse conjunto de recursos pode tornar desnecessário o trabalho humano em funções administrativas repetitivas. “Estamos falando de ferramentas que não apenas auxiliam, mas assumem totalmente a rotina do escritório”, destacou o executivo.
Recrutadores: a seleção de talentos nas mãos da IA
Outro setor que pode enfrentar forte impacto é o de recursos humanos, especialmente os recrutadores.
Já é comum que grandes empresas utilizem softwares para triagem inicial de currículos, reduzindo o tempo de análise manual. Porém, a nova geração de IAs leva o processo a outro nível:
Identificação de perfis ideais com base em dados comportamentais e profissionais;
Entrevistas automatizadas em vídeo, com análise de expressões faciais e linguagem corporal;
Testes de competências online aplicados e corrigidos por algoritmos;
Estruturação de processos seletivos completos com assertividade inédita.
Na visão de Srinivas, a evolução dessas ferramentas pode fazer com que a presença de recrutadores humanos se torne dispensável. “Se a IA consegue selecionar candidatos de forma mais rápida e precisa, sem vieses e a custo reduzido, a lógica de mercado tende a prevalecer”, afirmou.
A aceleração da automação
O grande catalisador dessa transformação está na evolução dos modelos de linguagem natural. Tecnologias como o ChatGPT, o Claude e o próprio Comet da Perplexity já demonstram capacidade de realizar análises complexas, entender contextos e responder de forma personalizada.
Com a chegada de versões mais avançadas, como o GPT-5 e o Claude 4.5, a expectativa é que essas ferramentas se tornem ainda mais robustas, capazes de lidar com processos que exigiam não apenas repetição, mas também tomada de decisão estratégica.
Para as empresas, os benefícios são claros: redução de custos, ganho de produtividade e maior velocidade nas operações. Mas para os trabalhadores, o cenário pode significar desemprego em massa ou a necessidade urgente de reinvenção.
Profissões em risco: um alerta global
A previsão de Srinivas não é isolada. Diversos estudos internacionais já vêm apontando que profissões com tarefas repetitivas e estruturadas estão entre as mais vulneráveis à substituição por IA.
Um relatório do World Economic Forum (WEF), por exemplo, estima que cerca de 85 milhões de empregos em todo o mundo podem ser eliminados pela automação até 2025, ao mesmo tempo em que novas funções serão criadas em áreas como supervisão de sistemas de IA e análise de dados.
O jornal espanhol El Confidencial destacou recentemente que nem todos os profissionais conseguirão fazer essa transição rapidamente. Isso porque os novos cargos exigem habilidades técnicas, estratégicas e digitais que demandam tempo e investimento em capacitação.
Reinvenção: desafio para trabalhadores e empresas
Apesar do cenário preocupante, especialistas reforçam que o desaparecimento de profissões não significa necessariamente o fim do emprego humano, mas sim uma transformação profunda.
Para os assistentes executivos, por exemplo, pode haver espaço para migração a funções de gestão de processos de IA, atuando como supervisores dos sistemas que assumirão as tarefas operacionais.
Já os recrutadores podem se reinventar em papéis de gestores de experiência do candidato, com foco em aspectos humanos e subjetivos que a IA ainda não é capaz de reproduzir com sensibilidade.
As empresas, por sua vez, enfrentam o desafio de equilibrar eficiência tecnológica com responsabilidade social, evitando que a automação resulte em exclusão massiva e desigualdade ainda maior no mercado de trabalho.
Brasil: estamos preparados?
No contexto brasileiro, a chegada de tecnologias disruptivas costuma ser mais lenta em comparação aos países desenvolvidos, mas os impactos já começam a ser sentidos.
Startups nacionais de recursos humanos digitais oferecem plataformas de recrutamento totalmente automatizadas, enquanto escritórios e corporações já utilizam ferramentas de agendamento e e-mails inteligentes baseados em IA.
No entanto, especialistas alertam que o país enfrenta dificuldades estruturais para absorver as mudanças. Baixos índices de alfabetização digital, somados à desigualdade social, podem dificultar a reinvenção de profissionais em risco.
O que esperar do futuro próximo
Se a previsão de Srinivas se confirmar, até o fim deste ano assistiremos a um marco histórico: o desaparecimento quase total de duas profissões tradicionais, substituídas pela inteligência artificial.
Por outro lado, o movimento pode abrir portas para novas carreiras, como:
Treinadores de IA (responsáveis por ensinar sistemas com base em dados humanos);
Auditores de algoritmos (garantindo que as decisões sejam éticas e imparciais);
Gestores de experiência digital (focados em manter a relação humana dentro de processos automatizados).
A chave será a adaptação. Profissionais que conseguirem desenvolver habilidades ligadas à tecnologia, pensamento crítico e criatividade terão mais chances de se destacar em meio às mudanças.
Considerações finais
O avanço da inteligência artificial não é mais um cenário distante: ele já está moldando o presente. A previsão de que assistentes executivos e recrutadores podem desaparecer até o fim do ano mostra a velocidade com que o mercado de trabalho está se transformando.
Embora o impacto seja desafiador, ele também abre espaço para reinvenção e para a criação de novos modelos profissionais. O grande dilema será garantir que a tecnologia caminhe junto com políticas públicas de capacitação, inclusão e proteção social.
Uma coisa é certa: quem se antecipar e investir em novas habilidades digitais estará mais preparado para enfrentar um futuro em que a inteligência artificial terá cada vez mais protagonismo.
