Terremoto na Colômbia: entenda a ciência por trás do tremor que deixou centenas de mortos

Tremor atingiu o oeste do país na segunda-feira, 10 de agosto, e já deixou mais de 250 mortos, segundo as atualizações mais recentes; especialista explica a movimentação das placas de Nazca e Sul-Americana e por que países como o Chile conseguem reduzir o número de vítimas

Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia na manhã de segunda-feira, 10 de agosto, provocando mortes, desabamentos e danos em diferentes cidades do país. O número de vítimas aumentou rapidamente durante as operações de resgate e, nas atualizações mais recentes, já ultrapassava 250 mortos, enquanto milhares de pessoas permaneciam desaparecidas ou feridas.

O epicentro foi registrado próximo de San José del Palmar, no departamento de Chocó, a uma profundidade de aproximadamente 100 quilômetros. O tremor foi sentido em uma área muito ampla, incluindo cidades como Cali e Pereira, e colocou novamente em evidência a vulnerabilidade sísmica da região andina.

A saber, o número inicial de 132 mortos citado na reportagem de televisão, portanto, já ficou defasado diante da evolução dos trabalhos de busca e salvamento. A contagem ainda pode mudar à medida que equipes conseguem acessar áreas isoladas e prédios atingidos.

Por que a Colômbia é tão sujeita a terremotos?

A explicação começa centenas de quilômetros abaixo da superfície. A Colômbia está localizada em uma região de elevada atividade tectônica, próxima ao encontro de diferentes placas que compõem a crosta terrestre.

O geólogo Caio Bicudo, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO), explicou em entrevista ao SBT News, que a região é marcada pela interação entre grandes blocos tectônicos.

“Essas regiões de borda da placa tectônica onde existe processo de subducção — ou seja, que uma placa tá indo para debaixo da outra — é muito comum ter esses processos de tectonismo e que cause esses terremotos”, explicou o especialista.

A subducção ocorre quando uma placa tectônica oceânica mergulha por baixo de outra placa. Na costa oeste da América do Sul, a Placa de Nazca se desloca em direção à Placa Sul-Americana e mergulha sob ela, processo que contribuiu para a formação e elevação da Cordilheira dos Andes e está associado à intensa atividade sísmica da região.

Esse movimento não acontece de maneira suave e contínua em todos os pontos. Em determinadas regiões, as rochas ficam travadas por atrito enquanto as placas continuam exercendo força. A energia se acumula até que uma ruptura aconteça, liberando parte dessa energia na forma de ondas sísmicas.

Um terremoto não acontece porque as placas simplesmente “batem”

A imagem de duas placas se chocando frontalmente ajuda a explicar o fenômeno, mas simplifica demais o que ocorre no subsolo.

As placas tectônicas são gigantescas e estão em movimento permanente. O que muda de uma região para outra é o tipo de contato entre elas, a velocidade do deslocamento, a geometria das falhas e a profundidade em que ocorre a ruptura.

Na América do Sul, a interação entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana se estende por milhares de quilômetros. O arco sísmico associado a essa convergência acompanha praticamente toda a margem ocidental do continente.

A Colômbia ainda possui uma situação geológica particularmente complexa porque também está próxima da influência da Placa do Caribe. O encontro de diferentes estruturas tectônicas ajuda a explicar a frequência dos terremotos na região.

Por que magnitude 7,4 significa um terremoto tão poderoso?

Outro ponto que costuma causar confusão é a chamada “Escala Richter”. Embora a expressão continue popular, os grandes terremotos modernos são geralmente descritos pela magnitude de momento (Mw), uma medida mais adequada para eventos de grande porte.

O princípio, entretanto, continua sendo logarítmico. Segundo o USGS, cada aumento de uma unidade na magnitude representa aproximadamente 10 vezes mais amplitude das ondas registradas e cerca de 32 vezes mais energia liberada.

Isso significa que a diferença entre magnitude 6 e magnitude 7 não é simplesmente “um pouco maior”. O terremoto de magnitude 7 libera aproximadamente 32 vezes mais energia do que um de magnitude 6.

Por isso, a passagem de magnitude 6 para 7 representa uma mudança importante na capacidade de um terremoto produzir danos, embora a quantidade de destruição também dependa da profundidade, distância do epicentro, tipo de solo e qualidade das construções.

A profundidade do terremoto também muda o resultado

O terremoto colombiano ocorreu a uma profundidade de cerca de 100 quilômetros, segundo as informações divulgadas sobre o evento. Essa característica ajuda a explicar por que o comportamento do tremor não pode ser analisado apenas pela magnitude.

Um terremoto mais profundo pode distribuir sua energia por uma área extensa, enquanto um evento mais superficial pode concentrar movimentos muito fortes próximo ao epicentro. O tipo de solo também influencia a intensidade do tremor percebido na superfície.

O USGS destaca que a intensidade da movimentação do terreno depende de fatores como magnitude, distância da falha, geologia local e características do solo.

É por isso que duas cidades relativamente próximas podem apresentar níveis muito diferentes de danos depois do mesmo terremoto.

O que realmente mata em um terremoto?

Existe uma frase bastante conhecida entre especialistas em risco sísmico: “terremotos não matam pessoas; prédios e objetos matam”.

A ideia não significa que o fenômeno natural seja inofensivo. Significa que a quantidade de vítimas depende fortemente da maneira como cidades e estruturas reagem ao movimento do solo.

O USGS explica que o principal mecanismo de destruição provocado por terremotos é o forte movimento do terreno, que pode levar ao colapso de edifícios e outras estruturas. Condições geológicas locais também podem amplificar a vibração.

É nesse ponto que entram os códigos de construção, fiscalização, qualidade dos materiais, planejamento urbano e preparação das equipes de emergência.

Por que o Chile consegue reduzir tantas mortes?

A comparação com o Chile é recorrente justamente porque o país convive há séculos com grandes terremotos.

O território chileno está sobre uma das regiões tectonicamente mais ativas do planeta, mas o país desenvolveu normas de construção e mecanismos de fiscalização voltados especificamente para esse risco.

Um exemplo marcante aconteceu em 2010, quando um terremoto de magnitude 8,8 atingiu a região de Maule. O evento provocou perdas econômicas estimadas em US$ 30 bilhões e destruiu centenas de milhares de moradias, mas o número de mortes foi muito menor do que poderia ser diante da extensão do tremor. Um relatório do USGS apontou que apenas cinco edifícios projetados por engenheiros foram destruídos pelo terremoto, destacando o papel dos códigos estruturais.

A experiência chilena mostra que tecnologia de construção não impede terremotos. Ela pode, contudo, reduzir drasticamente a probabilidade de que edifícios desabem quando o solo se movimenta.

O próprio USGS aponta que estruturas projetadas para resistir a fortes tremores, aliadas a códigos adequados e fiscalização, são ferramentas fundamentais para diminuir mortes e prejuízos.

O Brasil está fora da zona de grandes terremotos?

Não completamente.

O Brasil está localizado predominantemente no interior da Placa Sul-Americana, distante da principal zona de subducção da costa do Pacífico. Isso reduz a ocorrência de terremotos de grande magnitude quando comparado a países como Chile, Peru, Equador e Colômbia.

Mas estar longe da borda de uma placa não significa estar livre de terremotos.

O Serviço Geológico do Brasil registra que o maior terremoto conhecido no território brasileiro ocorreu em 1955, no Mato Grosso, na região da Serra do Tombador. O evento teve magnitude 6,2 segundo a base apresentada pelo SGB.

O país também já sentiu terremotos originados em outros países. Em 1994, por exemplo, um terremoto de magnitude 7,8 ocorrido na Bolívia foi sentido em Porto Alegre, a cerca de 2.200 quilômetros do epicentro. Como o hipocentro estava a aproximadamente 600 quilômetros de profundidade, os efeitos no Brasil foram relativamente limitados.

Isso ajuda a entender por que brasileiros podem sentir um grande terremoto ocorrido nos Andes mesmo estando a milhares de quilômetros do epicentro.

É possível prever quando acontecerá um terremoto?

Essa continua sendo uma das maiores limitações da sismologia.

A ciência consegue identificar áreas de maior risco, mapear falhas, monitorar terremotos e calcular probabilidades para determinados períodos. O que ainda não consegue fazer de maneira confiável é dizer que um terremoto específico acontecerá em determinada cidade, dia e horário.

Por isso, a prevenção é tão importante.

Em vez de esperar que a tecnologia consiga avisar exatamente quando uma falha vai romper, os países mais preparados trabalham com mapas de risco, códigos de construção, sistemas de alerta, treinamento da população e planos de emergência.

O objetivo é diminuir o intervalo entre o início do tremor e a resposta das autoridades, além de evitar que construções vulneráveis transformem um fenômeno geológico em uma catástrofe humanitária.

O terremoto também pode provocar deslizamentos e outros problemas

O risco não termina quando o chão para de tremer.

Grandes terremotos podem provocar deslizamentos de terra, liquefação do solo, danos a estradas, pontes, redes de água, energia e telecomunicações. Em áreas montanhosas, esses efeitos podem dificultar o acesso das equipes de resgate justamente quando as primeiras horas são mais importantes.

O USGS destaca que terremotos podem desencadear deslizamentos e que os efeitos sobre encostas podem persistir mesmo depois do tremor principal, especialmente quando ocorrem réplicas ou chuvas.

Em uma região como o oeste colombiano, onde existem áreas montanhosas e comunidades com infraestrutura limitada, esse efeito secundário pode aumentar significativamente a dificuldade de resposta.

As réplicas também fazem parte do perigo

Depois de um terremoto desse tamanho, a ocorrência de réplicas é esperada.

Esses novos tremores acontecem enquanto a região da falha se ajusta após o evento principal. Na maioria das vezes, as réplicas são menores que o terremoto inicial, mas algumas podem ser suficientemente fortes para danificar estruturas já enfraquecidas.

Por isso, equipes de resgate precisam trabalhar com cuidado entre prédios danificados.

A prioridade passa a ser encontrar sobreviventes sem colocar bombeiros, militares, voluntários e moradores em risco adicional.

O que o caso colombiano ensina ao Brasil?

O terremoto ocorrido na Colômbia não significa que o Brasil esteja prestes a sofrer um evento de magnitude semelhante. A situação tectônica brasileira é diferente e o risco sísmico é consideravelmente menor em grande parte do território.

Mas o episódio reforça uma questão que também interessa ao Brasil: preparação reduz o impacto dos desastres naturais.

O país possui regiões com atividade sísmica e cidades com diferentes níveis de vulnerabilidade estrutural. Mesmo um terremoto moderado pode provocar problemas localizados quando encontra construções frágeis, encostas instáveis ou infraestrutura sem manutenção adequada.

A recomendação apresentada pelo geólogo Caio Bicudo segue justamente nessa direção. Segundo a transcrição da entrevista ao SBT News, “a melhor forma de conseguir lidar com esse processo é fazendo um planejamento territorial e uma gestão que seja adaptada a esse tipo de fenômeno da natureza”.

A frase resume uma das principais conclusões deixadas pelo desastre colombiano.

Não existe tecnologia capaz de impedir que as placas tectônicas se movimentem. O que governos e cidades podem fazer é conhecer melhor o território, estabelecer normas de construção compatíveis com os riscos, fiscalizar sua aplicação e preparar a população para agir quando o chão começar a tremer.

Em vídeo e entrevista publicados pelo SBT News, o especialista detalhou justamente essa relação entre tectônica, magnitude e vulnerabilidade das cidades. O caso da Colômbia mostra, de maneira dramática, que a força de um terremoto é apenas uma parte da história: a outra está naquilo que existe sobre a superfície quando as ondas sísmicas chegam.

E é nessa segunda parte — engenharia, planejamento e prevenção — que está a maior possibilidade de reduzir o número de vítimas em futuros terremotos.

Fontes e atualização

A evolução do número de mortos passou por atualização com base nas informações disponíveis em 12 de agosto de 2026. A AP informou 181 mortos e 2.595 feridos em uma atualização de terça-feira, enquanto a Al Jazeera posteriormente reportou pelo menos 250 mortos e mais de 2.700 pessoas dadas como desaparecidas.

A princípio, para a explicação geológica, passaram por uso materiais do USGS sobre a subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana, além de documentos sobre risco sísmico na América do Sul.

Para a comparação com o Chile, levamos em consideração os estudos do USGS sobre o terremoto de magnitude 8,8 de 2010 e o papel dos códigos de construção na redução de mortes.

Por fim, para o Brasil, o Serviço Geológico do Brasil confirma o terremoto de 1955 no Mato Grosso como o maior registrado no país, com magnitude 6,2 na base apresentada pelo órgão.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.