Prédio de 10 andares montado em apenas 28 horas? Tecnologia da China leva construção modular a outro nível, promete reduzir desperdícios em até 90% e desafia a engenharia tradicional
Enquanto boa parte do mundo ainda depende de canteiros de obras que levam meses — e, em muitos casos, anos — para entregar edifícios, empresas chinesas estão acelerando o processo de construção com uma tecnologia baseada em módulos industrializados. Um dos exemplos mais conhecidos é o sistema desenvolvido pelo Broad Group, que ganhou repercussão internacional após montar um edifício de dez andares em apenas 28 horas e 45 minutos, utilizando componentes produzidos previamente em fábrica.
A velocidade da montagem impressiona, mas não é o único diferencial. A proposta combina industrialização, redução de desperdícios, estruturas metálicas e controle rigoroso de qualidade para transformar a forma como edifícios são construídos. Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que a adoção em larga escala depende do cumprimento das normas técnicas de cada país, da viabilidade econômica e da aceitação do mercado.
A obra deixa de ser improvisada e passa a funcionar como uma linha de montagem
O principal conceito por trás da construção modular é simples: quase todo o trabalho acontece dentro de uma fábrica.
Em vez de produzir paredes, lajes, instalações elétricas e hidráulicas diretamente no canteiro, os módulos são fabricados em ambiente controlado e chegam praticamente prontos ao local da obra.
Segundo análise apresentada pelo canal Mandarin Tech, os módulos produzidos pelo Broad Group já saem com paredes, janelas, pisos, sistemas elétricos, tubulações, ventilação e diversos acabamentos instalados.
No terreno, o trabalho consiste basicamente em posicionar essas estruturas utilizando guindastes de grande porte e realizar a união entre os módulos por meio de conexões metálicas de alta resistência.
“Construir da forma tradicional é como cozinhar uma refeição complicada ao ar livre. O método modular funciona como uma cozinha industrial, onde tudo já chega preparado”, compara a análise do canal.
Empresa chinesa transformou construção após terremoto histórico
Segundo o Mandarin Tech, a origem dessa tecnologia está diretamente relacionada ao terremoto de Sichuan, ocorrido em 2008.
A tragédia, que deixou dezenas de milhares de mortos, levou o empresário Zhang Yue, fundador do Broad Group, a investir em sistemas construtivos capazes de oferecer maior resistência estrutural e reduzir riscos em regiões sujeitas a terremotos.
Em vez de depender predominantemente do concreto moldado no local, a empresa passou a utilizar módulos estruturais em aço.
A escolha não foi aleatória.
Na engenharia estrutural, o aço apresenta elevada ductilidade, característica que permite absorver parte da energia produzida por um terremoto antes da ruptura da estrutura. Isso não significa que todo edifício metálico seja automaticamente mais seguro, mas explica por que esse material é amplamente utilizado em regiões com atividade sísmica, desde que o projeto atenda às normas técnicas aplicáveis.
Recordes colocaram a empresa no centro das atenções
O edifício de dez andares montado em pouco mais de um dia não foi o primeiro projeto a chamar atenção.
O Broad Group já havia apresentado o Mini Sky City, edifício de 57 pavimentos e cerca de 204 metros de altura cuja estrutura principal foi montada em apenas 19 dias.
Outro empreendimento residencial de 26 andares também ganhou destaque internacional ao ser erguido em poucos dias utilizando o mesmo conceito modular.
Segundo o Mandarin Tech, uma das vantagens é a redução do número de trabalhadores necessários no canteiro, já que boa parte da fabricação ocorre previamente na indústria.
Menos desperdício e maior controle de qualidade
A industrialização também busca resolver um dos maiores problemas da construção civil: o desperdício de materiais.
Dados frequentemente citados por empresas do setor indicam que sistemas modulares podem reduzir significativamente a geração de resíduos quando comparados aos métodos convencionais, principalmente pela fabricação padronizada e pelo reaproveitamento de materiais dentro das fábricas.
Além disso, como boa parte da produção ocorre em ambiente fechado, fatores climáticos deixam de interferir diretamente na execução.
Isso reduz atrasos provocados por chuvas, melhora o controle dimensional das peças e facilita a inspeção da qualidade antes do transporte.
Construção modular cresce em diferentes países
Embora a China tenha levado o conceito a uma escala impressionante, a construção modular não é exclusiva do país.
Segundo estudos da consultoria McKinsey & Company, a industrialização da construção pode reduzir prazos de execução entre 20% e 50%, além de contribuir para ganhos de produtividade em diferentes tipos de empreendimento.
Países como Singapura, Japão, Suécia, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos também vêm ampliando o uso de sistemas modulares em hospitais, hotéis, residências estudantis, edifícios comerciais e conjuntos habitacionais.
Em muitos desses mercados, governos passaram a incentivar métodos industrializados para enfrentar a escassez de mão de obra e acelerar a entrega de novas moradias.
Ainda existem desafios importantes
Apesar das vantagens, especialistas afirmam que a construção modular não representa uma solução universal.
Cada país possui códigos de obras, normas técnicas e exigências específicas relacionadas ao comportamento estrutural, segurança contra incêndio, desempenho acústico, eficiência energética e durabilidade.
Outro desafio envolve o transporte dos módulos, que exige logística especializada, além da adaptação de projetos arquitetônicos para aproveitar o potencial da industrialização sem limitar a diversidade estética das construções.
Também há debates sobre custos iniciais de implantação das fábricas e sobre a necessidade de qualificação profissional para operar novas tecnologias.
Impressão 3D representa outra frente da transformação
Além dos módulos metálicos, a China também investe em impressão 3D aplicada à construção civil.
Empresas como a Winsun desenvolveram equipamentos capazes de imprimir paredes utilizando misturas cimentícias com materiais reciclados.
Nesse modelo, as estruturas são produzidas camada por camada a partir de projetos digitais.
Embora a tecnologia venha evoluindo rapidamente, especialistas observam que ela ainda enfrenta desafios relacionados à integração de fundações, cobertura, instalações elétricas, hidráulicas e acabamentos em um único processo automatizado.
O que mais o leitor precisa saber sobre essa tecnologia
A construção modular vem sendo estudada por universidades, fabricantes e entidades do setor como uma das principais alternativas para aumentar a produtividade da construção civil, historicamente considerada uma das indústrias com menor avanço em eficiência nas últimas décadas. Além da redução de resíduos e do menor tempo de execução, esse modelo pode oferecer maior previsibilidade de custos, já que boa parte da produção ocorre em ambiente industrial controlado.
Outro aspecto relevante é que edifícios modulares não dispensam projetos estruturais, cálculos de engenharia nem licenciamento. Independentemente da velocidade de montagem, cada empreendimento precisa atender às normas técnicas e aos códigos de construção do país onde será implantado. A segurança da estrutura depende do projeto, dos materiais empregados, da fabricação, da montagem e das inspeções realizadas ao longo de todo o processo, e não apenas da rapidez com que o edifício é erguido.
Vídeo mostra como funciona a montagem dos edifícios
Em vídeo publicado no canal Mandarin Tech, são apresentados detalhes sobre o funcionamento do sistema modular desenvolvido pelo Broad Group, incluindo imagens da fabricação dos módulos, do transporte até o canteiro e da montagem acelerada dos edifícios. A análise também discute as vantagens, os desafios e os impactos que esse modelo pode provocar na indústria global da construção civil nas próximas décadas.
