Mais vacas do que gente: o mistério do ‘vazio’ no Uruguai e o que ele ensina sobre o futuro do Brasil

Com território maior que Grécia ou Portugal, país vizinho tem 95% da população concentrada em cidades e o maior índice de gado por habitante do mundo; vídeo do canal 'Mundo Entrópico' detalha como essa realidade foi 'construída'.

O Uruguai costuma ser lembrado pelos brasileiros como um destino de praias tranquilas, segurança relativa e qualidade de vida elevada. Mas um dado chama a atenção de quem observa o mapa da América do Sul: apesar de possuir um território maior que países europeus como Portugal e Grécia, a nação vizinha abriga pouco mais de 3,4 milhões de habitantes, população inferior à da cidade de São Paulo. Especialistas afirmam que essa característica não é consequência de limitações naturais, mas do resultado de decisões históricas, econômicas e demográficas tomadas ao longo de quase dois séculos.

A explicação reúne fatores que vão desde a formação política do país até a predominância da pecuária extensiva, passando por mudanças sociais precoces e pelo envelhecimento acelerado da população. O tema foi abordado em análise publicada pelo canal Mundo Entrópico, que relaciona essas transformações a dados históricos e estatísticos sobre o Uruguai.

Um território grande, mas com poucos habitantes

Com aproximadamente 176 mil quilômetros quadrados, o Uruguai ocupa uma área superior à de Portugal e da Grécia. Apesar disso, segundo dados do Banco Mundial e das estimativas demográficas mais recentes, sua população gira em torno de 3,4 milhões de habitantes, tornando-o um dos países menos populosos da América do Sul.

Outro indicador chama ainda mais atenção: segundo estatísticas agropecuárias do governo uruguaio e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o país possui aproximadamente 3,5 bovinos para cada habitante, uma das maiores proporções do planeta.

“Lá o boi não é maioria por exagero da pecuária; é maioria porque faltou gente”, resume a análise apresentada pelo canal Mundo Entrópico.

O problema nunca foi falta de terras férteis

Ao contrário do que muitos imaginam, o território uruguaio não apresenta grandes limitações naturais para ocupação humana.

Grande parte do país está inserida no bioma Pampa, caracterizado por extensas planícies, solo profundo, boa disponibilidade de água e clima temperado, condições consideradas favoráveis tanto para agricultura quanto para pecuária.

“Pampa é o oposto de terra ruim”, destaca a análise.

A diferença está na forma como esse território foi ocupado ao longo da história. Enquanto outros países sul-americanos expandiram áreas agrícolas intensivas, o Uruguai consolidou um modelo baseado na pecuária extensiva, atividade que demanda relativamente pouca mão de obra.

A pecuária moldou a distribuição da população

Segundo dados do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai, aproximadamente 84% do território nacional é destinado a pastagens naturais ou áreas voltadas à criação de gado.

Nesse modelo produtivo, grandes propriedades conseguem operar com poucos trabalhadores, diferentemente de culturas agrícolas intensivas, que exigem maior concentração populacional.

Como consequência, o interior uruguaio permaneceu pouco povoado durante décadas.

A densidade demográfica nacional permanece baixa, com cerca de 19 habitantes por quilômetro quadrado, enquanto grande parte da população vive concentrada na região metropolitana de Montevidéu.

Montevidéu concentrou pessoas, empregos e investimentos

A origem dessa concentração urbana remonta ao nascimento do próprio país.

O Uruguai conquistou sua independência em 1828 após mediação britânica, tornando-se um Estado situado entre Brasil e Argentina. Diversos historiadores apontam que a localização estratégica do porto de Montevidéu influenciou profundamente o desenvolvimento nacional.

Segundo o historiador uruguaio José Pedro Barrán, citado na análise do Mundo Entrópico, a estrutura econômica foi construída com forte centralização na capital.

“O navio atracava no porto, o emprego estava no porto, a cidade estava no porto. O interior não oferecia nada, nem cidade nem trabalho”, descreve o documentário.

Durante o intenso fluxo migratório europeu do século XIX e início do século XX, grande parte dos imigrantes permaneceu justamente em Montevidéu, ampliando ainda mais essa concentração populacional.

Hoje, aproximadamente metade dos uruguaios vive na região metropolitana da capital.

O Uruguai foi pioneiro em diversas reformas sociais

Outro aspecto frequentemente citado por demógrafos diz respeito às profundas transformações institucionais implementadas ainda no início do século XX.

Durante os governos de José Batlle y Ordóñez, o país adotou reformas consideradas bastante avançadas para a época.

Entre elas estavam a ampliação da educação pública gratuita e laica, a separação entre Igreja e Estado, a regulamentação do divórcio em 1907 e diversas mudanças na organização do Estado de bem-estar social.

Essas transformações contribuíram para mudanças graduais no comportamento das famílias, antecipando tendências demográficas observadas décadas depois em outras partes do mundo.

A natalidade caiu antes do restante da América Latina

Segundo dados das Nações Unidas e do Banco Mundial, o Uruguai apresenta atualmente uma taxa de fecundidade próxima de 1,4 filho por mulher, bem abaixo do nível considerado necessário para reposição populacional, estimado em cerca de 2,1 filhos.

Essa redução vem sendo observada há décadas e colocou o país entre os mais envelhecidos da América Latina.

O processo acompanha fenômenos registrados em diversas economias desenvolvidas, como aumento da escolaridade, maior participação feminina no mercado de trabalho, urbanização, ampliação do acesso a métodos contraceptivos e adiamento da maternidade.

O envelhecimento se tornou um dos maiores desafios

Com menos nascimentos e maior expectativa de vida, a estrutura etária uruguaia mudou significativamente.

Dados oficiais mostram que aproximadamente 16% da população possui mais de 64 anos, percentual superior ao observado na maioria dos países latino-americanos.

Esse cenário aumenta os desafios relacionados à Previdência, aos sistemas públicos de saúde e à disponibilidade futura de trabalhadores para sustentar o crescimento econômico.

Organismos internacionais como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) vêm alertando que esse processo tende a se intensificar em diversos países da região nas próximas décadas.

Jovens deixam o país em busca de oportunidades

Além da baixa natalidade, o Uruguai enfrenta outro fenômeno relevante: a emigração.

Estimativas indicam que centenas de milhares de uruguaios vivem atualmente no exterior, especialmente na Argentina, Espanha, Estados Unidos e outros destinos.

Segundo a análise do Mundo Entrópico, muitos desses emigrantes são profissionais formados em universidades públicas.

“O Uruguai tem universidade pública e de graça, forma médico, engenheiro, pesquisador, e o mercado pequeno não absorve”, afirma o vídeo.

Economistas apontam que mercados internos reduzidos costumam oferecer menos oportunidades de especialização e crescimento profissional, incentivando parte da população jovem a buscar empregos em economias maiores.

O Brasil também vive mudanças demográficas

Embora apresente uma realidade muito diferente em termos populacionais, o Brasil começa a registrar tendências semelhantes.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de fecundidade brasileira caiu de forma consistente nas últimas décadas e já está abaixo do nível de reposição populacional.

As projeções do instituto indicam que o país continuará envelhecendo nas próximas décadas, com aumento da participação dos idosos e desaceleração do crescimento da população.

Essa transformação tende a produzir desafios semelhantes aos enfrentados atualmente por diversos países desenvolvidos, incluindo mudanças no mercado de trabalho, na Previdência Social e na demanda por serviços públicos.

Especialistas afirmam que o caso uruguaio oferece importantes lições

Para demógrafos, o Uruguai representa um exemplo antecipado de processos que vêm ocorrendo em diversas partes do mundo.

A combinação entre urbanização, baixa natalidade, envelhecimento populacional e migração de jovens qualificados passou a fazer parte da realidade de inúmeros países nas últimas décadas.

Em vídeo publicado em seu canal, o Mundo Entrópico detalha como fatores históricos, econômicos e sociais contribuíram para formar esse cenário e discute por que a experiência uruguaia pode servir como referência para compreender desafios demográficos que começam a ganhar importância em toda a América Latina, inclusive no Brasil.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no ano de 2020.Com mais de 15 anos de experiência como redator web, especializou-se na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse público, incluindo grandes investimentos macroeconômicos, economia, negócios no esporte e o impacto de megaprojetos no PIB nacional. Sua dedicação à precisão e relevância tornou seu trabalho uma referência nesses segmentos, ajudando milhares de leitores a se manterem bem informados.