O Flamengo pretende dar um novo salto em sua estratégia de crescimento financeiro nos próximos anos. Em entrevista ao podcast Market Makers, o presidente do clube para o triênio 2025-2027, Luiz Eduardo Baptista, o BAP, afirmou que a meta é transformar o Rubro-Negro no “Real Madrid das Américas”, reduzindo a dependência dos resultados esportivos para ampliar receitas e fortalecer a marca em escala internacional.
O dirigente apresentou uma série de projetos que envolvem mídia própria, comércio eletrônico, governança corporativa, exploração da base de torcedores e até uma nova visão para o tão discutido estádio próprio. A proposta parte de um cenário já favorável: o Flamengo tornou-se recentemente o primeiro clube brasileiro a superar R$ 1,5 bilhão em receitas recorrentes e ultrapassar a marca de R$ 2 bilhões em faturamento anual, consolidando-se como a principal potência econômica do futebol nacional.
O plano para fazer o Flamengo crescer mesmo quando não conquista títulos
Segundo BAP, um dos maiores desafios dos clubes brasileiros é depender excessivamente do desempenho dentro de campo para manter receitas elevadas. Para ele, esse modelo impede um crescimento consistente no longo prazo.
Durante a entrevista, o dirigente citou o Real Madrid como referência internacional ao destacar que grandes clubes conseguem ampliar receitas comerciais mesmo em temporadas sem domínio absoluto nas competições.
“O crescimento é em cima de receitas comerciais, independente e desassociado do resultado esportivo. É isso que vai garantir o crescimento”, afirmou.
Na avaliação do presidente, a torcida do Flamengo representa um ativo ainda subexplorado comercialmente. O objetivo da atual gestão é transformar esse enorme alcance em novas fontes permanentes de receita.
Flamengo TV pode multiplicar faturamento com conteúdo digital
Um dos projetos considerados prioritários pela diretoria envolve a expansão da Flamengo TV. Segundo BAP, o potencial econômico da plataforma pode saltar dos atuais cerca de R$ 237 milhões para algo entre R$ 600 milhões e R$ 800 milhões por ano.
A estratégia inclui investimentos em tecnologia, distribuição digital e venda integrada de produtos durante as transmissões.
Em um dos trechos da entrevista, BAP explicou que imagina uma plataforma semelhante ao modelo adotado por grandes canais digitais.
“Eu poderia ser a CazéTV do Flamengo”, comentou, ao explicar que a ideia é utilizar transmissões próprias, interação em tempo real e ferramentas de compra instantânea para aproximar ainda mais o torcedor.
O dirigente também revelou que o clube possui atualmente uma base superior a 10,4 milhões de CPFs cadastrados, informação que permite conhecer hábitos de consumo dos torcedores e direcionar campanhas comerciais com muito mais precisão.
Marca própria pode reduzir dependência de Nike e Adidas
Outro projeto citado envolve a possibilidade de o Flamengo comercializar seus próprios materiais esportivos no futuro.
Segundo BAP, a partir de 2030 o clube poderá avaliar modelos de operação em que passe a controlar diretamente a produção e comercialização de uniformes e outros produtos licenciados, reduzindo a dependência de grandes fornecedoras internacionais.
Além disso, o dirigente explicou que a integração entre notícias do Centro de Treinamento, transmissões digitais e comércio eletrônico deverá criar um ecossistema capaz de gerar vendas praticamente durante todo o dia.
A ideia acompanha uma tendência observada em grandes clubes europeus, que passaram a explorar de forma mais intensa receitas digitais, programas de fidelidade, marketplaces próprios e experiências exclusivas para torcedores.
Estádio próprio continua nos planos, mas juros elevados mudam estratégia
Embora a construção de um estádio próprio continue sendo um dos maiores desejos da torcida, BAP deixou claro que o projeto não será acelerado sem que exista segurança financeira.
Segundo ele, estudos realizados pela Fundação Getulio Vargas (FGV) apontam que uma arena economicamente viável para o Flamengo precisaria comportar entre 70 mil e 80 mil espectadores.
Mesmo assim, o dirigente afirmou que o cenário atual de juros elevados no Brasil torna o investimento extremamente caro.
“Não vou nem quebrar o clube nem afetar a performance esportiva do clube”, afirmou.
De acordo com BAP, enquanto o custo do capital permanecer elevado, manter a gestão do Maracanã faz mais sentido do ponto de vista financeiro.
Ele destacou que a operação atual apresenta margem próxima de 76%, além de o Flamengo possuir contrato de utilização do estádio pelos próximos 18 anos.
Na avaliação do dirigente, somente um cenário de redução significativa das taxas de juros justificaria acelerar bilhões de reais em investimentos para uma arena própria.
A reestruturação financeira iniciada em 2013 ainda influencia decisões
Ao explicar a postura conservadora da atual administração, BAP relembrou o período de profunda crise financeira vivido pelo Flamengo a partir de 2013.
Segundo ele, o clube enfrentou dificuldades para honrar despesas básicas, chegando a enfrentar problemas para adquirir materiais simples para o funcionamento cotidiano.
O presidente recordou que decisões impopulares precisaram ser tomadas naquela época, incluindo a saída de jogadores importantes e mudanças na comissão técnica por limitações financeiras.
“Nós passamos quase 20 anos numa draga. Ficamos cinco ou seis anos no inferno para construir uma base sólida”, relembrou.
Essa experiência, segundo o dirigente, levou o Flamengo a adotar mecanismos mais rígidos de governança, compliance e controle financeiro para impedir que futuras administrações comprometam novamente a estabilidade econômica da instituição.
Liga unificada só faz sentido se gerar mais dinheiro
Outro tema debatido durante a entrevista foi a possibilidade de unificação entre os grupos que discutem a criação de uma liga nacional de clubes.
BAP demonstrou cautela ao comentar as negociações entre Libra e Liga Forte União.
Segundo ele, uma eventual associação precisa produzir ganhos efetivos para todos os envolvidos.
“Eu não me juntaria com alguém numa sociedade se não fosse para ter um crescimento expressivo, onde um mais um desse três.”
O dirigente também criticou modelos que, em sua avaliação, permitem vantagens desproporcionais para determinados participantes e afirmou que o futebol brasileiro precisa construir uma estrutura de governança mais equilibrada.
Recuperação judicial e o alerta contra o chamado “doping financeiro”
Durante a conversa, BAP também abordou a situação financeira de diversos clubes brasileiros.
Segundo ele, existem brechas jurídicas que acabam permitindo a equipes em recuperação judicial manter elevados investimentos em contratações enquanto antigas dívidas permanecem sem pagamento.
Na avaliação do dirigente, esse cenário gera desequilíbrios competitivos.
Ele defendeu mecanismos regulatórios capazes de responsabilizar administrações consideradas temerárias e criar regras mais rígidas para garantir sustentabilidade financeira ao futebol nacional.
Formação de atletas e mudanças na legislação esportiva
Outro ponto levantado por BAP envolve a formação de jogadores brasileiros.
O dirigente afirmou que o país precisa discutir mudanças na legislação esportiva para reduzir a saída precoce de jovens talentos rumo ao futebol europeu.
Segundo ele, o atual modelo oferece pouca proteção aos clubes formadores.
Durante a entrevista, BAP sugeriu que o Congresso Nacional avalie possíveis ajustes na Lei Geral do Esporte para fortalecer o papel das categorias de base e preservar por mais tempo atletas em desenvolvimento.
A Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) consolidou diversas normas que anteriormente estavam espalhadas pela legislação esportiva brasileira, incluindo dispositivos relacionados à formação de atletas, governança e direitos das entidades esportivas.
O futebol brasileiro vive uma transformação econômica
Nos últimos anos, o futebol nacional passou por mudanças profundas em sua estrutura financeira. A chegada das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), instituídas pela Lei nº 14.193/2021, ampliou a entrada de investidores privados e alterou significativamente o ambiente de gestão dos clubes.
Ao mesmo tempo, as receitas provenientes de direitos de transmissão, marketing, programas de sócio-torcedor, patrocínios e licenciamentos ganharam peso crescente nos balanços financeiros das principais equipes do país.
Nesse cenário, o Flamengo consolidou uma posição de liderança ao registrar sucessivos recordes de arrecadação e manter elevado nível de investimentos tanto no futebol profissional quanto na estrutura administrativa.
A estratégia apresentada por BAP busca justamente ampliar essa vantagem competitiva, aproximando o clube dos modelos de negócios utilizados por gigantes europeus que transformaram suas marcas em plataformas globais de entretenimento.
Entrevista detalhou bastidores da estratégia rubro-negra
Ao longo da conversa com os jornalistas Thiago Salomão e Bruno Chatque, do podcast Market Makers, BAP detalhou os fundamentos econômicos que sustentam seu planejamento para os próximos anos.
Além das metas comerciais, o dirigente explicou como pretende fortalecer a governança do clube, utilizar instrumentos financeiros para reduzir riscos cambiais em negociações internacionais e estruturar uma administração cada vez mais profissionalizada.
Segundo ele, o objetivo é construir uma instituição capaz de crescer de forma sustentável, independentemente das oscilações naturais dos resultados dentro das quatro linhas, preservando a saúde financeira enquanto amplia o potencial de receitas em diversas frentes.
